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Por que odeiam a cultura?

Ela incomoda, expõe, abre ferida, revela. Tem o poder de mudar corações e mentes

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 03h00

Em 2018, James Comey, o ex-diretor do FBI demitido por Trump, não deixou barato e botou a mão no teclado. O país corria o risco de caos institucional. Ele sabia: um lunático paranoico ocupava a Casa Branca. A população precisava ser alertada. 

Publicou o livro A Higher Loyalty, que logo entrou na lista dos mais vendidos. Sob pretexto de escrever uma autoajuda sobre liderança, uma de suas especialidades, ele compartilhou os bastidores do Salão Oval, que deram na ascensão e queda no Bureau, em que teve em mãos a possibilidade de mudar o rumo da apertada eleição presidencial de 2016.

Comey era procurador-geral na administração de George W. Bush. Ficou famoso por processar a Máfia e Martha Stewart. Foi nomeado diretor por Obama, que queria um aval republicano no seu governo. 

Caíram em suas mãos duas investigações da pesada: as relações de Trump com a Rússia, e a displicência de Hillary em usar e-mails privados para falar de negócios do Estado. Ambos poderiam sofrer chantagem do maior inimigo americano, e perder votos. 

O FBI se perguntava por que hackers e Putin faziam campanha para Trump. Ele devia dinheiro aos oligarcas Oleg Deripaska e Dmytro Firtash e foi filmado num golden shower com prostitutas no Ritz-Carlton Hotel Moscou, em 2013. 

A minissérie The Comey Rule, de quatro episódios (Paramount+), mostra os dilemas que ele viveu durante a eleição e, principalmente, nos primeiros dias de Trump, que exigia “lealdade total”, numa clara interferência da Casa Branca no FBI. Mostra que Trump encerrou as sanções contra a Rússia, em retaliação contra a invasão da Crimeia, assim que tomou posse.

Jeff Daniels protagoniza a série. Brendan Gleeson faz Trump com maestria. Ironicamente, ele foi Churchill no filme Into the Storm.

O timing da indústria do audiovisual é incrível. Temos a chance de fazer comparações entre os Estados Unidos e o país de Moro, Dallagnol e Bolsonaro. Passamos a entender por que a cultura incomoda tanto esse governo: ela expõe, abre ferida, revela. Tem o poder de mudar corações e mentes.

O presunto está quente, mas os podres do governo Trump vêm à luz. Como os do governo Obama. A série de cinco episódios Turning Point: 9/11 e A Guerra Contra o Terror (Netflix) estava no ar, quando houve a retomada do Taleban. Os produtores foram ágeis. O último episódio conseguiu mostrar a desastrada retirada americana, depois de duas décadas de guerra. Bush e Obama não foram poupados.

Tal agilidade foi sentida na crise financeira de 2008. Muitos filmes saíram: Too Big to Fail, sobre o investidor pilantra Warren Buffet, The Big Short, sobre investidores que apostaram no crash e faturaram, Inside Job, documentário ganhador do Oscar. 

Mas nada mais vibrante e representativo sobre as imundícies de Wall Street do que a série Billions, que trata da promiscuidade e tramoia do mercado financeiro com o Departamento de Justiça.

Em Billions, o procurador Chuck (Paul Giamatti) investiga o investidor bilionário Bobby Axel (Damian Lewis), que emprega Wendy (Maggie Siff), esposa do primeiro, que só se satisfaz em sessões de masoquismo. Taylor (Asia Dillon), que se assume binária, é a nova investidora para competir com Axel.

Estamos diante da jogatina de operações de fundos de investimento. Dilemas morais? Zero. A missão é: milionários se tornarem bi. E se a crise de 2008 abalou as finanças do mercado, Axel explica na quinta temporada, que estreou agora: “Os banqueiros foram os que mais lucraram quando os bancos faliram”.

A série parece inspirada em Tom & Jerry: Chuck caça Bobby que caça Taylor que caça Chuck. Mas o que se destaca é a quantidade de frases geniais que os autores inventam, sem se preocupar com o repertório da audiência.

Por que é genial? Seus autores fogem do padrão da TV. Andrew Sorkin é colunista do mercado financeiro do New York Times. David Levian é conhecido por seus livros policiais. 

Diversos sites se especializaram em destacar as citações, como: “Não existe gente inocente, não em Wall Street” (Chuck); “Eu gosto de pesadelos. Quando acordo, eles me fazem reavaliar minha realidade” (Taylor); “Sendo um bilionário, não consigo falar sobre isso com ninguém, porque ninguém dá bola. Mas ser um bilionário, quando você entra numa sala, é como ser uma mulher com um conjunto perfeito de seios” (Axel).

Chuck resume o espírito da falcatrua: “Você sabe o que é preciso para encontrar uma trufa? Um porco, um cachorro, seja qual for o animal, cuidadosamente treinado que passa a vida inteira vagando no escuro, farejando o mais leve aroma. E só então começa a escavação. E o que você acha que eles estão cavando? Merda. É sobre isso que não falamos muito, certo? As coisas que mais valorizamos, as coisas que pagamos mais caro para ingerir são cultivadas em merda”.

Imagine agora uma série sobre Faria Limers, PGR, STF, Congresso, Fiesp, empreiteiras... Livros temos. Como diria Chuck: “A melhor maneira de se relacionar com alguém não é fazer um favor, é pedir um”.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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