Após ser baleado, Bortolotto está reagindo bem, diz médico

Dramaturgo paranaense reagiu a um assalto e foi operado no sábado; estado de saúde segue muito grave

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2009 | 12h24

PRAÇA NO PALCO - Bortolotto é um dos artistas responsáveis pela revitalização da Praça Roosevelt

 

SÃO PAULO -  O dramaturgo paranaense Mário Bortolotto, 47 anos, baleado no último sábado está reagindo bem, segundo o médico Vicente Dorgan Neto, da Santa Casa. A equipe médica já diminui a quantidade de medicamentos e se continuar assim, o dramaturgo pode ser acordado na madrugada de segunda ou em 24 horas. No momento ele está respirando por aparelhos, sob sedação. Segundo o médico, há ainda risco grande de infecção.

 

Veja também:

link 'Não vou deitar. Então atira', teria dito dramaturgo

blog Marcelo Rubens Paiva: 'Força Marião'

 

Artistas e amigos vão se reunir nesta domingo, 6, no Espaço Parlapatões, às 21h, para ler trechos de peças e poemas de Bortolotto. Em comunicado, eles convidam público, frequentadores da praça, vizinhos e "todos os que se dispõe a enfrentar a violência para vir a este encontro".

O dramaturgo que é fundador do grupo de teatro Cemitério de Automóveis e autor de peças como Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, e o músico e desenhista Henrique Figueroa - conhecido como Carcarah - foram baleados no sábado, às 5h30, durante tentativa de assalto no bar do Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, no centro.

 

Carcarah recebeu três tiros na perna direita e segue internado no Hospital Sírio Libanês, mas não corre risco de vida. Já Bortolotto foi atingido provavelmente por duas balas, que provocaram três perfurações: uma perto do pescoço e duas no tórax. Ele precisou receber oito bolsas de sangue e permanecia sedado na UTI da Santa Casa de Misericórdia. "O coração foi ferido. Com esse tipo de machucado, dificilmente chega-se vivo ao hospital. Mário deu sorte", afirmou o cirurgião e amigo do dramaturgo, Vicente Dorgan Neto, que trabalha no hospital. Segundo a Santa Casa, ele precisou ir duas vezes ao centro cirúrgico. Uma, durante a manhã, para a retirada dos projéteis. A outra, no final da tarde, ortopédica, já que a bala perfurou o tórax e chegou aos membros superiores.

 

Os tiros foram disparados por quatro homens que invadiram o espaço após renderem o segurança. O local é frequentado por pessoas ligadas à arte e as reuniões sempre acontecem após as apresentações das peças - desta vez, está em cartaz Brutal, escrita por Bortolotto. O espetáculo terminou às 2h30 e 25 pessoas ainda estavam reunidas após três horas, quando o assalto começou e pareceu seguir roteiro de tragédia.

 

"Os homens queriam dinheiro, celular, aparentavam estar drogados", contou a atriz Guta Roriz. "Eles mandaram todo mundo deitar no chão. Foi então que um deles me deu uma coronhada." Segundo testemunhas, a agressão contra a amiga foi o que tirou Bortolotto de si. Ele foi para cima dos bandidos, abriu os braços e pediu que atirassem nele. Os criminosos obedeceram. "Bortolotto é impetuoso, com um coração enorme", afirmou a atriz Martha Nowill, que presenciou o crime.

 

Os bandidos fugiram em uma Parati. Ninguém foi preso e a única pista para o 4º Distrito Policial, que investiga o caso, são as imagens de segurança feitas pela câmera do Parlapatões. O músico Diego Basanelli chegou ao local na mesma hora em que os criminosos saíram. "Gritei para que os policiais o levassem ao hospital na viatura. Não dava mais para esperar o resgate."

 

No sábado, na Santa Casa, vários artistas esperavam por notícias. Lamentavam o fato de que uma das pessoas que mais batalhou pela revitalização da área central tivesse sido vítima no centro. Há três anos, o Parlapatões escolheu a Praça Roosevelt como "casa", assim como outros grupos de teatro. Todos reclamavam da falta de segurança no local. "Preferia que tivessem roubado tudo", lamentou Raul Barreto, sócio de Bortolotto.

 

Os Parlapatões suspenderam apresentações, mas os artistas dos palcos vizinhos diziam que o "teatro tem de continuar". "O Bortolotto ficaria muito bravo se a comédia parasse", observou Lulu Pavarin, que prometia apresentar A Locadora de Vídeos.

 

Texto atualizado às 14h34 para acréscimo de informação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.