Tracy Nguyen / The New York Times
Tracy Nguyen / The New York Times

Wunmi Mosaku revela o que tem em comum com sua personagem no seriado 'Lovecraft Country', da HBO

'Eu me pareço com Ruby em um mundo que ainda experimenta o racismo, a injustiça, a desigualdade, o patriarcado e o colorismo', disse a atriz

Kathryn Shattuck, The New York Times

16 de setembro de 2020 | 10h00

Alerta de spolier: esta entrevista talvez acabe revelando coisas sobre o episódio de domingo de Lovecraft Country.



Para Wunmi Mosaku, que detesta cenas de sangue, Lovecraft Country parecerá talvez uma escolha curiosa. Mas ela já havia lido grande parte do roteiro piloto quando o monstruoso Shoggoths começou a rasgar apêndices, e a essa altura, estava gostando muito.

“Eu me perdi completamente na história, me senti sintonizada com o personagem antes de me dar conta de que era um horror”, disse Mosaku falando do filme de horror sobrenatural da HBO, ambientado na América de Jim Crow dos anos 50. “Mas o que eu acho muito inteligente no roteiro e no livro, e também tão musical, místico e violento, é que a coisa mais horripilante é a realidade do horror”.

Mosaku faz o papel de Ruby Baptiste, meia-irmã cantora de blues da corajosa Leti (Jurnee Smollett), cujos sonhos de trabalhar atrás de um balcão na Marshall Field’s não se realizam. Isto é, até o episódio de domingo, o quinto da temporada. Com a ajuda de uma poção, Ruby acorda no corpo de uma mulher branca, interpretada por Jamie Neumann. Ruby, que afirma chamar-se  Hillary Davenport, passa o dia alternadamente alegre e pasma com sua nova moeda cultural recém-descoberta antes de se metamorfosear – graficamente, dolorosamente – de novo na negritude.

“Ver costelas e cotovelos brotando da pele de outra pessoa  é demais, mas na realidade eu me apaixonei mais pela sua qualidade artística", disse Mosaku. “Tipo: como será que eles fizeram isto?”.

 


A atriz nascida na Nigéria, de 34 anos, que fala com um perfeito sotaque britânico entremeado de risadas, emigrou para Manchester, Inglaterra, com os pais professores quando tinha um ano de idade. Quando criança, obcecada por Annie, ela descobriu que Albert Finney, um colega de Manchester, havia frequentado a Real Academia de Arte Dramática, então também se candidatou e foi aceita.

Competente ganhadora de um prêmio BAFTA na TV britânica (Luther, Vera), Mosaku é mais conhecida nos Estados Unidos por filmes como Animais Fantásticos e Onde Habitam e Philomena.  O público também pode vê-la no próximo filme His House, em que ela e Sope Dirisu interpretam refugiados de guerra sudaneses que descobrem algo terrível em sua nova casa na Grã-Bretanha. ( Estreia no dia 30 de outubro na Netflix.)

Atualmente vivendo em Los Angeles, Mosaku passou os últimos meses na quarentena, tentando afastar os pássaros de sua horta entre pepinos e berinjelas. Em uma recente entrevista por telefone, ela falou de Lovecraft Country, sua desanimadora relevância cultural e o motivo pelo qual a vingança é um prato melhor quando comido sem saltos agulha. Abaixo, alguns trechos da conversação.




 

No episódio de domingo, Ruby diz que na maior parte dos dias, ela é feliz por ser preta e mulher, “mas o mundo continua me interrompendo, e eu estou cansada de ser interrompida”. Quem é Ruby, quando não a interrompem?


Eu a descreveria como muito ambiciosa. Ela tem plena consciência  do jogo que precisa jogar. Mas ainda acredita que, se trabalhar com grande afinco – e precisando apenas de uma pausa – o racismo sistêmico deixará de se aplicar a ela. Todos sabemos que ela é bastante talentosa, inteligente. Ela tem esta profunda esperança, mas, na realidade, está mascarando essa raiva ainda mais profunda e feroz pela injustiça que sofreu.


 

A história é ambientada 60 anos atrás, mas há alguma coisa em Ruby que teria alguma relação com você?


Ah, sim. Eu me pareço com Ruby em um mundo que ainda experimenta o racismo, a injustiça, a desigualdade, o patriarcado e o colorismo. Tive experiência disto e a minha família também, é claro. A coisa que acho mais difícil na série é que ainda é relevante. Eu sou Ruby de várias maneiras. A perseguição de automóvel a 40 por hora e o policial no meu encalço foi a coisa mais intensa, porque se baseia na realidade e me afeta. Ela afeta muitas pessoas com a cor da minha pele. Então, é isso que acho incrivelmente poderoso no filme, mas também muito desanimador: porque parece que as coisas não mudaram o bastante, e às vezes a gente se pergunta, será que andamos mesmo um pouco?


 

A sua perspectiva mudou desde quando você gravou a série no ano passado e agora, depois de um verão de protestos e de uma nova preocupação nacional com a injustiça racial?


A diferença é que há uma pandemia, e não há outra distração para muita gente. Ela me afetou enquanto movimento. As pessoas estão prestando mais atenção e sentindo isto mais profundamente do que se o vissem apenas como um problema lá longe, ou como um problema que o racista precisa sanar, ou um problema apenas para uma pessoa preta. Nós nos demos conta de que é dever de cada um, cada um que deseja e exige justiça e desculpas. É algo da comunidade. Se você quer que o mundo seja melhor, então o mundo deve fazer isto coletivamente.




 

Como foi filmar aquelas cenas macabras em que as garras de Ruby arranham o corpo de Hillary?


A pior coisa foi a mudança da forma. Jamie tira um pouco da luz – ela precisa fazer muito esforço físico, e é impressionante. Mas e sair do casulo? Aquela sangria, a carnificina, a sujeira? Tudo em mim. Quando vi meus olhos saindo de sua garganta, estremeci.


 

Em uma cena ainda mais sangrenta, Ruby sai do seu disfarce branco para violar o seu chefão racista com um salto agulha, a vingança por ele ter abusado de uma colaboradora preta. Como é que você se prepara para interpretar coisas como estas?


Eu não tinha ideia até ler [o roteiro do Episódio 5] e foi um verdadeiro choque, porque não tinha visto isto acontecer. Esse tipo de violência não é legal em nenhum aspecto da vingança. A vingança é uma coisa que nunca explorei realmente, e, pessoalmente, minha mãe disse: “Mate-os com doçura”. O que em geral significa apenas sorrir e fazer o que tem de ser feito, e envergonhá-los por seus atos.

Nós duas, eu e Jamie, lutamos com aquela cena. Foi um dia cheio de emoção, para falar a verdade, porque houve uma exploração profunda da ira e da vingança. A dor parece tão real e tão profunda que te faz lembrar muitas coisas da tua própria vida, da tua própria ira e da tua própria dor.


 

Ruby usa a poção mágica várias vezes. O que você acha do fato de que ela preferiu transformar-se em uma mulher branca?


Isto acaba se tornando um superpoder que agora ela possui – agora ela tem uma liberdade absoluta. Há magia quando não há realmente consequências. Mas eu discordo do que Ruby faz. Às vezes eu penso: Puxa, é difícil, porque parece uma traição, e parece uma coisa muito errada, parece tão contrária ao amor por si mesma, que é obviamente o movimento em que estamos em uma sociedade: amar a nós mesmos. É muito difícil para mim, pessoalmente, entender. Não entender – eu entendo. Só não tenho empatia por isso.


 

Mulheres pretas responsáveis por um programa, como Misha Green, a criadora de 'Lovecraft Country', são ainda relativamente raras. O fato de ela estar lá facilitou a exploração deste tipo de questões?


Ah, sem dúvida. Falar sobre racismo com brancos pode deixar as pessoas brancas muito desconfortáveis, e as pretas também. Você deve ter um grau de confiança e um espaço seguro para falar sobre como você se relaciona com o personagem, como você se diferencia do personagem, das coisas que aprendeu. Eu me comporto em geral como uma pessoa que fica muito calada a respeito das minhas experiências pessoais. Não gosto de discutir e não gosto do confronto, e acho difícil me envolver honestamente com coisas como esta fora da minha casa. Porque é uma auto-exposição, é doloroso, é exaustivo ter de explicar a alguém que não sabe como a coisa é e que vive uma experiência totalmente oposta à sua. Por isso há uma realidade que você pode colocar na mesa porque se parece com você. O mundo a vê da mesma maneira como vê você.

Não me interprete mal: Eu sou uma nigeriana preta nos EUA, e sem o meu sotaque, sim, somos tratados do mesmo modo. Quando eu falo, as pessoas me tratam de maneira muito diferente. Tenho consciência desse privilégio também. Mas nem sempre há uma oportunidade de falar antes que alguém nos julgue ou nos trate de maneira injusta. Por isso foi necessário  para mim ser honesta e abrir-me. Acho que eu não teria sido capaz de representar facilmente sem alguém que compartilhasse de uma experiência semelhante à minha enquanto mulher preta.


TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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