Dificuldade na comunicação se impõe como tema

Vida em família retorna aos palcos traduzida pelo olhar da nova geração

Maria Eugênia de Menezes - O Estado de S.Paulo,

12 de maio de 2011 | 06h00

Denise Fraga costuma dizer que suas escolhas no teatro são norteadas por uma crença: o poder transgressor do riso, a capacidade que a comédia pode ter de entreter e levar à reflexão. Tudo em uma tacada só. Foi essa fé que a levou a fazer recentemente A Alma Boa de Setsuan, um Brecht cheio de graça com o qual não se eximia de colocar o dedo na ferida. E é a mesma ambição que pode explicar sua nova empreitada: Sem Pensar.

Na peça da jovem autora Anya Reiss, o cotidiano atrapalhado de uma família de classe média surge como pano de fundo para uma dissecação - sem anestesia - de vícios e cegueiras contemporâneas.

O que parece, a princípio, uma despretensiosa comédia de costumes impõe-se gradativamente como o ácido retrato de uma sociedade que perdeu a capacidade de ver e ouvir o outro. "Eles estão vivendo um drama. O assunto é uma facada no coração. Mas a forma é cômica. Ela escreve usando elementos clássicos do riso, se valendo de formatos como o vaudeville", diz Denise.

Em sua primeira direção para o teatro, cabe ao cineasta Luiz Villaça conduzir o enredo. A protagonista é Delilah (Julia Novaes), menina às vésperas do 13.º aniversário. Com problemas financeiros, os pais resolvem alugar um dos quartos da casa para Daniel (Kauê Telloli), estudante de 21 anos. E, enquanto se digladiam na sala em discussões intermináveis, pai (Kiko Marques) e mãe (Denise Fraga) pouco percebem do que se passa com a filha: o despertar de sua sexualidade, o envolvimento com um rapaz muito mais velho, suas angústias e questões.

Em suma, o que se impõe é o velho tema da incomunicabilidade. A mesma família disfuncional que serviu de mote para toda a grande tradição do drama do século 20 está de volta. Agora, reprocessada e traduzida pelo olhar agudo de uma novíssima geração.

No cenário, que reproduz uma casa de dois andares, não há paredes. O público, qual voyeur, acompanha o que se passa em todos os cômodos. Opção do encenador que é reforçada pela iluminação de Lito Mendes da Rocha (nome também advindo do cinema). Sem usar os blecautes sugeridos pelo texto e sem se valer de um foco de luz para direcionar o olhar do espectador, Villaça entrega ações simultâneas, sublinhando ainda mais a cegueira coletiva insinuada na obra. "A peça é uma grande janela indiscreta", comenta ele.

Com a entrada de um novo elemento, a trama tende a se complicar ainda mais. A chegada da namorada de Daniel (Virginia Bukowski), que vem para passar uma temporada, só amplifica os conflitos dentro da casa.

O rapaz se revela preso a uma relação motivada por comodidade e culpa. Delilah resolve alardear sua suposta paixão pelo jovem. Alheios ao que se passa, os adultos - Nick e Vicky - aprofundam o jogo de acusações e a crise escancarada por um adultério recém-revelado. "A vergonha de um indivíduo patético que pulou a cerca e... comeu a própria chefe por cinco meses", brada a personagem de Denise Fraga, durante um dos incontáveis embates conjugais que permeiam a peça.

Apenas ao final, o casal será capaz de estar realmente junto e em harmonia. É quando se desdobram em acusações contra a filha. "Eles só se unem pelo uso do poder", aponta o diretor.

Ainda que de forma lateral, a experiência de Villaça no cinema transparece em cena. As interpretações têm uma tonalidade que tenderíamos a chamar de "realista". Mas se parecem menos com o realismo naturalista que costumamos ver no palco do que com uma "naturalidade" própria da tela. Em certa medida, seu teatro é menos "teatral", com gestos e diálogos que prescindem de qualquer grandiloquência. / M.E.M.

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