HBO
HBO

'The Wire' continua uma série única, mesmo 20 anos depois de sua estreia

A série, que está disponível na HBO Max, explora o universo policial de maneira diferente das que a antecederam e se tornou um clássico do estilo

James Poniewozik, The New York Times

07 de junho de 2022 | 20h00

Quando os críticos avaliam uma série de TV clássica, temos uma tendência estranha de nos transformar em biólogos evolucionários. Pensamos na velha árvore genealógica da televisão e medimos o sucesso da série por quantos ramos podemos traçar até ela - quantas séries modelaram um ou outro aspecto dela. Dragnet, Os Simpsons, Lost - você deve conhecê-las por seus imitadores.

E claro, a influência é uma medida de grandeza. Mas o que ninguém consegue imitar também. Há o pintor que deixa para trás uma escola de discípulos, mas há também o artista que descobre uma cor que ninguém imaginou antes ou depois.

The Wire estreou na HBO em 2 de junho de 2002 - hoje, está disponível na HBO Max. Nas duas décadas seguintes, sua reputação só cresceu, assim como sua audiência. É uma daquelas séries, como a Jornada nas Estrelas original, que as gerações futuras custarão a acreditar que lutou com baixas classificações durante toda a sua execução. (Sem falar que foi indicada a apenas dois Emmys e não ganhou absolutamente nenhum.)

Mas alguém fez outro Wire desde então? Quem - além do criador, David Simon, em sua série posterior - imitou sua expansão, sua complexidade, sua resistência à estrutura episódica fácil de digerir da TV? Fãs e produtores de TV elogiam a série como um marco e inspiração. No entanto, 20 anos depois, The Wire - como o queijo na música assobiada pelo notório criminoso da série, Omar Little (Michael K. Williams) - continua sozinha.

O palhaço continua o palhaço

Para apreciar o que The Wire (ou A Escuta, como foi chamada no Brasil) era, primeiro você precisa considerar o que ela não era. Ela não se parecia em nada com o meio século de séries policiais que vieram antes. Estruturalmente, não oferecia um caso da semana perfeitamente resolvido; auxiliada pela experiência policial do colaborador de Simon, Ed Burns, era realista e meticulosamente confusa. Filosoficamente, não estava convencida de que faria muita diferença, no grande esquema, se seus casos fossem resolvidos.

Mas também não era parecida com os dramas da TV a cabo, como Família Soprano, que foram construídos em torno de anti-heróis carismáticos cujas façanhas cativaram o espectador e conduziram o enredo. Ah, tinha personagens - dezenas de criações animadas, cheias de vida e poesia profana. (Em uma sequência de tour de force, dois detetives vasculham uma cena de assassinato, sem falar nada a não ser variações da obscenidade mais versátil da língua inglesa.) Mas quaisquer que sejam os triunfos que tiveram ou as escolhas ousadas que fizeram, no final seus resultados foram fadados pelos sistemas em que trabalharam.

Na verdade, não era uma série policial - ou melhor, esse gênero era usado para abrir portas que outras séries policiais não tinham aberto: trabalho, educação, crítica da mídia. Foi a série mais rica de sua época sobre política cívica, embora apenas uma parte se passasse na Prefeitura. Foi um drama jurídico experiente e em camadas. Às vezes - como quando o pistoleiro Omar se uniu ao mercenário Irmão Mouzone (Michael Potts) para se vingar do traficante Stringer Bell (Idris Elba) - era um dos melhores faroestes da TV.

Então, o que era The Wire, afinal? Ela entrega o jogo logo na primeira cena. O detetive Jimmy McNulty (Dominic West) está na cena do crime de Omar Isaiah Betts, também conhecido como “Snot Boogie”. Uma testemunha diz a ele que Snot tentou roubar o dinheiro de um jogo de dados semanal. Toda sexta-feira à noite o grupo jogava; toda semana Snot tentava pegar o dinheiro.

"Por que você o deixava entrar no jogo?" McNulty pergunta, intrigado.

“Eu tenho que deixar”, diz a testemunha. “Estamos na América, cara.”

É a América. E na América de The Wire, coisas confusas acontecem repetidamente como o mecanismo de um relógio, e ninguém nunca faz diferente porque simplesmente é assim que as coisas são feitas. Essa fala seca captura o espírito - o fatalismo, o humor ácido, o reconhecimento de que o sistema não funciona e o orgulho de continuar com ele de qualquer maneira - que impulsionou toda a série.

A primeira temporada, mais tradicionalmente focada no crime, lançou as bases da série. Houve uma investigação meticulosa de uma gangue de traficantes de Baltimore, usando vigilância eletrônica - a “escuta” do título. Mas foi complicada pelo conflito entre a unidade e os superiores que queriam prisões mais rápidas. / TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.