JORGE BISPO
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Websérie 'Se Eu Estivesse Aí', com Débora Falabella, traz vida de casal afastado na pandemia

Ao lado de Gustavo Vaz, da ExCompanhia, atriz faz uma mulher que troca mensagens com seu parceiro; tudo gravado em áudio 3D e no confinamento

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 05h00

A pandemia veio para alterar a maneira como a arte e os artistas serão vistos daqui pra frente. 

Em um cenário mais amplo, não importa mais se uma dupla sertaneja arrasta multidões em shows ou se um grupo experimental de teatro reúne poucas pessoas interessadas. Enquanto durar o confinamento, o alcance da arte ficou restrito ao ambiente digital – uma selva desconhecida por muitos, movimentada por algoritmos, mas também repleta de nativos. 

Desde o começo da quarentena, o furor pelas lives só cai. Artistas que reuniam milhões em audiência já não têm mais o mesmo apelo online dos últimos meses. Será que o formato enjoou? 

Em parceria com a ExCompanhia de Teatro, a atriz Débora Falabella tem refletido sobre essa fruição por parte do público na websérie Se Eu Estivesse Aí, disponível na plataforma Gshow, da TV Globo.

Como falar de plateia se tornou algo quase anacrônico. É urgente que o trabalho de atores, atrizes, diretores e autores se faça visível na internet, enquanto não houver palco ou gravações em condições seguras. De qualquer forma, a websérie aponta um caminho e um motivo básico: o desejo de contar histórias. 

O trabalho da ExCompanhia não é recente. Fundada em 2012, o grupo estreou trabalhos que misturam experiências narrativas com jornadas pela cidade, ou mesmo por espaços públicos, como foi o caso de O Enigma Voynich, um audiodrama seriado com cara de game. 

Na trama, um historiador busca informações sobre o lendário manuscrito Voynich, suas letras confusas, de autoria desconhecida. O espectador deve acompanhar a história com seu celular e fone de ouvido, abrigado no interior da Biblioteca Mário de Andrade, no Anhangabaú. Mas não é só isso. Os diálogos e sons foram gravados respeitando os lados do fone, esquerdo e direito, o que recria a sensação de tridimensionalidade do espaço. 

A mesma técnica acompanha o novo Se Eu Estivesse Aí. A atriz e a ExCompanhia criaram uma nova história, agora sob a condição do convívio restrito e da ameaça de uma pandemia que atingiu de vez o País. Na trama, Débora interpreta uma mulher que toca mensagens com seu parceiro (Gustavo Vaz), relação em vias de entrar em crise. Cada qual em sua casa, em distanciamento social. “Com a pandemia, não demorou para surgir a impossibilidade de trabalhar. Acredito que responder com um nova ação se mostrou um desafio para todos”, ressalta a atriz. 

Lembrando que nos últimos meses a produção de novelas e séries precisou ser interrompida, entre elas, a segunda temporada da série Aruanas, que tem Débora no elenco. Em meados de março, a Globo iniciou as gravações da série, ainda sem Taís Araújo, por conta de seu papel na novela Amor de Mãe, que também foi suspensa. O impacto continua levando artistas para criações híbridas, que unem formatos de interpretação e experiências audiovisuais.

Além de O Enigma Voynich, a ExCompanhia fez trajetórias mais ambiciosas em Frequência Ausente 19 Hz, que além de uma história para ser ouvida, levava o espectador em um passeio pelas ruas. O trabalho já foi apresentado em diversas cidades. Detalhes sobre como acessar as histórias estão no site do grupo.

Em Se Eu Estivesse Aí, também há um avanço no visual. Antes do espectador começar, existem algumas recomendações: sentar em uma cadeira, de preferência em um lugar silencioso, sem interrupções. O fone de ouvidos recomendado é o tipo headphone, que se apoia na cabeça e que garante melhor isolamento sonoro. Também é preciso respeitar as indicações de lado direito e esquerdo, para ampliar a sensação de áudio 3D.

O áudio também indica o conteúdo visual. Com um efeito sonoro, a imagem do corpo de uma mulher, do pescoço para baixo, aparece na tela, explica a atriz. “É uma forma de aprofundar a experiência, como se as pessoas fossem transportadas.” 

E funciona. Com pouco mais de cinco minutos em cada episódio, o espectador convive na pele do homem e da mulher. Enxerga a perspectiva de cada um, enquanto escuta a troca de mensagens do casal. 

O texto e a direção são compartilhados por Débora e a ExCompanhia. “A vida do casal vai dos dias parecidos até o início do isolamento. Suas decisões não escondem o que todo mundo pode estar enfrentando na pandemia”, explica a atriz. “A ideia é criar um espaço de empatia, tendo o espectador no centro. No lugar das personagens.” 

Episódios de Se Eu Estivesse Aí disponíveis aqui.

Homemade traz pílulas da quarentena em curtas

Disponível na Netflix, a série Homemade pode servir de boa inspiração sobre narrativas baseadas no confinamento. A antologia de 17 episódios traz curtas-metragens sobre o drama, a felicidade e as dores do convívio na quarentena.

Com episódios curtos – o mais longo tem 10 minutos –, a série traz um divertido diálogo entre o Papa e a Rainha da Inglaterra, e da atriz Kristen Stewart, em crises de ansiedade em sua casa. O cineasta Ladj Ly passeia pela França com um drone e Pablo Larraín arranca gargalhadas com o diálogo de um homem que decide se declarar à sua ex.

 

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