Fábio Rocha/Globo/Divulgação
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'Segunda Chamada': Ensino público volta ao foco em nova temporada

Debora Bloch retorna como protagonista da série, que ganha novos episódios no Globoplay a partir do dia 10

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

O ano letivo da Escola Carolina Maria de Jesus, que mantém o ensino noturno para jovens e adultos, vai começar no dia 10, quando estreia a segunda temporada de Segunda Chamada, no Globoplay. Escrita por Carla Faour e Júlia Spadaccini, a série traz de volta a equipe de professores e seus novos alunos, todos em busca de ultrapassar obstáculos e realizar sonhos e desejos. 

Joana Jabace é a responsável pela direção, e no elenco estão Debora Bloch, que interpreta a professora de português Lúcia; Paulo Gorgulho é Jaci, o diretor da escola; Thalita Carauta como Eliete, professora de matemática; Hermila Guedes é Sônia, professora de geografia; e Silvio Guindane é o professor Marcos Sandré, que ensina artes. Também veremos nomes como Angelo Antonio, Flávio Bauraqui, Moacyr Franco, Rui Ricardo Dias, Jennifer Dias. 

Nesta segunda temporada, a tensão novamente estará por todos os lados e, logo de cara, a equipe do diretor Jaci terá de enfrentar desafios dentro e fora da sala de aula. Ocorre que o colégio público continua sofrendo com a falta de recursos, pior ainda, o número de alunos diminuiu muito, o que será uma das maiores preocupações, pois isso pode levar ao fechamento da escola. Além disso, a série vai tocar em temas urgentes na sociedade, como é o caso da intolerância com relação às diferenças entre as pessoas. 

Uma das protagonistas da série, Debora Bloch revela ter ficado emocionada quando foi convidada pela diretora Joana Jabace para interpretar a professora Lúcia e conheceu o projeto. Para ela, a educação é um assunto que a toca profundamente e que continua sendo um problema que aflige a sociedade como um todo e recebe pouca atenção de governos. “Senti uma grande responsabilidade em fazer essa professora, porque eu acho que essa é uma das profissões mais importantes em qualquer sociedade e eu queria que as professoras, os professores, se sentissem realmente representadas”, afirmou a atriz em entrevista, via Zoom, ao Estadão.

Debora vive essa professora que, em meio a seus problemas pessoais, não se limita a ver a escola em que trabalha ficar em situação tão precária, ela vai à luta, quer fazer com que as pessoas voltem a estudar. E isso não apenas para evitar o fechamento da instituição, mas porque acredita que esse será o caminho para mudanças na vida de cada um. “Tem duas questões, uma é o abandono do prédio da escola, que está com as instalações em condições precárias”, conta Debora.

E a outra questão, como pontua a atriz, é a que coloca em cena uma parcela da população que vive totalmente à margem da sociedade. “Como a escola corre o risco de fechar por falta de verba, de investimento, uma situação totalmente atual e real que a gente está vivendo no Brasil, Lúcia vai buscar as pessoas em situação de rua para tentar impedir que a escola feche.” 

Dessa forma, a série é realista e quer despertar o público para essa realidade cruel que é a das pessoas em condição de rua. A produção teve o cuidado de entrar nesse mundo ouvindo quem está ou esteve nessa situação. “Foi muito revelador pra mim, aprendi muito sobre essas pessoas, e a série traz esse olhar diferente. “Quando a gente viu na TV pessoas em situação de rua como protagonistas, como pessoas iguais a nós?”, questiona Debora. Para ela, é uma forma de humanizá-las com suas histórias e mostrar que precisam de atenção e de serem vistas.

Devota do educador Paulo Freire, cujo centenário é comemorado neste ano, Debora acredita que a única saída para um país se reconstruir é “a educação de qualidade para todos porque a ignorância dá no que a gente está vendo atualmente no Brasil”, afirma. Sem educação, continua a atriz, “é essa barbárie que a gente tá vivendo, é a vitória da ignorância”.

Esperança e superação, apesar dos problemas

Diretora da série Segunda Chamada, Joana Jabace afirma que escolheu gravá-la toda em locação, fora de estúdio, por acreditar que dessa forma traria mais verdade para as cenas. Começa pelo prédio escolhido, que é o de uma escola desativada. Mas a pandemia e os protocolos exigidos, que foram seguidos à risca com nenhum caso de covid registrado, fez com que a equipe tivesse que se adaptar ao momento, reduzindo cenas nas locações. “A gente começou a gravar essa temporada em janeiro de 2020, filmamos dois meses e, em 13 de março, tivemos de parar”, conta Joana que revela terem ficado sem dar prosseguimento à produção por um ano. Entre essas idas e vindas, ela conta que “teve cenas que começaram a ser gravadas em 2020 e só terminaram quase um ano e meio depois”. 

Superando essa fase mais restritiva e dando prosseguimento e finalização ao trabalho, a nova temporada de Segunda Chamada chega com temas importantes e que merecem um olhar sensível e crítico. Nesta sequência, Joana aponta três temas relevantes e que ganham destaque. Existe a questão da falta de recursos para o setor que ameaça a manutenção da escola, que é ainda mais problemático nesse tipo de educação pública, para jovens e adultos. “O ensino noturno é sempre o patinho feio”, constata Joana. E isso, diz, “se dá porque, se falta recurso no ensino público, de uma forma geral, no ensino noturno falta ainda mais”.

Depois houve a preocupação de lançar um olhar sobre a questão das pessoas em situação de rua, e a diretora explica que a ideia foi mostrar como elas se inserem dentro desse universo da escola. “São essas pessoas sendo retratadas, o que não acontece tanto e a gente procurou faze com a maior veracidade possível”. E há ainda a questão preocupante do feminicídio, da violência contra a mulher, “que teve um crescimento assustador durante a pandemia”.

Além desses pontos citados pela diretora, há também na série situações que propiciam momentos emocionantes na relação entre professor e aluno e vice-versa. O público terá a oportunidade de conferir a grata presença de Moacyr Franco no elenco logo no primeiro episódio. Cantor, compositor e humorista, ele mostra que seu lado ator não fica a dever nada a ninguém, pelo contrário. E Joana conta como foi conseguir que ele participasse do seriado. Primeiro ela viu como seria o personagem, o Gilsinho, que tem Alzheimer e precisaria ser interpretado por alguém com idade, se não perderia a força. E surgiu o nome de Moacyr, mas num primeiro momento a diretora ficou em dúvida, pois ele teria de fazer um teste para o papel. Ele topou de imediato, o que surpreendeu Joana, que pouco conhecia esse lado ator dele. Ela conta, em meio a risos, que Moacyr chegou na produtora O2, olhou para ela e falou: “Você é a diretora? Tem idade para ser minha neta”.

Em seguida, diretora e ator se colocaram para a cena escolhida para o teste. Para surpresa de Joana, Moacyr se mostrou totalmente aberto e disposto a cooperar. “Tudo que eu falava ele fazia, então percebi que ele tinha uma inteligência cênica e uma disponibilidade para ser dirigido”, conta Joana, admirada com a abertura do ator para seguir suas indicações. “Quando acabou o teste, a equipe toda estava chorando, o câmera, o fotógrafo, o ator que estava contracenando com ele, estava todo mundo aos prantos. Daí eu não sabia nem o que fazer, só abracei ele, isso foi antes da pandemia, e agradeci, pois foi uma honra.” Ela ressalta ainda que o que ele fez ali foi maravilhoso e ele se mostrou muito generoso e aberto ao novo. “Eu acho o trabalho dele na série muito comovente”, afirma.

Além de momentos como esse, a série também conta com uma trilha sonora que se destaca e complementa a produção. “Por conta dessa questão da brasilidade, eu fiz questão que a gente só tivesse músicas brasileiras e que tivessem a ver ou com a periferia de São Paulo ou com um Brasil raiz.” Nesta temporada, a música que abre a série, conta Joana, é Nada Será como Antes, de Milton Nascimento, em uma regravação em hip-hop com Ney Matogrosso, a Linn da Quebrada e o Edi Rock.

Joana destaca que, apesar de ser uma série que tem um lado muito real ao tratar da educação de jovens e adultos, que precisam, tanto quanto os professores, se desdobrar para conseguir realizar o objetivo de aprender e ensinar, ela também procura passar um lado positivo. “A série Segunda Chamada, apesar de retratar a dureza da situação social do Brasil, sempre faz uma ponte com a esperança, com a superação”, reflete a diretora. Para ela, a série tem essa forma de mostrar que o brasileiro possui a força da superação, da capacidade de seguir adiante e enfrentar as dificuldades. 

 

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