Os Satyros encenam 'Vestido de Noiva', de Nelson Rodrigues

Grupo optou por não ignorar a montagem original, de Ziembinski, mas sim por dialogar com ela, com liberdade

Beth Néspoli, de O Estado de S.Paulo,

07 Fevereiro 2008 | 20h39

É uma peça fetiche. Assim Rodolfo García Vázquez, diretor do grupo Os Satyros, define Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, cuja encenação por ele dirigida estréia nesta sexta-feira, 8, no Itaú Cultural em temporada relâmpago. Como convidada especial, a atriz Norma Bengell, no papel de Madame Clessi. "Descobrimos a forte atração que essa peça exerce sobre o público na leitura pública que realizamos ano passado", diz Rodolfo, no intervalo de um ensaio. "Todo mundo que conhece o texto tem uma opinião a dar; quem não conhece já ouviu falar e quer ver no palco, tem curiosidade."   O impacto da montagem de Ziembinski  Imagens   Dirigida por Ziembinski (1908-1978), marco na história do teatro, a primeira montagem tornou-se uma espécie de fantasma a perseguir todos diretores que se arriscam a encenar esse texto. Manter os famosos três planos de ações simultâneas ou fugir deles? Vázquez optou por não ignorar a montagem original, mas sim por dialogar com ela, com liberdade. "Achamos importante nos desvencilharmos da tradição e buscar a mesma ousadia que fez dessa montagem um marco", afirma Vázquez.   A reportagem do Estado acompanha o ensaio. De saída, os tecidos brancos sobre o cenário vertical e a escada lateral remetem à famosa imagem do cenário criado por Santa Rosa. Estão ali os planos verticais da cenografia original. Mas diferenças logo aparecem. Na encenação dos Satyros, Alaíde (Cléo de Paris), a atropelada, vê mulheres dançando no bordel de Madame Clessi no plano mais baixo - supostamente o da alucinação. Mas é na parte superior do palco que surge Norma Bengell, no papel da cafetina Madame Clessi cantando - ela dubla a si mesma numa canção que gravou em seu primeiro disco, Oh Norma. Mas esse deveria ser o plano da memória e Clessi é a cafetina do bordel?   Bem, é também o plano da memória. O espectador logo percebe porque nesse mesmo ponto ele verá a discussão de Alaíde e sua irmã Lúcia (Nora Toledo) no momento em que a primeira se veste de noiva para casar com Pedro (Ivam Cabral), cena que faz parte do resgate de 'lembranças'. Nessa cena, Vázquez utiliza o recurso do teatro de sombras, o que resulta não só em um bonito efeito, como serve dramaticamente ao clima de mistério em torno da mulher de véu, cuja identidade custamos a conhecer.   Mais que formal, há aí uma diferença conceitual importante. Na década de 40, o cenário vertical servia para separar, com precisão, as ações que se passavam na realidade - uma mulher atropelada sendo cuidada por médicos - das que se davam na mente conturbada dessa mulher que ora delirava, ora rememorava fatos de sua vida. "Abolimos os três planos - realidade, alucinação e memória", diz Vázquez. "Tudo se passa na mente de Alaíde."   Até o atropelamento e a cirurgia - retratada em criativa solução cênica - pode não ter acontecido, não se sabe. "Buscamos uma encenação contemporânea e hoje já se sabe que memória e realidade são construções." Quem conhece bem a montagem feita por Ziembinski reproduzida em 1976, na qual Norma Bengell também interpretava Clessi, certamente vai identificar pontos de contato. "A voz em off nós também utilizamos além de microfones", diz Vázquez. "Mas se algo muda é o ritmo. Embora o texto esteja na íntegra, a peça tem uma hora e 20 minutos." É quase a metade do tempo da primeira. "Queríamos que fosse ágil. Tivesse ritmo de videoclipe. E multimídia. Assim como Ziembinski lançou mão de muitos recursos, usamos os que estão disponíveis em nosso tempo."   Antes da ação de Vestido de Noiva começar, Nelson Rodrigues sugere que o público "ouça" - buzina de automóvel; rumor de derrapagem violenta; som de vidraças partidas; silêncio; som de ambulância; silêncio. Na montagem dos Satyros, essas instruções do autor, além de ouvidas, são 'lidas' como se estivessem sendo escritas numa velha máquina, cuja imagem é projetada numa fina tela branca, entre palco e platéia. "Era um recurso não disponível na época, mas que provavelmente Ziembinski usaria." Há ainda cenas filmadas em preto-e-branco, projetadas sobre a tela. "Sabe essa idéia de que na recuperação de um filme antigo, maltratado, algumas cenas se perdem? A memória também é assim."   A própria presença de Norma Bengell - indubitavelmente carismática - é uma ponte entre as duas montagens. "Mas a Clessi de agora não tem nada a ver com a do Ziembinski", diz Bengell. "Ela sorri, a outra era séria. Na minha entrada, eu brinco com a imagem da vedete que fui. Tem outra atmosfera. Eu sou outra, a Clessi é outra, tudo muda. Estou muito feliz."

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