O impacto da montagem histórica de Ziembinski

Fascínio em torno da peça Vestido de Noiva sem dúvida não se reduz ao campo da dramaturgia

Beth Néspoli, de O Estado de S.Paulo,

07 Fevereiro 2008 | 20h48

O fascínio em torno da peça Vestido de Noiva sem dúvida não se reduz ao campo da dramaturgia e tem origem na famosa primeira montagem, de 1943, considerada um marco de passagem para a modernidade no teatro brasileiro. Realizada pelo grupo Os Comediantes - num momento em que os amadores eram os responsáveis pela renovação da cena nacional -, uniu os talentos do diretor polonês Zbigniew Ziembinski, do cenógrafo Tomás Santa Rosa e, claro, do jovem autor Nelson Rodrigues.   ImagensOs Satyros encenam 'Vestido de Noiva' Surpreendente, inovadora, ousada: os três planos - realidade, alucinação, memória - de ações simultâneas de Vestido de Noiva são a chave para entender o desafio que representava sua encenação nos palcos da época e o impacto do espetáculo criado por Ziembinski. No plano da realidade, uma mulher é atropelada e passa por uma cirurgia. A partir daí, o público acompanha o "delírio" de Alaíde - ela imagina estar no bordel de Madame Clessi, a cafetina assassinada cujo diário leu às escondidas na infância - e os momentos em que ela passa ao plano da memória e, aos poucos, resgata sua história familiar. Num tempo em que a cenografia do teatro profissional se restringia basicamente aos telões de fundo, Tomás Santa Rosa criou o que ele chamou de arquitetura cênica, um cenário vertical com os três planos de representação unidos por escadas laterais. Sob os 132 efeitos de luz criados por Ziembinski, atores e objetos de cena ‘flutuavam’ como observou Nelson Rodrigues. O elenco, cuidadosamente ensaiado, segundo Décio de Almeida Prado, conseguia trabalhar nuances do texto e chegava ao requinte de explorar estilos de interpretação diferentes: expressionista nas cenas da alucinação; mais próxima do realismo nas de resgate da memória e naturalista no plano da realidade. Em 1958, o ator Sérgio Cardoso ousa uma montagem despojada, que valoriza as relações humanas, a disputa entre as irmãs Lúcia e Alaíde pelo mesmo homem, Pedro. Mas é tão forte o mito que, em 1976, sobe ao palco um espetáculo que é a reprodução exata do criado por Ziembinski e Santa Rosa. No papel de Madame Clessi está Norma Bengell que o retoma agora, na montagem dos Satyros. É com essa montagem histórica que a dirigida por Rodolfo García Vázques dialoga, como se pode ver pelas imagens nessa página: uma cruz de madeira na década de 40 e agora feita de luz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.