Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Brilho no Sapateado

Claudia Raia encena e produz 'Crazy for You', musical com canções dos irmãos Gershwin

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2013 | 02h16

A sala do Shubert Theatre, em Nova York, já se esvaziava, mas uma brasileira continuava sentada em uma das poltronas, petrificada. "Fiquei abalada com o espetáculo e praticamente decidida a montá-lo no Brasil", relembra a atriz Claudia Raia que, naquele ano de 1992, assistia ao grande sucesso da Broadway, Crazy for You, vencedor do prêmio Tony (o Oscar do teatro americano) como melhor musical.

O problema estava na complexidade da montagem, intransponível naquele ano: recheado de canções clássicas de Ira e George Gershwin, Crazy for You é calcado essencialmente no sapateado, técnica de dança que exige extremada especialização. "E, naquela noite de 1992, eu sabia que não conseguiria montar um elenco nacional totalmente capacitado", conta a atriz que, graças à especialização dos artistas brasileiros nos últimos anos, motivada pelo crescente número de musicais de qualidade montados aqui, conseguiu finalmente reunir 26 atores, bailarinos e sapateadores para estrear amanhã o musical Crazy for You, no Teatro do Complexo Ohtake Cultural.

Exímia dançarina, Claudia divide o palco com Jarbas Homem de Mello que, como ela, buscava um espetáculo em que o sapateado fosse um dos carros-chefe. "Em todos os meus espetáculos, procurei encaixar algum número, mas só agora a realização é plena", afirma Claudia, que convidou Miguel Fallabela para a difícil tarefa de verter as canções para o português.

Quando estreou em Nova York, em 1992, Crazy for You foi apontado como um marco entre os musicais. O motivo foi indicado por Frank Rich, em sua crítica no The New York Times: "Quando historiadores do futuro tentarem encontrar o exato momento em que a Broadway finalmente retomou o gênero musical dos britânicos, eles vão concluir que a revolução começou com Crazy for You". E continuou: "Um show divertido, que recupera características clássicas do estilo americano, como interpretações baseadas no jazz e canções inesquecíveis dos irmãos Gershwin".

Foi essa alquimia que fascinou Claudia Raia e que ela fez questão de preservar em sua montagem nacional. Crazy for You faz um resgate da melhor tradição do cancioneiro americano por meio da melodia e das letras inebriantes de George e Ira - o espetáculo traz clássicos como They Can't Take that Away from Me, do filme Vamos Dançar? (1937), com Fred Astaire e Ginger Rogers; e ainda Embraceable You, do longa Louco por Saias (1943), com Judy Garland e Mickey Rooney.

A difícil tarefa de traduzir as letras foi reservada a Miguel Fallabela. "Ele chorou quando fiz o pedido", relembra Claudia, que faz questão de detalhar a dedicação com que ele enfrentou a métrica clássica de Ira Gershwin. "Toda a intenção do original foi preservada, em um trabalho muito delicado de Miguel."

O espetáculo conta a trajetória de Bobby Child (Jarbas Homem de Mello), um jovem playboy de Nova York que, apesar da insistência da mãe, não tem o menor interesse pelos negócios da família e só quer saber de cantar e dançar. Mesmo assim, ele é enviado à pequena e pobre cidade de Pedra Morta, no oeste americano, para cobrar uma dívida e fechar o teatro local.

Ao chegar lá, Bobby se apaixona pela única moça da cidade, Polly (Claudia Raia), uma mulher embrutecida, filha do proprietário do estabelecimento. "Claro que, aos poucos, ela vai perdendo o aspecto de durona e se tornando mais gentil", conta a atriz, que, para o papel, precisou controlar o tom da voz. "Não podia engrossar muito, pois fugia da melodia original."

Apesar de fazer parte do coro, os habitantes de Pedra Morta têm, cada um, sua história particular, detalhe que não consta no texto original. A decisão foi do diretor do espetáculo, José Possi Neto. "Não gosto de figurantes sem função, assim, criei, com o elenco, um perfil para cada um dos personagens, permitindo que o espectador tenha um quadro variado de histórias para acompanhar além da trama principal."

O trabalho principal, na verdade, foi com o sapateado. Claudia e Jarbas já praticam há muito tempo, mas, para esse musical, o trabalho foi mais detalhado. "Entramos em uma maratona de preparação de muita exigência física", conta o ator que, junto do elenco, enfrentou dez horas diárias cantando, dançando e malhando. O musical traz a coreografia original da Broadway, criada pela americana Susan Stroman (ganhadora de um Tony por essa obra). No Brasil, o grupo foi ensaiado por Angelique Ilo, artista com 27 anos de experiência em musicais americanos, enviada por Susan especialmente para esse projeto.

A exigência física obrigou inclusive a uma mudança na respiração: "Aprendemos a afastar as costelas a fim de que o ar possa entrar e sair com mais rapidez, evitando que fiquemos ofegantes ao final de cada número musical", conta Claudia, em plena forma ao exibir seu talento para esse tipo de espetáculo.

Outro destaque em cena, Jarbas tem uma adorável performance - com um perfil semelhante ao de Gene Kelly (um de seus ídolos, aliás), ele exibe toda a ingenuidade de Bobby com extrema convicção, tornando atraente especialmente os momentos cômicos.

Para isso, recebe grande contribuição de atores veteranos em musicais, como Marcos Tumura e Jonathas Joba, impagáveis em seus papéis que, sob sua batuta, deixam momentaneamente de ser secundários.

O estilo country inspirou os cenários de Duda Arruk, o figurino de Fábio Namatame e a iluminação de Wagner Freire, que apresentam o contraste ideal entre a escura Nova York e a solar cidade de Pedra Morta.

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