'Succession' termina em banho de sangue

Tudo mudou e nada mudou na terceira temporada

Mariane Morisawa - Especial para o Estadão 

*O texto a seguir tem spoilers sobre o episódio final da série da HBO

É até engraçado que as duas séries mais comentadas do ano tenham sido Ted Lasso e Succession. Pois as duas não poderiam ser mais diferentes. Ted Lasso, do Apple TV+, é uma série aspiracional, em que todas as pessoas são boas, mesmo que não pareça. O personagem do título é tão generoso e otimista que é capaz de transformar até a pessoa mais rabugenta ou amarga em alguém para quem torcer. Em Succession, da HBO, é quase impossível escolher alguém para torcer. Todos são egoístas, sem escrúpulos, ambiciosos. Muito de vez em quando, mostram alguma compaixão ou sentimento. Mas, em geral, logo passa. 

Connor pede Willa em casamento no penúltimo episódio do 'Succession' da HBO, e só tem a resposta no último episódio.  Foto: Graeme Hunter/HBO

É difícil, portanto, ser romântico e assistir a Succession. O criador da série, Jesse Armstrong, que claramente se inspira nas tragédias de Shakespeare - Rei Lear, Titus Andronicus, Macbeth -, sempre falou que tem sérias dúvidas se o ser humano é capaz de mudança. Ainda mais neste mundo em que vivemos, em que o dinheiro e o poder sempre prevalecem. 

Continua após a publicidade

Nunca essa visão de mundo ficou tão clara quanto na terceira temporada, encerrada ontem. Quase nada parecia acontecer: Kendall (Jeremy Strong), como sempre, caía de cara no chão depois de mais uma vez afrontar seu pai, Logan (Brian Cox), dono de um império de mídia e entretenimento. Seus irmãos, Shiv (Sarah Snook) e Roman (Kieran Culkin), disputavam a tapa a atenção do pai, um ser humano inescrutável, aparentemente invencível, a não ser, talvez, na disputa contra a idade, a saúde e a morte. 

Mas os capítulos finais - e, principalmente, o último episódio, Todos os Sinos Dizem - mostraram que, na verdade, os anteriores foram construindo lentamente um cenário explosivo. Não como muitos espectadores esperavam, com a morte de Kendall, que caiu em depressão depois de levar mais uma na cara de Logan e parecia ter se afogado na piscina da villa na Toscana onde estava para o casamento da mãe. Essa seria uma saída muito fácil, e não é assim que Succession opera. 

E, no entanto, quem poderia adivinhar que, no episódio derradeiro, Kendall ia admitir, entre lágrimas, que matou o garçom em um acidente de carro no casamento de Shiv, que uma aliança ia se formar entre os irmãos para enfrentar o pai, que resolveu vender a empresa sem falar com os filhos, e que os três iam ser traídos por Logan, pela mãe, Caroline (Harriet Walter, curiosamente a mãe de Rebecca em Ted Lasso), e por Tom (Matthew Macfadyen), o marido de Shiv? Se alguém imaginou isso, pode jogar na loteria que é vitória certa. 

Succession fala de disputa de poder, claro. E muita gente liga para ver os Roy se ferrando alternadamente semana a semana. A série é também uma sátira e tem momentos "cringe" para dar e vender. Mas seu coração dramático está, na verdade, na disfunção familiar, no abuso, no trauma, na paternidade e maternidade tóxicas. Logan sofreu quando era jovem e, como tantas vítimas, perpetua o abuso, traumatizando seus próprios filhos. Kendall já tinha percebido isso fazia muito tempo. Shiv caiu em si ao longo da terceira temporada. Roman talvez ainda estivesse um pouco em dúvida - ele precisou de muitos empurrões dos irmãos para embarcar na tentativa de golpe. 

Cada um ali lida com o trauma de forma distinta. Kendall se afunda nos vícios. Roman faz piada. Por isso faz sentido que, segundo o polêmico perfil de Jeremy Strong na revista The New Yorker, o ator tenha dito para Culkin temer que o espectador achasse estar vendo uma comédia. Porque Strong claramente está em uma tragédia. E Culkin, em uma comédia. Mas talvez agora Roman perceba também estar em uma tragédia.

A série parece seguir a máxima de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Tudo deve mudar para que tudo continue como está". A terceira temporada foi assim: nada parecia estar mudando e, no entanto, tudo estava. Para, no fim, tudo continuar igual. Logan ainda está um passo à frente de seus filhos. Como eles vão lidar com mais essa traição, agora conjunta, é o assunto da próxima temporada, assim como o futuro da relação Shiv e Tom, que pode estar no topo agora, mas, é bom lembrar, não é exatamente da família. É de esperar mais alguns banhos de sangue. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Succession' termina em banho de sangue

Tudo mudou e nada mudou na terceira temporada

Mariane Morisawa - Especial para o Estadão 

*O texto a seguir tem spoilers sobre o episódio final da série da HBO

É até engraçado que as duas séries mais comentadas do ano tenham sido Ted Lasso e Succession. Pois as duas não poderiam ser mais diferentes. Ted Lasso, do Apple TV+, é uma série aspiracional, em que todas as pessoas são boas, mesmo que não pareça. O personagem do título é tão generoso e otimista que é capaz de transformar até a pessoa mais rabugenta ou amarga em alguém para quem torcer. Em Succession, da HBO, é quase impossível escolher alguém para torcer. Todos são egoístas, sem escrúpulos, ambiciosos. Muito de vez em quando, mostram alguma compaixão ou sentimento. Mas, em geral, logo passa. 

Connor pede Willa em casamento no penúltimo episódio do 'Succession' da HBO, e só tem a resposta no último episódio.  Foto: Graeme Hunter/HBO

É difícil, portanto, ser romântico e assistir a Succession. O criador da série, Jesse Armstrong, que claramente se inspira nas tragédias de Shakespeare - Rei Lear, Titus Andronicus, Macbeth -, sempre falou que tem sérias dúvidas se o ser humano é capaz de mudança. Ainda mais neste mundo em que vivemos, em que o dinheiro e o poder sempre prevalecem. 

Continua após a publicidade

Nunca essa visão de mundo ficou tão clara quanto na terceira temporada, encerrada ontem. Quase nada parecia acontecer: Kendall (Jeremy Strong), como sempre, caía de cara no chão depois de mais uma vez afrontar seu pai, Logan (Brian Cox), dono de um império de mídia e entretenimento. Seus irmãos, Shiv (Sarah Snook) e Roman (Kieran Culkin), disputavam a tapa a atenção do pai, um ser humano inescrutável, aparentemente invencível, a não ser, talvez, na disputa contra a idade, a saúde e a morte. 

Mas os capítulos finais - e, principalmente, o último episódio, Todos os Sinos Dizem - mostraram que, na verdade, os anteriores foram construindo lentamente um cenário explosivo. Não como muitos espectadores esperavam, com a morte de Kendall, que caiu em depressão depois de levar mais uma na cara de Logan e parecia ter se afogado na piscina da villa na Toscana onde estava para o casamento da mãe. Essa seria uma saída muito fácil, e não é assim que Succession opera. 

E, no entanto, quem poderia adivinhar que, no episódio derradeiro, Kendall ia admitir, entre lágrimas, que matou o garçom em um acidente de carro no casamento de Shiv, que uma aliança ia se formar entre os irmãos para enfrentar o pai, que resolveu vender a empresa sem falar com os filhos, e que os três iam ser traídos por Logan, pela mãe, Caroline (Harriet Walter, curiosamente a mãe de Rebecca em Ted Lasso), e por Tom (Matthew Macfadyen), o marido de Shiv? Se alguém imaginou isso, pode jogar na loteria que é vitória certa. 

Succession fala de disputa de poder, claro. E muita gente liga para ver os Roy se ferrando alternadamente semana a semana. A série é também uma sátira e tem momentos "cringe" para dar e vender. Mas seu coração dramático está, na verdade, na disfunção familiar, no abuso, no trauma, na paternidade e maternidade tóxicas. Logan sofreu quando era jovem e, como tantas vítimas, perpetua o abuso, traumatizando seus próprios filhos. Kendall já tinha percebido isso fazia muito tempo. Shiv caiu em si ao longo da terceira temporada. Roman talvez ainda estivesse um pouco em dúvida - ele precisou de muitos empurrões dos irmãos para embarcar na tentativa de golpe. 

Cada um ali lida com o trauma de forma distinta. Kendall se afunda nos vícios. Roman faz piada. Por isso faz sentido que, segundo o polêmico perfil de Jeremy Strong na revista The New Yorker, o ator tenha dito para Culkin temer que o espectador achasse estar vendo uma comédia. Porque Strong claramente está em uma tragédia. E Culkin, em uma comédia. Mas talvez agora Roman perceba também estar em uma tragédia.

A série parece seguir a máxima de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Tudo deve mudar para que tudo continue como está". A terceira temporada foi assim: nada parecia estar mudando e, no entanto, tudo estava. Para, no fim, tudo continuar igual. Logan ainda está um passo à frente de seus filhos. Como eles vão lidar com mais essa traição, agora conjunta, é o assunto da próxima temporada, assim como o futuro da relação Shiv e Tom, que pode estar no topo agora, mas, é bom lembrar, não é exatamente da família. É de esperar mais alguns banhos de sangue. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Atualizamos nossa política de cookies

Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.