Confira trecho da peça Trindade, de Caio de Andrade

Espetáculo com Guilherme Leme, Luciano Chirolli e Pedro Neschling estréia sábado

Agencia Estado

21 Junho 2007 | 12h04

Confira trecho da peça Trindade, de Caio de Andrade, em cartaz no Teatro da Aliança Francesa. O espetáculo que estréia neste sábado, 9, tem no elenco Guilherme Leme, Luciano Chirolli e Pedro Neschling. TITO - E como foi que vocês foram morar na casa do General? EMÍLIO - A governanta da casa conheceu minha mãe e a convidou para trabalhar na mansão. Aí nos mudamos para lá. O General tinha um filho, Henrique, bem mais velho do que eu. Ele também era militar e nessa época tombou na Guerra, em Canudos, combatendo os fanáticos. De certa forma, com a morte de Henrique, eu passei a ficar mais próximo do meu padrinho. TITO - Guarda alguma lembrança de seu verdadeiro pai? EMÍLIO - Pouco, nada das feições, uma recordação confusa. Recordo-me de quando alguém veio nos avisar da morte dele. Um companheiro do sindicato. Disse que havia sido morto, tentando fugir da prisão e que o corpo foi jogado no mar. Essa imagem sempre me assombrou. O fato é que ele desapareceu e tudo o que consegui entender é que meu pai era um ingênuo. Um idealista, vítima de uma prática desarticulada e visionária. TITO - Perde-se toda ingenuidade, Dr. Emílio, quando a luta em questão é transformar o capitalismo intolerante numa sociedade livre. Diariamente, em muitos lugares do mundo, centenas de pessoas perdem suas vidas por isso! É preciso questionar as instituições, acreditar na liberdade como a base inconteste de qualquer ação do homem para com ele mesmo. A participação de sindicatos, cooperativas e federações... EMÍLIO - O senhor me desculpe se estiver sendo intransigente, afinal segue as mesmas idéias em que acreditava meu pai, mas eu prefiro não falar sobre os ideais políticos que os uniu. Afinal, somos adultos e não precisamos esconder que temos pontos de vista bastante diferentes. Mas voltando ao meu pai, se pudesse me falar um pouco mais dele, de como ele era. O que pensava sobre outros assuntos. TITO - E do que exatamente tem curiosidade se saber? EMÍLIO - Se quando vocês estavam juntos, na prisão, ele falava de mim, da minha mãe. TITO - Claro que sim, o tempo todo. EMÍLIO - Lembra-se de alguma coisa, em especial? De como, por exemplo, eles começaram o seu envolvimento com o teatro? TITO - O senhor tem interesse suficiente para ouvir uma boa história? EMÍLIO - Se o senhor for mesmo um bom contador. TITO - Vejo que tirou o dia para me desafiar. EMÍLIO - Para ouvi-lo. Acredite.

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