'The Handmaid's Tale' ganha versão em ópera em teatro de Londres

'The Handmaid's Tale' ganha versão em ópera em teatro de Londres

Produção na English National Opera é baseada no livro de Margaret Atwood e marca estreia de Annilese Miskimmon como diretora da companhia

Alex Marshall, The New York Times

11 de abril de 2022 | 15h00

Annilese Miskimmon, diretora de óperas britânica, parecia cansada ao aparecer em uma recente chamada de vídeo. Ela estava em um pequeno intervalo dos ensaios de The Handmaid's Tale - a primeira produção da English National Opera desde que ela assumiu a liderança artística da companhia em meio à pandemia. 

Os ensaios não aconteceram sem sobressaltos, ela diz, e acabaram atingidos por uma alta nos casos de Covid-19 na Inglaterra. Durante algumas semanas, a produção foi ensaiada em boa parte pela internet. "Este é um stress provocado pelo Zoom mais do que um stress por conta dos ensaios", ela afirma, com uma risada estranha. Ela já havia cancelado duas apresentações na temporada, que agora consiste de apenas quatro récitas, que vão até o dia 14 de abril. 

Miskimmon diz ter escolhido The Handmaid's Tale para sua estreia na English National Opera porque a companhia foi fundada a partir da ideia de "ópera para todos". O romance no qual foi baseada a história, de Margaret Atwood, é bastante conhecido na Inglaterra, e sua popularidade só aumentou com a adaptação para a TV.

Livro, série e ópera, escrita pelo compositor dinamarquês Poul Ruders, imaginam um futuro no qual mulheres são vistas como pouco mais do que máquinas parideiras. A história parecia urgente politicamente, diz Miskimmon. "Todos os dias, torna-se mais perigoso em diversas partes do mundo ser uma mulher."

Para o público de ópera, abrir a programação com uma distopia pode parecer mesmo apropriado. Nos anos recentes, a English National Opera foi atingida por crises reais e imaginárias. Entre elas, o corte em financiamento e pedidos de demissão, assim como reclamações sobre a diminuição no número de apresentações ano a ano. Para aumentar a receita, a companhia - que só apresenta óperas em inglês - agora aluga sua sede no West End, para produções musicais durante o verão.

A contratação de Miskimmon, em 2019, foi uma surpresa. O anúncio foi feito pouco depois do diretor americano Daniel Kramer pedir demissão, duas semanas após anunciar sua segunda temporada como diretor artístico. Kramer nunca havia ocupado uma alta posição em uma casa de ópera antes de se juntar à companhia, e muitos críticos o acusaram de não estar à altura do trabalho. 

Hugh Canning, colaborador de diversas publicações britânicas, disse estar "intrigado" com a decisão de Miskimmon de deixar o trabalho em uma casa tão sólida e bem financiada, como a Ópera da Noruega, para assumir a English Nation Opera, também conhecida como ENO. "Talvez ela goste de controvérsias", escreveu. Outros no mundo da ópera britânica concordaram que Miskimmon estava assumindo um trabalho complicado. "Dirigir uma casa de ópera é difícil, mas comandar a ENO é ainda mais", disse Gus Christie, diretor do Festival de Glyndebourne.

Como segundo teatro de ópera de Londres, a ENO esteve sempre em competição com a mais rica Royal Opera House, localizada a apenas alguns quarteirões de distância, acrescentou Christie. (O governo britânico dá à Royal Opera 32 milhões de euros por ano; a ENO recebe metade desse valor). "Se ela conseguir resolver as coisas, tiro meu chapéus", diz Christie.

John Allison, editor da revista Opera, diz que Miskimmon teve um começo muito bom. Durante a pandemia, ela manteve a companhia em movimento enquanto a maioria dos teatros da Inglaterra fecharam as portas, apostando ideias originais que chamaram atenção. Entre elas, uma produção de La Bohème, de Puccini, em estilo drive-in, e uma versão feita para a televisão do Réquiem de Mozart; além disso, cantores da companhia passaram a dar aulas de respiração para recuperados da Covid que ainda sentiam sequelas por conta do vírus.

Mas a maior parte das produções previstas para a primeira temporada de Miskimmon já haviam sido programas antes de sua chegada, incluindo uma montagem de A Valquíria, de Wagner, que em 2025 será apresentada no Metropolitan de Nova York. "Há muito em jogo com The Handmaid's Tale", diz Allison. "É seu cartão de visitas."

A ópera começa em 2195, com um palestrante descrevendo os horrores da República de Gilead, uma teocracia na qual as mulheres não têm direitos e onde "aias" são forçadas a ter filhos para a classe dominante. Annemarie Woods, cenógrafa da produção, diz que o time criativo pesquisou sistemas totalitários e pensou em como os artefatos desses regimes e suas atrocidades foi preservado. Assim, o palco do Coliseum, transformou-se um espaço de exibição, com itens de vestimentas - incluindo 50 das famosas capas vermelhas das aias - suspensos e iluminados como em um Museu do Holocausto. Outros itens da exposição incluem pedaços de muro no qual as aias são executadas, dispostos como um segmento do Muro de Berlim.

Kate Lindsey, meio-soprano norte-americana que interpreta Offred, papel principal da ópera, diz que gostou de ensaiar com Miskimmon, que "faz todo o possível para que as pessoas tenham uma voz artística no processo de criação". "É o verdadeiro sinal de uma diretora confiante, realmente confiante."

O caminho de Miskimmon até o panteão da ópera britânica está longe de ser comum. Nascida em 1974, ela cresceu em Bangor, pequena cidade nos arredores de Belfast, no  norte da Irlanda, durante o conflito chamado de Troubles. Ela viu sua primeira ópera aos 10 anos, quando seu pai atuou em uma produção amadora de A Flauta Mágica, de Mozart, no salão de uma igreja. 

Miskimmon logo apaixonou-se pelo gênero. Da mesma forma que a ópera permitia a ela escapar da realidade do conflito, parte de sua atração estava no fato de que de alguma forma o refletia. Na época, o norte da Irlanda era um lugar no qual as pessoas não sentiam ter controle sobre o destino, já que "podiam sair para um dia comum de trabalho e serem explodidas". Na ópera, diz Miskimmon, "os personagens são levados incessantemente do céu ao inferno", sem muito controle. "Parecia uma representação artística mais honesta da vida."

Na Universidade Cambridge, onde estudou Literatura Inglesa, Miskimmon dirigiu algumas produções estudantis. Mas nunca pensou que se tornaria uma diretora profissional, diz, até que foi convidada a trabalhar como assistente de Graham Vick em Glyndebourne. Após várias produções, ela assumiu o posto de diretora artística da Opera Theater Company, companha irlandesa itinerante, antes de seguir para a Ópera Nacional da Dinamarca, em Arhus, e para a Ópera da Noruega, em Oslo. 

Jornalista especializado em ópera e especialista sobre países nórdicos, Andrew Mellor conta que Miskimmon foi bem sucedida na Dinamarca, com várias produções inovadoras. Uma delas, Cosi fan Tutte, de Mozart, dava ao público a chance de escolher, antes darécita, entre uma montagem moderna e outra tradicional. Também chamou atenção a encomenda da ópera Brothers, sobre soldados dinamarqueses acometidos pelo stress pós-traumático ao voltar da guerra no Afeganistão. O período em Oslo foi mais turbulento. O diretor musical, Karl-Heinz Steffens, deixou o posto pouco antes da chegada de Miskimmon, e ela se indispôs com artistas da companhia ao buscar trazer à cidade músicos convidados. 

Seja como for, a experiência de lidar com situações difíceis será importante na ENO. No final de março, a companhia cancelou uma produção de King Priam, de Michael Tippet, prevista para 2023, por conta de "prudência financeira" motivada pela pandemia. E há desafios financeiros ainda maiores. Ao longo do último ano, o governo britânico cortou 15% da verba a ser repassada para organizações baseadas em Londres, para que o dinheiro pudesse ser gasto em outras regiões. 

Durante a entrevista de uma hora, Miskimmon não pareceu preocupada, insistindo que a ENO já tem planos para se apresentar fora de Londres. Segundo ela, já há discussões sobre como torná-la uma "companhia verdadeiramente nacional" que possa colaborar com companhias regionais.

"Um navio está seguro nas docas, mas não é para isso que servem navios", ela diz. "No fundo, tratase de arte, trata-se de vida. Estamos preparados para dar passos grandes em direção ao futuro, porque é disso que a ópera precisa." (Tradução de João Luiz Sampaio)

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