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'Nossas vidas são construídas pelo que vemos nos filmes'

O argentino de 'Cineastas' discute, em seu trabalho na mostra, a presença de formas ficcionais na vida cotidiana

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

07 de março de 2014 | 02h09

Com formação em cinema, Mariano Pensotti tem se destacado como um dos mais interessantes diretores da cena de Buenos Aires. Da MIT, ele participa com Cineastas, mais recente de seus espetáculos, no qual discute os limites entre as duas artes: o cinema e o teatro. E, sobretudo, as frágeis fronteiras entre realidade e ficção. Na peça, ele mostra a vida pessoal de quatro cineastas e concomitantemente os filmes que eles realizam. O espectador assiste aos dois universos de maneira simultânea, em um palco dividido em dois cenários.

Em 'Cineastas' você está discutindo a relação entre realidade e ficção. Como vê esse tráfego?

Todos nós produzimos ficções em nossas vidas, todos narramos coisas que vivemos ou que aconteceram a outros e, ao narrá-las, as modificamos e ficcionalizamos. E há também algo que é ainda mais complexo: como nossas vidas são construídas por ficções. Relacionamos nossas experiências àquilo que vimos nos filmes, na televisão, nos livros. A ficção é uma grande formadora de nossa personalidade.

Você se formou inicialmente em cinema. O que isso traz para a sua prática no teatro?

Originalmente, estudei cinema e artes visuais. Como herança, me ficou o interesse pelo cruzamento entre disciplinas. Me interessa pegar recursos narrativos dos filmes e aplicá-los no teatro. Também em muitos casos a cenografia de minhas obras lembram instalações.

O teatro é fugaz. O cinema é uma forma de aprisionar o tempo. Como essas ideias contrastantes aparecem em uma mesma obra?

Essa contraposição era outro dos conceitos que me interessava desenvolver. Algo entre o efêmero e o duradouro. Tarkovsky dizia que, com o cinema, o ser humano pôde, pela primeira vez, deter o tempo e reproduzi-lo quantas vezes quisesse. O teatro, ao contrário, segue sendo efêmero, mais parecido com a vida.

Você está investigando a forma cinematográfica, mas não utiliza nenhuma imagem filmada em cena. Como vê a presença de recursos tecnológicos no teatro?

O desafio foi justamente esse. Representar quatro filmes. Mas sem utilizar nenhum formato cinematográfico. Tudo é representado e narrado. Gosto da mistura de linguagens, sobretudo quando não sabemos muito bem como categorizar uma obra, se é teatro, cinema, ou uma instalação. Se é algo que serve para ampliar o campo narrativo de uma obra, a mistura é positiva. Mas não me interessa quando isso é usado apenas agregar certa falsa contemporaneidade à obra.

QUEM É

Mariano Pensotti
Diretor e Dramaturgo

Nascido em Buenos Aires, em 1973, o artista se formou em cinema, artes plásticas e teatro. Além de fazer sucesso na Argentina, seus espetáculos já foram apresentados em festivais da Europa, Ásia e da América, Foi reconhecido com prêmios como Rozenmacher, Clarin e a premiação da Rockefeller Foundation.

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