Diário de Canudos - Parte 5 - O Teatro de Estádio

Duas crianças nadavam. 'Vocês são irmãos? Não, mas vamos ser! É que meu pai fez um filho na mãe dele'

Pascoal da Conceição,

02 de dezembro de 2007 | 16h57

Não tem lugar pra todo mundo. O teatro construído no campo de futebol tem capacidade para 900 lugares, se você somar a isso 88 pessoas da companhia, mais as locais: 6 seguranças; 7 da limpeza; 4 de apoio à contra-regragem e cenário; costureira; 6 lavadeiras pros figurinos; bilheteiro; porteiro; 6 brigadistas escoteiros; o menino dono do cabrito; o dono do burro; o da moto; o do cavalo e mais vendedores das barraquinhas da praça de alimentação; 12 montadores e ajustadores da estrutura de ferro; os ‘polícia’; a banda de pífanos, que hoje faz participação; mais jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, prefeito e convidados especiais - hoje temos a honra de receber o Senador Suplicy -, se for contar, não dá conta. Essa energia, que atrai e incendeia a multidão, tem nos atores atuadores o seu cerne, atores de dentro e de fora. Eles são o carnegão da coisa, uma multidão compacta de jogadores talentosos e competentes, cujos nomes eu recomendo ler como uma oração na ficha técnica que está no site do Teatro Oficina. Aqui no sertão, eles são o povo do teatro e com competência representam todos os inomeados anônimos que amam em todos os lugares do planeta esta mais que antiga forma de amar e viver a vida e com seus corpos, sua música, seu canto, sua entrega, eletrizam a multidão, sob risos e lágrimas. Ai, quantas lágrimas nós temos derramado!  Acordei cedo e fui para a comunidade da Toca Velha, visitar o pessoal da Fazenda da Pedra Sozinha e falar com dona Rita de Tiago, que em nome das vinte e duas moradias pede que mandem pra lá luz e principalmente água. São muitas comunidades assim espalhadas no sertão, cada uma com seu nome de fé: Barriguda, Trabubu, Rocinha, Penedo, Simplício, Mandacaru, Silva, Calumbi, Serra Branca... Escrevo minhas anotações nas bordas em branco da edição de bolso de Os Sertões que trouxe daí de São Paulo. Serve para relembrar depois e também de consulta: pra confirmar uma descrição geográfica, histórica, urbana, como a casa feita de pau a pique de um tabaréu: "divididas em três compartimentos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da antiga morada romana: um vestíbulo exíguo, um átrio servindo ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar e de recepção; e uma alcova lateral, furna escuríssima mal revelada por uma porta estreita e baixa." Assim mesmo, sem tirar nem por. Pra seis de agosto dona Rita convida a todos pra romaria em louvor do Senhor Bom Jesus da Gruta da Toca Velha até o alto da serra, onde o padre reza missa já faz anos. Depois tem a Festa da Vaquerama, que o povo de lá promove, com vaquejada e forró à luz do candeeiro. "E se Deus quiser, o ano que vem já vai ser com água e luz." Vamos ver.  No caminho mastiguei uma agaroba: é o fruto de uma árvore que está no sertão todo e que parece uma vagem amarela. É doce com gosto parecido com o da cana de açúcar. Embaixo da sua sombra sempre tem um bode, um jegue, um boi, comendo suas vagens doces que caem pelo chão. Fui conhecer a construção que leva água do açude para o interior da terra seca. São canaletas de concreto que vão se ramificando e se dividindo como raízes caatinga adentro. Duas crianças nadavam no canal, Ariel e Maicom. "Vocês são irmãos? - Não, mas vamos ser! Como assim? - É que meu pai fez um filho na mãe dele." O açude de Cocorobó irriga a catinga. Mas a água não é tudo. O sistema de irrigação é de sulco de infiltração e está ultrapassado. Escorre água sem controle e desperdiça. A água em excesso cobre o chão, seca, saliniza a terra e a torna estéril. Há métodos mais modernos: o de aspersão, aquele da torneirinha que fica girando abobada e o de gotejamento. Coisas que aprendi por aqui. A fila dos ingressos chega cada dia mais cedo. Ontem começou ao meio dia. Pra evitar os cambistas, são distribuídas senhas antes, uma para cada espectador. No primeiro dia a venda começou as quatro e meia, no segundo uma, hoje vai ter que ser antes. O público dá show de participação: seja em procissão de ramos, feito penitentes, ou caindo pela pista como mortos, engrossando os batalhões de soldados, entrando pelos alçapões pra dentro da terra, dançando, batendo palmas nas cerimônias políticas como a posse de Prudente de Morais. As arquibancadas são frente a frente e todo mundo se vê e é visto. Em cenas mais fortes uns tapam a cara ou morrem de rir da cara do outro. No intervalo de ontem teve discurso de agradecimento do prefeito, da deputada estadual e do senador Suplicy, que começou falando do livro Utopia, de Thomas Morus, obra que foi lida pelo Conselheiro e com certeza deve tê-lo inspirado nos sonhos de construção da comunidade de Belo Monte, aqui no sertão. Propôs que Canudos, por sua história de luta pela solidariedade, seja a primeira a se habilitar como cidade que institua o Renda Mínima." Quantas pessoas temos aqui? Mil? Mais de mil? Vamos fazer como o Conselheiro e consultar o povo: quem é contra? E a favor?" Palmas de aprovação. "Vamos pro teatro!", gritou uma senhora da arquibancada. Terminou quase duas da manhã e uma parte do público e dos atores foi pra praça principal fazer um forró, que foi até o sol raiar. Hoje é o último dia. Estamos indo embora. O sertão está mais verde. Andou dando uma chuvinha por aqui e num instante tudo fica verdinho, nem deixa perceber a seca, que sempre volta e apavora qualquer sertanejo. A noite foi fria e o dia já está quente, no "martírio secular da terra", nessa hora em que estou terminando de escrever estas noticias de cultura e paz. "Todo mundo gosta de abará, todo mundo gosta de acarajé, o trabalho que dá pra fazer é que é!

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