Leo Aversa/ Divulgação
Leo Aversa/ Divulgação

Conhecida por talento cômico, Marieta Severo encanta com o drama 'Incêndios'

'Nunca vivi a emoção do público de forma tão concreta'

Roberta Pennafort/ RIO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2013 | 02h14

Em 48 anos de carreira, Marieta Severo jamais havia feito uma peça dramática com a repercussão de Incêndios. Em outubro, um mês depois da estreia em seu teatro carioca, o Poeira, aberto há oito anos com a amiga Andréa Beltrão, os ingressos se esgotaram até o fim da temporada, em 22 de dezembro - outro feito inédito do qual ela se orgulha.

"Nunca vivi a emoção do público de forma tão concreta. Estou vindo de quatro anos com As Centenárias, em que a relação com a plateia se dá através do riso, algo evidente. Em Incêndios, a gente sente um silêncio avassalador, palpável. No final, as pessoas demoram a conseguir falar com a gente. Depois dizem: 'isso é que é teatro!'", conta Marieta, que já agendou nova temporada no Rio, de abril a julho de 2014. Depois de a peça passar por Porto Alegre, Belo Horizonte e Vitória, e antes de seguir para São Paulo, em setembro.

O entusiasmo com Incêndios não parte só de Marieta e de Aderbal Freire-Filho, seu diretor. Em uma cidade em que se acredita que apenas musicais, stand-ups e comédias ligeiras tenham bilheteria certa, o sucesso do drama de uma mãe e de seus dois filhos gêmeos em meio a uma guerra civil genocida demonstra que o público deseja viver outras experiências.

"Não existe regra em teatro. Como eu iria achar que uma tragédia contemporânea com oito atores seria sucesso? A peça vai muito na contramão, não tem a obviedade do mercado. Eu adoro musicais, mas o fato de não estarmos nessas categorias é um marco para o teatro. É assim que você educa o público. Os patrocinadores só apostam em comédias e musicais e ouvimos uns 30 'nãos'".

Tudo começou em uma sala de cinema, quando o ator Felipe De Carolis assistiu ao filme homônimo, adaptado do texto do autor libanês, radicado no Canadá, Wajdi Mouawad - e que foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Chegando em casa, o jovem, então com 22 anos, mergulhou no Google disposto a encontrar Mouawad e comprar os direitos da peça.

Para conseguir convencê-lo, alegou que tinha acordado a participação de Marieta como a sofrida Nawal, a mãe que se emudece diante da dor maior de sua existência miserável. "Ele é rigoroso e nunca autorizou um diretor brasileiro a montar uma peça sua. Eu via a Marieta como essa mãe. Só uma atriz que já fez tudo o que ela fez poderia viver Nawal em suas três fases."

Marieta é a menina da aldeia cujo filho lhe é arrancado, e que foge para aprender a ler, a escrever e a pensar; é a mãe que empreende uma cruzada atrás do menino, em meio a ataques de milicianos e de ônibus em chamas; é a mulher madura que, depois de passar pela prisão, se isola em seu pesar à revelia dos dois filhos concebidos em sua cela.

A atriz, que já tinha visto o filme, deixou-se tragar por Nawal desde as primeiras leituras - propostas por ela depois que Felipe lhe enviou o texto. Aderbal embarcou em seguida. A palavra-chave para os atores (Felipe, que é um dos gêmeos, Keli Freitas, sua irmã, Marcio Vito, Kelzy Ecard, Julio Machado, Isaac Bernat e Fabianna de Mello e Souza) foi contenção.

Assim como o autor não toma partido na guerra que lhe serve de pano de fundo, o diretor buscou o drama sem lágrimas, a fim de agudizar o impacto da plateia. "Em uma tragédia como essa, o personagem tem que exibir seu sofrimento sem autopiedade. Se não for assim, o ator dispensa o público de se condoer, rouba isso dele", acredita Aderbal.

Marieta, que no teatro já foi Jocasta, a mãe que se casa com o filho, e Medeia, a que mata os filhos, agora é a figura central de uma "história de três histórias que procuram seus primórdios", como escreve o autor no texto de apresentação, "de três destinos que buscam suas origens em uma tentativa de solucionar a equação de suas existências, e tentar encontrar, atrás da duna mais obscura, a fonte da beleza".

A narrativa não é linear e em muito difere do filme. Tampouco o espaço é definido. Sabe-se que é um país em guerra - não necessariamente o Líbano de Mouawad, de 1975 a 1990, período do conflito civil. Poderia ser uma favela carioca, um território ocupado qualquer.

Quem vai ao teatro atrás da Dona Nenê de A Grande Família, personagem que Marieta faz há treze anos na TV, é transportado para uma guerra nada particular, que culmina em catarse coletiva. "A peça serve muito para nós, para a guerra civil camuflada que vivemos, a violência do irmão contra irmão", ela sugere.

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