Hotel das Cataratas
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Por que nos importamos tanto com os vestidos de Diana?

A maior tendência que ela imprimiu foi a de uma figura pública que usava suas roupas como um cata-vento pessoal, não para os seus compromissos de Estado, mas para a comunicação direta com o mundo exterior

Vanessa Friedman, The New York Times

20 de novembro de 2020 | 11h00

E, mais uma vez, voltamos à princesa Diana. Como Jacqueline Kennedy Onassis, ela se tornou uma espécie de Pedra de Rosetta cultural, para a qual voltamos continuamente, tentando encontrar respostas para as nossas próprias escolhas em seu límpido olhar azul e seu guarda-roupa cacofônico, destinado a chamar a atenção.



Desta vez, este novo exame é uma cortesia da quarta temporada de The Crown, isto é, a temporada de Diana. O exame vem sendo construído desde o 20º aniversário da  morte da princesa, em 2017, quando Virgil Abloh declarou Diana a sua musa do Off-White e o Palácio de Kensington realizou uma exposição dedicada aos seus looks. E embora tenha recebido um impulso no ano passado com um novo musical (com figurino de  William Ivey Long e uma canção que a caracteriza, intitulada The Dress, ou O Vestido) e que supostamente chegaria à Broadway, a agitação atingiu um novo apogeu neste final de semana com o lançamento da nova temporada na Netflix.

Aquela em que a princesa, interpretada por Emma Corrin, chama a atenção dos Windsor, faz a sua "estreia" pública, casa e desesperada, começa a sofrer de um distúrbio alimentar e, mesmo assim, se torna um Ícone da Moda.

Aquela que inspirou a Vogue britânica a colocar Emma na capa de sua edição de outubro com um vestido de baile de tafetá azul safira de Oscar de la Renta com a manchete “Queen of Hearts”, o que se traduz como "Rainha dos Corações". Aquela que é tema de um espetáculo virtual em 3D no Brooklyn Museum, The Queen and the Crown, com a exibição de peças do departamento de figurinos da série, que inclui um vestido de duas peças com desenhos florais feito para uma viagem da princesa à Austrália e o remake daquele impressionante vestido de noiva.



Aquela que gerou discussões no Twitter comparando o vestido real com o da ficção, e entusiasmos com os melhores momentos fashion de Diane em inúmeras revistas.

Por que tudo isso importa? Não é realmente sobre os vestidos, pessoal. É como eles chegam até nós agora.

Afinal, se há uma coisa que The Crown faz com a fidelidade aos vestidos da época é mostrar como alguns destes momentos fashion eram, na verdade, embaraçosos. (Amy Roberts, a estilista, disse que ela não os recriou exatamente, mas tentou captar a sua essência, assim como Peter Morgan, o criador do programa, fala de sua lealdade à verdade histórica em matéria de precisão.) As golas de babados e as de marinheiro e os laçarotes exagerados no pescoço. As blusas de mangas bufantes ultrapassadas à la Laura Ashley e as saias midi. As malhas de lã que eram novidade. Os macacões e as roupas de algodão fino.

A mistura do romance sentimental e a elegante displicência oscilando entre o pastoral e o kitsch antes do desabrochar em uma pura fantasias à la Disney: tafetá, veludo, azuis iridescentes - da patinha displicente em sua transformação em um cisne envolvido em bolinhas de seda.

Neste momento, compreensivelmente, não podemos ver toda a exposição desta moda vicária, considerando nossa realidade retratada em nossos trajes de lazer. As lentes sentimentais, embaçadas, da nostalgia podem tornar até o muito feio delicioso, de uma maneira irônica autoconsciente. A Rowing Blazers já reeditou o famoso suéter com a ovelha negra de Diana - aquele que ela usou em partidas de polo do marido - que provocou tanto espanto pois mesmo por US$295 só está disponível por encomenda e não chegará, na melhor das hipótese, até janeiro. E esta é apenas a Diana, episódio 1.



O famoso vestido preto franzido, “o vestido da vingança”, que a princesa usou em um evento de gala em 1994, na mesma noite em que o marido confessou a sua infidelidade à BBC, os vestidos de grife mais reveladores dos anos do divórcio não estão ainda aí, talvez na temporada 5. Como o criado por John Galliano para Dior mais colante usado no Met gala em 1996 e o Versace justo como uma coluna usado em uma viagem à Austrália no mesmo ano. Idem os trajes abotoados que se tornaram o uniforme do seu trabalho humanitário. E a tragédia que a congelou no tempo.

Há mais um projeto sobre Diana, o longa Spencer, estrelado por Kristin Stewsart, aguardando nos bastidores.

Apesar de tudo isto, Alexandra Shulman, a editora da Vogue britânica durante os dias do esplendor de Diana e colunista na contramão, do The Daily Mail, escreveu em um artigo recente, “A princesa Diana era deslumbrante, mas é absurdo afirmar que ela era uma inspiração em termos de moda”.

Parece um sacrilégio. Mas ela está certa. Diana não mudou o curso de estilistas ou fãs porque ela usava suas roupas de uma maneira particularmente criativa, ou porque gravitava para o lado outré e imaginativo, que ela então usava com tal confiança que deixava um rastro de ideias pelo caminho. (Na realidade, ela foi apresentada ao mundo da moda por Anna Harvey, a então vice-diretora da Vogue britânica, e a estilista de Diana, que não aparece no elenco de The Crown.) Diana não era uma dessas figuras públicas dotadas de um estilo pessoal identificável e coerente, embora claramente gostasse de moda.

Ao contrário, a maior tendência que ela imprimiu - maior do que a moda dos anéis de noivado com a safiras ovais cercada de diamantes, ou suas grandes ombreiras - foi a de uma estrela de programa de reality de moda: uma figura pública que usava suas roupas como um cata-vento pessoal, não para os seus compromissos de Estado, mas para a comunicação direta com o mundo exterior, mesmo quando estava simplesmente parada sorrindo. Ela também "vestia" suas emoções. E como todos nós podíamos perceber isso, nós nos identificávamos.



Como Joe DiPietro, que escreveu o libreto para o musical Diana (a ser lançado no começo do próximo ano pela Netflix, é claro, porque no teatro está em compasso de espera durante a pandemia), falou a Elizabeth Holmes em seu novo livro HRH: So Many Thoughts on Royal Style [Sua Alteza Real: Muitas considerações sobre o estilo real, em tradução livre], que narra as histórias dos vestidos e as estratégias das mulheres de Windsor desde a rainha até Kate Middleton e Meghan Markle: “Ela foi realmente a primeira grande influenciadora de mídia social, manipuladora”.

Isto é parte do que a tornou hipnotizante, e é o que a faz parecer tão relevante. Evidentemente é por isso que cada traje de Melania Trump é analisado como se dissesse algo sobre o seu casamento, porque a evolução das roupas de Kim Kardashian desde que ela se tornou uma West é sempre cuidadosamente estudada. Diana preparou o palco e agora todos nós estamos vivendo nele.

Ela não fez avançar a arte do vestido; ela a manteve girando onde ele se encontrava. Mas ao fazer isto, como disse DiPietro, ela contribuiu para tornar possível a arte do Instagram.


 TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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