Marcus Mesquita/Divulgação
Marcus Mesquita/Divulgação

Bruxas à solta

Musical ‘As Bruxas de Eastwick’ estreia em São Paulo recheado de efeitos

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

06 de agosto de 2011 | 17h46

A malícia, finalmente, vai temperar um musical montado no Brasil. Em As Bruxas de Eastwick, que estreia no próximo domingo no Teatro Bradesco, três mulheres entediadas com a monotonia de sua cidade renascem sexualmente com a chegada de um homem misterioso.

 

Com isso, os palcos acostumados a textos mais pudicos recebem agora um festival de sedução inteligente e bem encenada. "É o nosso trabalho mais apimentado", comenta Charles Möeller, que comanda a produção ao lado de Claudio Botelho, repetindo a mais bem-sucedida parceria do musical brasileiro.

 

"Enquanto o original inglês usa apenas as palavras para encantar, nós apostamos também na sensualidade do corpo", completa Botelho. De fato, se a versão original que tem textos e letras de John Dempsey e música de Dana P. Rowe é repleta de frases picantes, a montagem nacional contribui com danças sensualíssimas. "Busquei mais suingue, com o corpo dos atores exibindo hipocrisia e sexualidade", confirma Alonso Barros, criador de todas as coreografias.

 

Publicado em 1984, o romance As Bruxas de Eastwick (lançado no Brasil pela Rocco como O Sabá das Feiticeiras e reeditado pela Companhia das Letras com o mesmo título do musical) traz uma deliciosa prosa de John Updike (1932-2009), que satiriza a atmosfera asfixiante das cidadezinhas provincianas e os costumes da classe média americana. "O livro é até mais pesado que suas versões", observa Möeller, lembrando-se ainda do filme de 1987, com Cher, Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer e Jack Nicholson no elenco.

 

Produzido pela Time For Fun, o musical acompanha a tediosa rotina de Alexandra (Maria Clara Gueiros), Jane (Sabrina Korgut) e Sukie (Renata Ricci) - juntas, elas desejam o homem ideal que se materializa com a chegada de Darryl Van Horne (Eduardo Galvão), sedutor e misterioso, responsável por despertar os desejos represados de cada uma. A situação provoca mal-estar geral na cidade, especialmente em sua principal benfeitora, a falsamente pudica Felicia (Fafy Siqueira).

 

"São mulheres que despertam para a vida, ainda que terminem punindo aquele homem diabólico", comenta Maria Clara, praticamente estreando em um musical - quando iniciou a carreira, há 24 anos, fez sapateado no infanto-juvenil Na Cola do Sapatinho. Ela precisou tomar aulas de canto e descobrir como atingir o momento mágico do gênero, que é emendar naturalmente o diálogo em uma canção, sem causar estranheza no público. "Esse foi meu maior desafio, pois, como atriz e comediante, sei como sair de situações inesperadas, mas o musical é praticamente um terreno desconhecido."

 

A segurança está justamente na comédia, na qual seu talento se sobressai. Maria Clara interpreta a mais velha das bruxas, portanto a mais desiludida. "E também a mais escrachada, o que me permite momentos bem engraçados." O humor afiado, aliás, é uma característica do trio. Como a violoncelista Jane criada por Sabrina Korgut. "Ela é a mais histriônica das amigas, apesar de ser também a mais blasé", diz. Por conta disso, seu solo rascante é um dos momentos mais aplaudidos do musical.

 

Para ser uma das bruxas, Maria Clara precisou conciliar ensaios com a gravação da novela Insensato Coração, rotina idêntica a de Eduardo Galvão, que também participa do folhetim. "Fiz antes outros musicais, como Gloriosa e Gypsy, mas eram papéis quase sem canções", lembra ele. "Agora, a situação é outra: participo de todos os solos das bruxas, além dos meus próprios. Minha voz é afinada e, apesar de não atingir certas notas, consigo transmitir a emoção do personagem também pelo corpo."

 

Darryl é o catalisador das emoções femininas. Sua presença é suficiente para que todas as mulheres da cidade sofram alguma modificação. "Ele age como se fosse o inconsciente coletivo da população, pois também os homens são afetados", comenta Sabrina.

 

Isso é traduzida pela coreografia atlética, especialmente na protagonizada por um jovem talento, André Torquato, que, aos 18 anos, vive Michael, filho de Alexandra. "São oito minutos ininterruptos de canto, dança e interpretação", conta ele, que foi um dos destaques de Gypsy graças ao número de sapateado.

 

Outra novidade do musical são os efeitos especiais - como se trata de bruxas, situações absurdas acontecem: um violoncelo toca sozinho e as três amigas levitam, inclusive sobre a plateia. Para isso, as atrizes serão suspensas por fios resistentes, em um sistema de voo montado por Heitor Cavalheiro. "Se puder, daremos até cambalhotas", brinca Sabrina.

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