Série 'Mrs America' expõe racismo nos EUA na década de 1970

Série 'Mrs America' expõe racismo nos EUA na década de 1970

História da primeira congressista negra eleita nos EUA revela os limites do feminismo da década de 1970

Sonia Rao  , The Washington Post

26 de abril de 2020 | 05h00

Em janeiro de 1927, poucos anos depois de fazer história como a primeira negra eleita ao Congresso, a deputada Shirley Chisholm, de Nova York, anunciou publicamente que pretendia concorrer à presidência. “Não sou a candidata da América negra, embora eu seja negra, e me orgulho disso; não sou a candidata do movimento das mulheres deste país, embora seja mulher, e igualmente me orgulho”, disse Shirley à multidão que foi ouvi-la no Brooklyn. “Sou a candidata do povo americano. E minha presença diante de vocês neste momento simboliza uma nova era da história americana.”

Essa era constitui o pano de fundo da minissérie da FX, Mrs America, que explora o movimento de liberação das mulheres dos anos 1970 justapondo figuras liberais que lutaram pela aprovação da Emenda para a Igualdade dos Direitos contra os esforços da oposição da ativista de direita, Phyllis Schlafy (Cate Blanchett). Entre os liberais retratados está Chisholm, que, como observa a criadora da série, Dahvi Waller, foi “uma pessoa totalmente independente” e, como mulher negra de destaque na política americana, expôs a necessidade do feminismo interseccional.

Chisholm, que passou parte da infância em Barbados, trabalhou na área de educação infantil antes de representar um distrito eleitoral de NY no Congresso, de 1969 a 1883. Em 1972, ela se tornou a primeira candidata negra de um importante partido – e a primeira mulher do Partido Democrata – a se candidatar à presidência dos EUA.

Ao escolher o elenco, Waller procurou alguém que fosse capaz de mostrar um “carisma enorme” e parou em Uzo Aduba (Orange Is the New Black), que compreendeu a responsabilidade de interpretar um “ícone” de tamanha estatura. O único legado de Chisholm que Aduba conhecia era o que sua mãe lhe ensinara, mas, quanto mais a atriz foi se aprofundando na história de sua personagem, mais foi estabelecendo paralelos entre as enormes batalhas que Chisholm teve de travar na época e as da política moderna.

Aduba relacionou imediatamente a impossibilidade da sua personagem de conseguir a indicação em 1972, como mostra o terceiro episódio, com a derrota da então indicada democrata Hillary Clinton nas eleições gerais de 2016. Waller começou a escrever Mrs America no início daquele ano, com a esperança de que o espetáculo fosse ao ar com a primeira mulher na presidência e mostrasse, com a história de Aduba, “até onde as mulheres chegaram”.

“Acabou sendo algo mais do que uma ironia dramática, considerando que (Hillary) perdeu”, continuou Aduba. “Se pensarmos no passado, esta mulher concorreu quase 50 anos antes ... Se é isso que parece hoje, não imagino como era a atmosfera de então, uma época em que uma mulher ainda precisava de um homem para usar o cartão de crédito. Isso nos faz compreender de que o estofo de Shirley Chisholm é feito.”

A série destaca que os obstáculos que Chisholm enfrentou como negra liberal são diferentes dos enfrentados pelas brancas do National Women’s Political Caucus, incluindo Bella Abzug (Margo Martindale), Betty Friedan (Tracey Ullman) e Gloria Steinem (Rose Byrne).

O terceiro episódio se desenrola durante a Convenção Nacional Democrata de 1972, em que as mulheres discordaram quanto a dividir o apoio entre Chisholm e o senador George McGovern, democrata de Dakota do Sul. Um dos momentos mais reveladores é quando ela fica sabendo que alguns membros do Caucus Negro do Congresso questionam se ela “será realmente a candidata mais adequada dos negros, ou apenas das mulheres”. Ela retruca: “Não pareço negra para vocês?”. E, depois de retirar uma carta insultuosa da bolsa que inclui uma ameaça de morte e uma ofensa racista, pergunta: “Será que isso me torna uma negra?”.

A cena destaca “o dualismo da vida”, afirma Aduba, por ser vista por grupos diferentes como “inteiramente do lado deles ou não suficientemente do lado deles”. O diálogo prossegue na série, como em uma cena do quarto episódio, que será exibido em streaming na quarta-feira. A ativista Flo Kennedy (Niecy Nash), uma das fundadoras do National Women’s Political Caucus, discorda de uma hóspede que pondera se a inclusão de lésbicas em suas iniciativas faria com que perdessem o apoio do movimento Black Power.

Mrs America simpatiza com o movimento liberal, mas não se furta de expor suas fraturas, particularmente nas questões de raça e de orientação sexual./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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