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'Ratched' é uma dose forte demais para Ryan Murphy, com alguns efeitos colaterais às vezes letárgico

Na série da Netflix, por trás do olhar frio ameaçador, a história da enfermeira Mildred Ratched é apresentada como uma espécie de despertar feminista

Hank Stuever, The Washington Post

21 de setembro de 2020 | 13h36


Ratched, da Netflix, não é uma produção no estilo Ryan Murphy, mas que certamente ele desejava fazer.

Desde a cena sangrenta de abertura, em que um homem alterado (Finn Wittrock) entra numa casa paroquial e mata padres católicos e seu monsenhor (que, francamente, parece um tiro ao alvo neste estágio da carreira de Murphy) até a descrição de um tratamento experimental perturbador numa clínica psiquiátrica, Ratched às vezes parece a mais plena expressão dos mais baixos valores dos empresários da televisão, combinados com uma mostra comemorativa da sua forma de arte predominante: uma área proposital que muda os roteiros baseados em antigas referências.

Ratched é esplêndido e ostentoso o tempo todo: horrível e às vezes poético; glamouroso a um ponto quase risível: eletrizantes durante um tempo e depois desconcertantemente tedioso durante vários trechos, para depois ficar interessante de novo. A série é um ótimo e imperfeito exemplo de quem é Murphy e do que ele faz. Você apenas se sente atraído por isto.

Por trás do olhar frio ameaçador, a história da enfermeira Mildred Ratched (do romance de Ken Kesey intitulado One Flew Over the Cuckoo’s Nest e a clássica adaptação para o cinema, O Estranho no Ninho, interpretada com uma calma e uma determinação serena por Sarah Paulson) é apresentada como uma espécie de despertar feminista. A enfermeira Ratched é alguém tentando vencer seus próprios demônios e, na sua cabeça demente, ela quer tornar o mundo mais gentil e mais justo, por meio de cuidados, os mais dolorosos e manipuladores.

Talvez leve algum tempo para a série encontrar seu caminho - e com frequência é o espectador que vai perceber se está perdendo alguma coisa profunda. Como a história anterior, é ambientada em 1947, e não é necessário que o espectador saiba muito sobre Um Estranho no Ninho, ou mesmo sobre a atuação que mereceu um Oscar de Louise Fletcher como uma Ratched mais poderosa na versão de 1975 para o cinema, além do fato de que Murphy (que trabalha aqui com Ian Brennan e o criador Evan Romansky) estar entre as nossas figuras mais inteligentes e mais reconhecidas de cultura popular.


 


Naturalmente, muitos de nós vamos desejar saber o que tornou Ratched essa pessoa vingativa, maluca pelo controle do manicômio. O público que conheceu a história antes vem perguntando isto há décadas.

As respostas oferecidas em Ratched podem satisfazer ou não essa curiosidade, mas os fãs de trabalhos anteriores, e provocativos, de Murphy, não se importam. Ratched combina o glamour exuberantemente sinistro das suas séries da FX, como Beud: Bette and Joan (em que mulheres poderosas descobrem que o respeito mútuo é subproduto de sua implacável rivalidade) com aspectos ligeiramente menos horripilantes de American Horror Story: Asylum (sobre as condições dos tratamentos de doentes mentais antes da revisão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, apresentando freiras católicas com um controle pervertido, no estilo de Ratched, dos seus pacientes).

Seis meses depois do assassinato dos padres, a Mildred de Paulson, sempre vestida com perfeição, chega a um asilo situado à beira-mar no Norte da Califórnia - o Lucia State Hospital, onde o suposto assassino, Edmund Tolleson (Witrock) está alojado. Embora o diretor do asilo, Richard Hanover (Jon Jon Briones) diga a ela que não há vaga para enfermeiras, Ratched concebe uma trama para ingressar na equipe para desalento da enfermeira Betsy Bucket, interpretada por Judy Davis.

A enfermeira Bucket é sua melhor razão para dar a Ratched uma chance, com um desempenho esplendidamente ácido e a muito necessária redução da tensão cômica de Davis - um exemplo de crueldade e capricho institucional que ajudará a criar uma enfermeira Ratched experiente.  No final da série, a adoração da diva de Murphy muda para Sharon Stone, que interpreta a mãe rica de um dos antigos pacientes do Dr. Hanover.



O governador (Vincent D’Onofrio) está ansioso para ver Tolleson executado e assim impulsionar sua imagem de político duro com o crime durante uma campanha de reeleição. A enfermeira Ratched chega a este lugar porque tem um interesse permanente na sorte de Tolleson. A secretaria de imprensa do governador, Gwendolyn Briggs (Cynthia Nixon) fica imediatamente interessada em Mildred.

O ambiente do asilo, naturalmente, é irresistível como uma fonte de terror, à medida que Hanover procura aperfeiçoar os métodos para lobotomizar pacientes incuráveis e prescrever outros tratamentos torturadores destinados a “curar” pessoas com diagnósticos questionáveis, como homossexualidade ou ansiedade de adolescentes. 

Essa péssima maneira de curar parece redundante num drama de Murphy uma vez que com frequência ele e seus colaboradores costumam demonizar uma série de arquétipos de figuras autoritárias - médicos, enfermeiras, freiras, pregadores, líderes eleitos, chefões dos estúdios de Hollywood, etc. É divertido, mas se torna uma diatribe fácil contra qualquer pessoa que ocupe um cargo.

É por isto que a Enfermeira Ratched tem potencial como um estudo de personalidade - como ela escapa da punição ou simplesmente assumindo o comando. One Flew Over the Cuckoo’s Nest deixou suas motivações vagas, com o espectador se sentindo desamparado como os pacientes drogados. Ratched também parece deixar os motivos dela nebulosos, como se a narrativa tivesse recebido um sedativo calmante.

A atenção obcecada da série ao estilo e à atmosfera começa a parecer alucinatória e indolente. Do mesmo modo que outros projetos de Murphy na Netflix até agora, (The Politician, Hollywood), e mais de uma temporada da sua American Horror Story na FX, a dose é forte, mas os sintomas persistem. Como espectador, você não tem a mínima ideia do porquê está aqui ou como chegou até aqui. A Enfermeira Murphy quer que as coisas sejam assim.

Tradução de Terezinha Martino 

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