Bruno Girello/ Divulgação
Bruno Girello/ Divulgação

Felipe Hirsch estreia ‘Puzzle’, espetáculo em três partes que discute dilemas nacionais

Manifestações de rua e classe média consumista são temas tratados

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2013 | 02h19

Se o resgate do passado marcou o início da carreira do diretor Felipe Hirsch, agora ele mira o presente com um olhar muito crítico. “Vivemos em um País terrível, que maltrata as pessoas”, diz ele que, ao propor um ajuste de contas com o Brasil, criou um dos melhores espetáculos do ano: Puzzle, que estreia hoje no Sesc Pinheiros. Trata-se de um pacote explosivo que se divide em três partes e poderão ser vistas em dias diferentes. Um tríptico fulminante, como já avaliou um crítico.

“Certamente é meu trabalho mais político”, garante Hirsch, que coloca em cena questões como a violência, o consumo desenfreado e até os recentes protestos de rua. O ponto de partida é a palavra – Hirsch sempre teve na literatura um dos pilares de seu trabalho criativo. Assim, quando foi convidado pelos organizadores da Feira do Livro de Frankfurt para criar um projeto a ser apresentado na programação paralela do evento, em outubro, ele realizou um antigo desejo: levar para o palco a obra de escritores brasileiros contemporâneos.

A escrita estrangeira sempre lhe foi familiar – Hirsch já refletiu a partir das palavras de autores tão diversos como Simone de Beauvoir e Will Eisner. Entre os nacionais, destaque apenas para o arredio e incorrigível Dalton Trevisan. Agora, são os melhores da prosa moderna.

A estreia mundial de Puzzle aconteceu em Frankfurt, no Mousonturm, no início de outubro. Com legendas em alemão, atraiu uma plateia atenta e uma crítica antenada com a mensagem do texto - "o espetáculo transmite uma noção do estado mental brasileiro além dos clichês e de muitas possibilidades da narração dramática contemporânea", escreveu o articulista do Frankfurter Allgemeine, um dos mais importantes diários alemães.

O raciocínio é preciso: dominado por uma ideia que o perseguia fazia dois anos, Felipe Hirsch pretendia apresentar uma visão crítica do Brasil que mostrasse não apenas o lado dócil, delicado, como também a face bruta e injusta de uma sociedade multifacetada. "Puzzle reproduz a ambivalência de um país, de uma classe e de uma interioridade do existir brasileiro como se fossem eles igualmente e ainda experimentais", assinala Ruy Filho, responsável pela dramaturgia.

Como bem indica seu título, o espetáculo é como um quebra-cabeça, dividindo-se em três partes independentes e totalizando cerca de sete horas de duração. A primeira, identificada como "A", trata de questões políticas, como os movimentos populares e a força das redes sociais - ela será encenada às quintas-feiras, no Sesc Pinheiros. "Ao mesmo tempo, essa dramaturgia fala sobre a doçura de tentar traduzir e entender um país assim e sobre a dificuldade de traduzir nossa língua, o que nos deixa, muitas vezes, isolados."

Já a "B" apresenta uma crítica severa, porém bem-humorada, sobre a ascensão da nova classe média paulistana da Vila Olímpia e do Itaim e seu consumo desenfreado. "São pessoas que evoluíram economicamente, mas sem preparo ou apoio, pois compram aparelhos de 50 polegadas quando a televisão tem menos sentido no mundo atual", comenta. "Basta lembrar que a Olimpíada de Londres, no ano passado, teve 40% de sua audiência assistida em iPads, ou seja, uma nova ferramenta de difusão de imagem." Como abrigará uma plateia menor, essa parte será exibida às sextas e aos sábados.

Finalmente, a "C" fala sobre o ato de ler e escrever, sobre imaginação. "No início, propomos ao público que imagine as cenas a partir das palavras; em seguida, criamos um filme com imagens da nossa imaginação", afirma o diretor - sua encenação acontecerá aos domingos.

O trabalho foi árduo. "Começamos com uma lista de aproximada cem autores nacionais, começando pelos mais 'jovens' que logo foram contrastados com alguns clássicos", conta o encenador, que definiu as obras que inspirariam a montagem (veja abaixo) durante os ensaios com os atores Felipe Rocha, Georgette Fadel, Isabel Teixeira, Luna Martinelli, Magali Biff, Marat Descartes e Rodrigo Bolzan.

"A primeira parte foi muito complicada para definir, pois eu mesmo puxava o meu tapete, ou seja, quando saía satisfeito de um ensaio, arrumava um motivo para voltar descontente no dia seguinte", conta Hirsch. "O motivo é que pretendíamos apresentar o Brasil, um país estranho, agredido e agressivo ao mesmo tempo. Refletíamos sobre o mundo, claro, mas também queríamos definir o perfil da nossa nação pela lente da literatura."

Em um processo coletivo que fala sobre o extermínio da delicadeza, Felipe e seu grupo descobriam textos que dissecam por meio de palavras a alma brasileira. É o caso de André Sant'Anna e seu excesso perturbador ou o lirismo crítico de Jorge Mautner. "Quando assistiu ao espetáculo na Alemanha, André disse ter suado cinco camisas", diverte-se Hirsch. "Apesar de saírem felizes da peça, as pessoas de fato sofriam, a ponto de outro crítico ter nos chamado de 'maus darks inspirados', algo que nunca me aconteceu, mas que me deixou orgulhoso."

Os escritores revelam reações diversas. "Gostei bastante da adaptação que fizeram do meu texto, No Teatro, do meu primeiro livro, O Trágico e Outras Comédias", comenta Verônica Stigger. "É um texto que fala do teatro e se passa no teatro, e a improvisação feita pelo grupo é perfeita, porque ressalta justamente essa ligação."

Já Bernardo Carvalho, autor de Amigos e Inimigos, notou uma improvisação a partir do seu texto. "Mas não é mais o texto que era bem curtinho e tinha uma pegada mais concisa, e não ia funcionar ali. Achei bem legal, mas o texto é deles", observa.

Em sua coluna no jornal O Globo, José Miguel Wisnik aprovou a forma como os textos vão se articulando de maneira surpreendente, com grandes momentos. "Uma demonstração ao pé da letra daquela afirmação de Nelson Rodrigues sobre Os Sertões, de que o Brasil só pode se apresentar assim, como 'uma golfada hedionda'", escreveu.

O título Puzzle vem do conto de Amilcar Bettega Barbosa, narrativa sem fôlego, marcada pelo encadeamento de frases que necessitam de continuação. "Mas também é uma metáfora poética, inspirada em Paulo Leminski", diz Felipe Hirsch. "Algo abstrato, que é feito de peças não conectadas ou nem sempre conectáveis e dos seus contrastes."

Como foi pensado para estrear durante uma feira de livro, o espetáculo usa papel e tinta como material cenográfico. Na verdade, o palco é forrado por longas folhas, que são rasgadas e banhadas por tinta preta à medida que as histórias vão se sucedendo. "Eu e a Daniela (Thomas, cenógrafa) pensamos em algo como a despedida do papel", justifica o diretor. "A própria Feira de Frankfurt demonstra isso, quando a maioria das discussões eram sobre direitos autorais e não sobre livros em seu formato tradicional."

Para as apresentações na Alemanha, o diretor foi obrigado a usar um tipo especial de papel, que não queima como o tradicional. Isso porque as leis do país não permitem o uso desse tipo de material inflamável em locais fechados.

 OS TEXTOS ENCENADOS

Noite da Paixão

De Dalton Trevisan

No Teatro

De Verônica Stigger

Você é tão Simples

De Juliana Frank

Vista do Rio

De Rodrigo Lacerda

Minifesto 1

De Paulo Leminski

Fragmentos

De Juliano G. Pessanha

Amigos e Inimigos

De Bernardo Carvalho

Puzzle

De Amílcar Bettega Barbosa

A Lei

De André Sant’Anna

Na Fila do Correio

De Nelson de Oliveira

Caos

De Jorge Mautner

Sexo

De André Sant’Anna

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