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AppleTV+/via AP
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‘Ted Lasso’ está de volta, mas já não é um azarão

Segunda temporada da série estreia em 23 de julho com 12 novos episódios na Apple TV+

Jeremy Egner, The New York Times

19 de julho de 2021 | 10h00

Jason Sudeikis estava levando o lixo para fora no outono passado quando soube que Ted Lasso tinha encontrado um espectador.

“Levando o lixo para fora não, reciclando”, ele emendou numa entrevista recente. “Provavelmente é melhor para minha marca se eu disser ‘reciclando’”.

Seja como for, foi a primeira vez que uma pessoa o parou para dizer o quanto tinha gostado do programa. Talvez você tenha vivido uma experiência semelhante - quem sabe durante sua quarentena, em alguma interação aleatória ou uma postagem nas redes sociais - quando alguém disse: “Quer saber? Esse programa baseado nos velhos comerciais de futebol é realmente muito bom. Especialmente agora”.

“É o tipo de programa de que precisamos agora” virou um tema definidor no surgimento de Ted Lasso como uma das surpresas da TV em 2020. Para agradar ao público de coração aberto, é estrelado por Sudeikis como um técnico de futebol americano com um bigode maravilhoso, contratado por meio de um certo truque com vídeos esportivos, para dirigir um clube da Premier League na Inglaterra. Por meio de um programa de obstinada positividade e aforismos folclóricos - “Quando se trata de vestiários, gosto deles como as roupas de banho da minha mãe: só quero vê-los como uma peça inteira” - o neófito do futebol transforma um bando desorganizado de profissionais cansados em, ainda que não exatamente vencedores, pelo menos numa família coesa de pessoas que acreditam em si mesmas.

O personagem se originou em 2013 nas chamadas publicitárias da NBC Sports que Sudeikis criou com seus antigos companheiros de improvisação Brendan Hunt e Joe Kelly, produtores executivos da série. (Hunt também estrela como o Treinador Beard, ajudante de Lasso). Os anúncios eram inteligentes e o personagem, divertido. Mas, quando ele chegou em forma de série à Apple TV+ em agosto de 2020, no meio da pandemia de coronavírus, de uma eleição presidencial amargamente polarizada e de um verão de violência policial e protestos por justiça racial, o profundamente decente e infinitamente otimista Ted Lasso parecia um verdadeiro bálsamo cultural.

Neste ano vieram as recompensas por ter sido o programa certo na hora certa. Sudeikis ganhou um Globo de Ouro como ator e a série recebeu um Peabody. Na terça-feira, o programa teve 20 indicações ao Emmy, o maior número de qualquer série de comédia deste ano, incluindo menções de melhor comédia e de melhor ator em comédia (Sudeikis).

Ted Lasso retorna em 23 de julho para uma segunda temporada de 12 episódios. (Já foi renovado para uma terceira). Os novos episódios encontram Lasso e seus amigos (interpretados pelos recém-nomeados ao Emmy Hannah Waddingham, Brett Goldstein, Nick Mohammed, Jeremy Swift e Juno Temple, entre outros) juntando os cacos do rebaixamento do time na temporada passada e lidando com a chegada de uma terapeuta esportiva interpretada por Sarah Niles.

Mas os tempos estão diferentes agora. Ao contrário de sucessos pandêmicos como O Gambito da Rainha, Ted Lasso está prestes a descobrir até que ponto sua aclamação se deve ao fato de seu público estar preso em casa e precisar de consolo. Será que os espectadores ainda vão querer tanto ânimo quando não estiverem mais se sentindo tão deprimidos?

Numa videochamada em grupo no início deste mês, Sudeikis, Hunt e outro criador, o veterano de sitcons Bill Lawrence (Scrubs, Spin City), discutiram este e outros temas, incluindo quanto tempo eles acham que Ted Lasso vai durar e como uma figura pública meio “vilão do Batman” deu maior relevância à série. Aqui vão alguns trechos editados da conversa.

P: O programa estreou no verão passado, mas a maioria dos telespectadores demorou um pouco para encontrá-lo. Quando todos vocês notaram que a série começou a ganhar força?

SUDEIKIS: Em Londres, estávamos em lockdown. Só depois de voltar ao Brooklyn e ir a um jogo do Nets com meu filho, vi as pessoas dizendo: “Ei, adoro a série!”. Aí me botaram no telão e mostraram um clipe do Ted dando um tapa no cartaz escrito “Eu acredito!”. Aí pensei, “beleza, as pessoas estão vendo a série”.

LAWRENCE: A coisa de que mais gostava no começo da série era pesquisar Ted Lasso nas redes sociais e encontrar um monte de posts onde as pessoas diziam coisas do tipo: “Não acredito que este programa seja muito ruim”, ou então “Na real, esta série não é um lixo total”.

HUNT: Bem-vindo ao Museu de Baixas Expectativas do Bill Lawrence!

P: As expectativas eram bem baixas mesmo, graças aos programas anteriores baseados em anúncios publicitários como o Cavemen, da Geico. Como os anúncios da NBC acabaram virando série?

SUDEIKIS: O segundo comercial realmente revelou esse elemento-chave do personagem: seu entusiasmo e otimismo. Ele se apaixonou pelo futebol. Ele se apaixonou por Londres. E era muito divertido fazer o personagem, atuar junto com o Brendan, eu como o Ted e ele como seu treinador assistente, que na época nós, muito habilmente, batizamos de Treinador Beard.

Então Brendan, Joe e eu pensamos que, se fôssemos fazer mais alguma coisa, seria o quê? Um comercial? Um filme? Continuamos criando histórias. Pegamos o The Office britânico como modelo, sugerimos um esboço do piloto e mais ideias para episódios para a primeira temporada, a segunda temporada. Mas depois o projeto ficou adormecido por três anos. Aí o universo trouxe Bill Lawrence para a mistura, e ele realmente fez tudo acontecer.

P: O que havia no personagem e no conceito que parecia ser capaz de sustentar uma história mais longa?

SUDEIKIS: O tema e o tom eram coisas que já estavam pululando na minha cabeça. Eu não queria fazer o típico arco de personagem que vai do filho da mãe até o santo. O Ricky Gervais já tinha feito isso muito bem como David Brent. Então foi tipo, que tal interpretar um mocinho?

O que Bill e eu conversamos foi sobre essa antítese do coquetel de um cara muito humano que é ignorante e arrogante ao mesmo tempo, que é, digamos assim, uma versão do vilão do Batman virou presidente dos Estados Unidos na mesma época. E se você interpretasse um cara ignorante que fosse realmente curioso? Que, quando alguém usasse uma palavra complicada, tipo “vernáculo”, ele não agisse como se soubesse e só interrompesse a reunião e perguntasse “Uma pergunta: o que quer dizer essa palavra?”.

E também a ideia de simplesmente dizer “por favor” e “obrigado” - eu me lembro de abrir portas para as pessoas quando fui contratado pela primeira vez no Saturday Night Live, e elas paravam, achando que eu ia bater na bunda delas ou alguma coisa assim. Sempre foi muito engraçado para mim, então a série se baseou naquelas observações sobre o que estava acontecendo com a sociedade e o discurso e a falta de educação, tudo numa coisa só.

P: Mas você também entra em coisas mais sombrias com as quais Ted está lidando, como os ataques de pânico. Por que isso era um tema importante para você?

SUDEIKIS: Tivemos que trabalhar de trás para frente, porque, se você vai fazer esse cara legal, de certa idade, casado, então por que ele aceita esse emprego? Bem, as coisas não devem estar bem em casa. Sempre é algo revelador. Vou destruir a citação de Mark Twain, mas a vida de cada pessoa é uma comédia, um drama e uma tragédia. Então tivemos que honrar esses outros dois elementos, porque a parte da comédia estava embutida na premissa do peixe fora d’água, do idiota desajeitado que não sabe o que está fazendo. Além do bigode, claro.

P: Ted tem mais do que se vê na superfície, e isso também se aplica aos outros personagens. A amarga ex-esposa que o contrata para arruinar o time favorito de seu ex-marido, o influencer enfadonho, o atleta marrento - quase todo mundo incorpora um estereótipo que acaba sendo subvertido.

LAWRENCE: Seria fácil dizer, “Essa protagonista feminina é só o vilão clássico. Ela está tentando destruir o time. Ela é uma megera”. Mas vamos mostrar o que a levou até esse ponto, a maneira como ela foi abusada emocionalmente. Vamos levá-la a uma encruzilhada e fazer as pessoas esperarem que ela siga o caminho certo. A coisa mais incrível dessa série, para mim, como alguém que já fez muita coisa na TV, é que todo roteirista poderia contar a você a jornada completa de cada personagem antes mesmo de começarmos a escrever a segunda temporada.

P: Se a história já está mapeada, quantas temporadas a série vai durar?

LAWRENCE: Agora vamos arrumar uma briga aqui. A resposta mais fácil é oito.

HUNT: Está no New York Times! Então agora é fato!

SUDEIKIS: A série foi concebida com uma estrutura de três atos. Temos sorte o suficiente pelo primeiro ato ter acontecido. E através das boas graças e dos bolsos cheios da Apple, que evidentemente faz mais do que televisão, poderemos contar essa história até o fim.

LAWRENCE: Mesmo que eu brinque com isso, essa jornada de Ted Lasso e das pessoas ao seu redor vai terminar na terceira temporada. Aí, se houver outra história para contar, vai haver outra história para contar.

HUNT: Um elemento da fórmula que nunca poderíamos ter calculado é o grau com que as pessoas gostam da série. Todos nós tomamos um susto com isso. Então, vamos ver o que acontece.

P: Um dos comentários correntes sobre a primeira temporada foi uma versão do famoso “esta é a série de que precisamos agora”. Quase um ano depois, as coisas melhoraram de várias maneiras. Vocês acham que isso vai mudar a maneira como a nova temporada será recebida?

LAWRENCE: É uma resposta à cultura tóxica e cínica que existe, especialmente às redes sociais, ao discurso político, à maneira como as pessoas falam umas com as outras. Não acho que essas coisas tenham sido resolvidas, a menos que alguém tenha feito isso no fim de semana, quando eu não estava prestando atenção. É por isso que acho que Ted Lasso está acertando em cheio.

SUDEIKIS: Na verdade, a quarentena removeu o ruído de outras opções que as pessoas tinham nas suas vidas. “Só dá para assistir a O Gambito da Rainha uma vez. Então acho que vou ver esta série de futebol meio idiota”.

HUNT: Este foi o slogan por um tempo: “Ted Lasso: porque O Gambito da Rainha um dia chega ao fim”.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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