João Caldas/ Divulgação
João Caldas/ Divulgação

Os estreitos laços que nos prendem

Coesa e poderosa, peça 'Tribos' é metáfora psicológica e social da barreira que se forma entre pessoas que se gostam

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2013 | 02h36

O enredo de Tribos é um caso de tirania do afeto. O paradoxo é aparente. O mundo também é feito de pessoas na sala de jantar ocupadas em nascer e morrer como os Mutantes cantaram em Panis et Circensis (1968), o disco símbolo do Tropicalismo. Metáfora psicológica e social e retrato de situações em que o conservadorismo e a neurose enfrentam as "folhas de sono que sabem procurar o sol". Um filho surdo é mantido em casa sem aprender a linguagem dos sinais, porque assim estaria protegido, quando na verdade serve de anteparo e desculpa para frustrações ao seu redor. Mandonismo paterno e desajuste conjugal cristalizados em valores autoritários e alienação entre quatro paredes, na miniaturização do mundo e da vida coletiva. Por aí se pode ir até a política internacional.

A autora Nina Raine, inglesa, é sobrinha-neta do escritor russo Boris Pasternak, do romance Dr. Jivago (1890- 1960). Pasternak ganhou o Prêmio Nobel, mas não teve autorização para recebê-lo na Suécia. A URSS havia esmagado em 1956 o levante da Hungria contra Moscou, e o Ocidente respondeu em 1958 com o Nobel a Pasternak, artista independente do realismo oficial e que pagou por algo acima dele, como o surdo da peça. Obrigado a resignar-se, não viveu o sucesso mundial do livro transformado em filme.

O jovem de Tribos (Bruno Fagundes) escapa, porém, da redoma opressiva dos pais e do próprio irmão. Descobre que há outra vida lá fora, o que inclui os gestos que falam e o amor. Ou seja, volta-se à questão de crueldades com supostas melhores intenções. Nina Raine joga duro, mas, filha de poeta, Craig Raine, concede boa margem à subjetividade. Evidentemente, não ignora o grande teatro de desastres familiares (O'Neill, Williams, Albee).

Em Tribos, o aprisionamento de uma pessoa pode estar além dos laços de sangue e do tédio entre marido e mulher. Em entrevista ao Estado, Nina disse que presenciou as mais diversas reações: "Os gays sentiram que a peça contava sua história. Depois, uma amiga, que tinha recentemente dado à luz, chorou dizendo ter sentido que ecoava o isolamento que tinha acabado de descobrir - e uma negra a interrompeu, dizendo: 'Ora, pensei que a peça traduzia a sensação de ser uma negra entre os brancos'. Creio que uma peça só pode ter tamanho impacto na realidade vivida pelos outros quando mostra uma realidade própria extremamente coesa e poderosa".

Pois Tribos é coesa e poderosa. Nada ou ninguém escapa neste raio X. Os pontos escuros, os nódulos, as manchas da existência surgem em frases entrecortadas, em desabafos, e na tomada de consciência da vítima de tanta proteção fora de propósito. O casal não se entende há anos, os irmãos não acharam uma comunicação certa e até a namorada do rapaz (uma moça em processo de ensurdecimento) é levada a contradições.

O texto e o espetáculo sólido de Ulysses Cruz, sem a mínima concessão ao melodrama, extraem gestos compreensíveis de pessoas que, no fundo, não são visceralmente más, apenas perderam o rumo. A encenação desse universo caótico exige equilíbrio, sobretudo quando se tem no elenco intérpretes com menos carreira ao lado de Antonio Fagundes.

O diretor encontra esse ponto ideal e Antonio Fagundes é comedido no temperamento cênico naturalmente expansivo. Ocupa seu espaço numa composição em que abre mão de protagonismos e confere a providencial nota de humor a um clima tenso. Faz boa parceria com Eliane Cigaarini, a convincente esposa irritada e mãe possessiva. A composição do surdo (a voz alterada de quem não se ouve) exige de Bruno Fagundes contida emoção e um esforço suplementar de criação. Não deve ser fácil.

Arieta Correia, com apurada técnica vocal e emoção, concilia timidez e audácia em minimalismo dramático. A composição de Guilherme Magon, como uma espécie de skinhead ameaçador, dificulta às vezes a compreensão do conflito íntimo do personagem, o irmão também com sérios problemas. Maíra Dvorek delineia com força a dor da mulher que tem os fracassos minimizados pelos dois irmãos. Tribos já foi chamada de "comédia perversa". Quem sabe seja melhor vê-la como um caso grave de surdez da solidariedade. A cenografia de Lu Bueno, um paredão doméstico, é a imagem eloquente dessa barreira entre pessoas que se gostam.

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