Patrik Syversen
Patrik Syversen

Série ‘Kieler Street’ mostra cidade refúgio para criminosos

Todos os moradores da cidade vivem sob identidades falsas, escondendo seus passados. "Tem um desfecho bem forte. Se eu estiver mentindo, você me liga de novo, para reclamar", diz ator ao 'Estado'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2020 | 05h00

Grande sucesso internacional da TV norueguesa, Kieler Street chegou ao canal fechado Film & Arts Brasil, que o exibe às terças-feiras. Patrik Syversen foi o criador conceitual e diretor. Ele também adquiriu projeção em todo o mundo com Manhunt, que foi refilmado em Hollywood. Thorbjorn Harr faz o protagonista Jonas, que chega a uma pequena cidade fugindo do passado. Ele ganhou uma nova identidade, uma família, parece a vida perfeita, numa comunidade feliz.

Kieler Street começa com um sobrevoo sobre a floresta, até chegar à cidade, a Jonas. O primeiro episódio é para apresentar o personagem, e a cidade. O cenário é real, próximo a Oslo, mas o que Jonas descobre é que não é o único nessa situação. Todos na cidade vivem sob identidades falsas, escondendo o passado. Logo, esses passados, no plural, começam a cruzar-se e a cobrar seu preço, tecendo uma teia que, ao longo de dez capítulos, mantém o espectador em suspense. 

Numa entrevista por telefone, de Oslo, o ator que faz o papel, Thorbjorn Harr, conversa com a reportagem do Estadão. Fala um pouco de sua carreira internacional – 22 de Julho, de Paul Greengrass –, mas o assunto é a série. Ele promete: “Tem um desfecho bem forte. Se eu estiver mentindo, você me liga de novo, para reclamar”. Comenta sobre o isolamento. Apesar da flexibilização em quase toda a Europa – a entrevista foi feita por telefone há cerca dez dias –, ele ainda cumpria a quarentena. Tem feito algumas lives, e conta que podem ser encontradas na internet. Acompanha a situação brasileira, e comenta como deve ser difícil enfrentar uma crise sanitária das dimensões da covid-19 no desgoverno que o mundo todo identifica no Brasil. Conta que, no retrospecto, consegue até fazer certo paralelismo com a situação atual, e a série.

“O universo da cidade é fechado como o mundo em que estamos vivendo. Mas é claro que essa é uma leitura que o espectador pode fazer nas atuais circunstâncias e não tem a ver com a intenção original.” Jonas, a cada capítulo se aprofunda no próprio passado. “São flash-backs que vão ajudando a desvendar quem é esse homem, e o que ele fez.” Cada episódio cruza as lembranças de Jonas com as dos demais personagens. Patrik (o diretor) foi muito inteligente filmando antes todas as cenas passadas. Elas ajudaram a construir o personagem no meu imaginário. Sabia exatamente quem ele era, e agora quem está tentando ser.”

Thorbjorn – pronuncia-se Tórbiórn – brinca com o próprio nome. “Thor é o deus nórdico do trovão. Está no nosso imaginário, ligado à natureza, filho de Odin, mas hoje em dia, na própria Noruega, ele tem a cara e o martelo de Chris (Hemsworth) como super-herói da Marvel.” Ele conta que Syversen escreveu a série com Jesper Sadness e Stig Frode Henriksen, e o segundo já havia sido seu parceiro em outra série, Hellfjord. “A ideia foi de Stig, essa pequena cidade onde as pessoas trocam de identidade e tentam levar vidas comuns.

Patrik acrescentou a dimensão existencial, filosófica, e creio que seja esse o diferencial da coisa toda. A série anterior dele, Hellfjord já era sobre pessoas que escondem vidas secretas. É algo muito escandinavo. Vivemos numa social-democracia, onde as regras são muito claras e as pessoas são estimuladas a levar vidas muito transparentes. Mas aí ocorrem coisas como a situação em Utoya, descrita em 22 de Julho (a série de ataques terroristas). A natureza humana é complexa, não cabe dentro de regras. Muitas pessoas se reprimem e desenvolvem uma fachada, que um dia se rompe.”

E ele vai mais longe. “Patrik (Syversen) sempre teve muito claro, e dizia isso para a gente, que Kieler Street não é um ‘whodunit’ tradicional. Nosso tema não é quem matou, ou vai matar, mas quem são as pessoas.” Outra forma de refletir sobre o mundo, e a atualidade. “No fundo, o que Patrik e Stig estão propondo é um novo olhar para a normalidade, para a alteridade. A normalidade não existe, quem é, ou o que é esse outro que nos limita e assusta?” 

Isso leva ao xis da questão – Thomas Hobbes. “Com certeza. Syversen e Stig basearam-se em conceitos do autor de Leviatã sobre a organização social e uma sociedade forte que limite o instinto selvagem dos homens”, acrescenta. 

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