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Série 'Dez por Cento' ganha nova temporada explorando os bastidores do mundo da arte

Série francesa da Netflix explora os chiliques de estrelas de cinema com tom cômico

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 03h00

Chiliques de estrelas do cinema são a matéria-prima das revistas de fofocas. Podem também render boa ficção, como sabem os que curtem a série francesa Dez por Cento (Dix pour Cent), criada por Fanny Herrero, que chega agora à 4.ª temporada na Netflix

São mais seis episódios (talvez os últimos) de uma série de grande sucesso e que tem por epicentro a agência parisiense de talentos ASK. Quem a segue desde o início sabe que parte do charme está no fato de os artistas interpretarem a si mesmos, com algum exagero e doses generosas de autoironia. 

Mas sabem também que o verdadeiro núcleo cômico/dramático é formado pelos próprios integrantes da agência de talentos. São eles o chefão e estrategista um tanto cínico Mathias (Thibault de Montalembert), a agressiva e hiperativa Andréa (Camille Cottin), o bom-moço Gabriel (Grégory Montel), o agente com vocação de ator Hervé (Nicolas Maury), a veterana Arlette (Liliane Rovère), o arrivista Hicham (Assaad Bouab), a novata Camille (Fanny Sidney), a esfuziante Noémie (Laure Calamy) e a recepcionista que deseja ser atriz Sophia (Stéfi Celma). 

A composição da agência reflete uma França liberal que se vê progressista, multicultural e multiétnica, com presenças do rapaz gay, da lésbica assumida, da candidata a atriz negra e do árabe bem-sucedido. Mesmo os idosos têm assento no escritório da ASK. 

Verdade que, no início desta 4.ª temporada, a agência não vai lá muito bem das pernas. Mathias deixou a equipe em companhia de Noémie, a dupla agora virou casal e está prestes a trabalhar para um concorrente. Endividada, a ASK precisa de um trunfo urgente para fazer caixa e salvar o pescoço. Enquanto isso, seus funcionários devem gerir vidas pessoais complicadas. Andréa tenta administrar a vida de casal com um bebê. Gabriel acha que a fama de bom caráter o prejudica em métier tão agressivo. Hervé e Sophia descobrem que têm mesmo vocação para o palco e a tela, enquanto Camille ganha experiência e pretende abrir uma empresa própria. 

Além do mais, o CEO da empresa resolveu contratar uma pessoa que todos detestam, a maquiavélica Elise Forman (Anne Marivin) e o ambiente se degrada quando ela se agrega ao grupo. Entre ela e Andréa, em particular, cria-se um estado de guerra declarada. Uma batalha de egos e línguas afiadas que dá gosto ver. 

Enquanto tudo vai esfarelando na ASK, eles precisam administrar os talentos sob contrato e resolver seus problemas. Por exemplo, Charlotte Gainsbourg aceitou fazer um papel no filme de um amigo de infância, sem saber que o roteiro é uma verdadeira bomba. Como desvencilhar-se do trabalho sem magoar o diretor?

Naquele que é talvez o melhor episódio desta temporada, a americana Sigourney Weaver desembarca em Paris para rodar um filme. O que a atrai é a possibilidade de contracenar com um jovem galã. Mas, como também não leu o roteiro, ignora que seu partner é um senhor de idade, Bernard Verley, mais preocupado com sua aposentadoria do que com aventuras românticas. 

Em outro episódio, o ator José Garcia não consegue mais decorar suas falas depois de se reencontrar com um amor de juventude, intenso e passageiro. Será Andréa, no auge de sua própria crise matrimonial, quem tentará gerenciar o caos amoroso do seu contratado. O episódio é inspirado numa história real acontecida com o ator Jean-Louis Trintignant. 

Será Jean Reno (de O Profissional) a última tábua de salvação para a agência à beira da concordata. Ele seria o protagonista ideal de um filme de sucesso produzido pela própria ASK. Isso se não estivesse aposentado e mais propenso ao ócio do que se envolver numa produção duvidosa. 

São muitos os ingredientes bem misturados que explicam o sucesso de Dez por Cento. Um deles é o tom agridoce que, com frequência, se resolve em comédia. Também são funcionais alguns temas recorrentes, que percorrem os capítulos como tramas à parte, como a relação de pai para filha (não reconhecida) entre Mathias e Camille. Ou a conturbada vida amorosa de Andréa, que engravida em uma inesperada noitada hétero e tenta criar o bebê com a companheira Collete. Ou o par problemático formado por Gabriel e Sophia, com seus reencontros e separações. 

Há, claro, o sempre encantador charme dos bastidores do mundo artístico, com seus protagonistas poderosos, mas também cheio de fraquezas, ansiedades e limitações. Os artistas são vistos por esse lado bastante humano e o tom cômico e sem maldade de tratamento deve ter contribuído para a adesão de boa parte do star system francês ao projeto. 

De qualquer forma, Dez por Cento mostra algumas verdades sobre o funcionamento do mundo do cinema. Há nele muita competição, rivalidade e golpes baixos. Também há muito amor e ódio e, por baixo do charme, se encontram muitas vezes motivações menos nobres. Mas alguma coisa talvez impalpável, como o amor pela arte do cinema, dá liga mesmo a essas contradições. Toda essa confusão, de plumas, paetês e interesses econômicos, termina com um filme sobre a tela. Esse amor ao cinema, mostrado de forma leve e humorada, não é a menor qualidade de Dez por Cento. Tomara que continue. 

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