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Espetáculo de Domingos Oliveira ganha nova encenação

Grupo carioca Os Dezequlibrados faz 18 anos e encena 'Amores' a partir de sábado

Daniel Schenker, Especial para O Estado de S. Paulo

13 de março de 2014 | 22h05

O título da peça de Domingos Oliveira, Amores, resume com precisão a jornada do grupo Os Dezequilibrados, dirigido por Ivan Sugahara, que agora completa 18 anos. “O fato de estarmos juntos há tanto tempo é a prova de que existe muito afeto entre nós. E essa conexão diz bastante sobre Domingos, que costuma trabalhar com os amigos”, afirma Sugahara.

Para comemorar a data, o grupo estreia amanhã, uma nova montagem de Amores, com atores da companhia (Ângela Câmara, José Karini e Saulo Rodrigues) e de fora (Ana Abott, Lívia Paiva e Lucas Gouvêa) e, nos meses seguintes, mais dois projetos: Fala Comigo Como a Chuva e me Deixa Ouvir, encenação da peça curta de Tennessee Williams, com Ângela e Saulo, a partir de junho; e Jardins Portáteis, performance de Cristina Flores, marcada para julho e agosto.

Amores e Jardins serão mostrados na Sede das Cias., casa localizada na famosa escadaria Selarón, na Lapa carioca, antes residência da Cia. dos Atores e agora também de outros dois coletivos – Os Dezequilibrados e Pangeia, este último conduzido por Diego de Angeli. Fala Comigo estará na Casa da Glória e terá estrutura itinerante.

A companhia já anuncia um projeto para 2015, com o título provisório de História de Amor. O tema é o amor, abordado pelos Dezequilibrados em diversos espetáculos, como Memória Afetiva de Um Amor Esquecido, criação coletiva com texto de Rosyane Trotta, Quero ser Romeu e Julieta, de Cristina Flores e Ivan Sugahara, Últimos Remorsos Antes do Esquecimento, de Jean-Luc Lagarce, e A Serpente, de Nelson Rodrigues. Os Dezequilibrados têm patrocínio da Petrobrás – destinado à sede, aos dois espetáculos (Últimos Remorsos e A Serpente) reunidos, em repertório, ano passado, e às novas encenações (Jardins Portáteis e História de Amor). Amores e Fala Comigo receberam verba do Fundo de Apoio ao Teatro (Fate).

O nome Os Dezequilibrados surgiu há 18 anos no cenário carioca. Mas a formação original do grupo se deu em 1998. O primeiro espetáculo nasceu no ano seguinte, Um Quarto de Crime e Castigo, recorte da obra monumental de Dostoievski apresentado num quarto de apartamento na Urca. Despontava naquele momento uma importante característica da trupe: o aproveitamento de espaços não convencionais, como boate (em Bonitinha, mas Ordinária, de Nelson Rodrigues), foyer de cinema (em Vida, o Filme, de Daniela Pereira de Carvalho e Ivan Sugahara) e dependências de prédio cultural (em Memória Afetiva...).

Olhando em retrospectiva, os trabalhos evidenciam ainda uma alternância entre dramaturgia fechada e produzida pela companhia, que contava com uma autora, Daniela Pereira de Carvalho. No decorrer do tempo, Ivan Sugahara se aproximou de outros grupos. Assinou, com Enrique Diaz, então diretor da Cia. dos Atores, a montagem de Notícias Cariocas. E influenciou no surgimento da Pangeia. Não por acaso, os coletivos se uniram no projeto da Sede das Cias. “Bel Garcia, da Cia. dos Atores, propôs que nos juntássemos a eles e sugeri que incluíssemos a Pangeia”, explica Sugahara, informando que a gestão do espaço está a cargo de Os Dezequilibrados e da produtora Nevaxca, de Tarik Puggina.

Afinados com a atualidade, os novos projetos do grupo de Sugahara apontam, porém, para diferentes caminhos – há uma montagem de texto fechado (Amores), um happening (Jardins Portáteis) e uma criação coletiva (História de Amor).

Amores foi encenado por Domingos Oliveira, que transportou o material para o cinema. O autor coloca o público diante de uma ciranda afetiva. Vieira é um escritor de TV prestes a perder o emprego, enquanto tenta controlar a liberdade da filha, Cíntia. Telma é casada com Pedro. Eles decidem ter filhos e, como não estão conseguindo, o relacionamento entra em crise. Luiza é uma atriz fracassada que ganha a vida contando piadas em bares. Ela se apaixona pelo pintor Rafael, mas descobre que ele é soropositivo. “Na peça aparece o fantasma da aids. É um elemento mais da época em que a ação se passa, 1995, do que de hoje. Contudo, permanece como uma questão do nosso tempo”, destaca Ivan.

Os atores chamam atenção para o elo que possuem com o universo do texto. “Nós atravessamos coisas sérias, em âmbito pessoal e profissional. Percebemos que o amor se transforma. Tanto que continuamos unidos”, frisa Ângela Câmara.

Jardins Portáteis, empreitada de Cristina Flores, surgiu inesperadamente. “Comecei a estudar jardinagem, mas acabou virando projeto de teatro”, comenta Flores, que organizou os primeiros encontros no terraço da Sede das Cias. “Nas duas ‘apresentações’, pedi que as pessoas levassem legumes e frutas. Preparamos uma salada de frutas. Convido profissionais ligados à música porque busco evocar a atmosfera de sarau”, relata Cristina, referindo-se a João Marcelo Iglesias, da Pangeia, e Eduardo Pires. História de Amor focará na evolução do sentimento ao longo do tempo. “Criaremos uma dramaturgia própria. Tudo será entendido por meio das sonoridades, intenções e trabalhos corporais”, revela Sugahara. Karini, Câmara, ambos da cia., e Claudia Mele estão confirmados no elenco.

Apesar da fase efervescente, sobreviver de teatro não é fácil no Rio. “Por mais que as chances de captação tenham aumentado, o incentivo existe para projeto, mas não para continuidade. Acho que o Rio se tornou um cemitério de espetáculos que não conseguem seguir adiante”, constata Saulo Rodrigues. O sonho de se manter com a companhia não se concretizou.

“Nosso sustento depende de outras atividades”, diz Karini. Entretanto, esta impossibilidade tem seu lado positivo. “Começamos quando tínhamos pouco mais de 20 anos. Nós nos consolidamos dentro do grupo. Hoje, vivemos um casamento aberto. As pessoas têm liberdade para atuarem fora da companhia e isto traz renovação para as relações”, observa Letícia Isnard, atriz de Os Dezequilibrados.

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