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'Pequenos Incêndios por Toda Parte' trata de assuntos, como temática racial, que não estão no livro

Baseada no romance homônimo de Celeste Ng, lançado originalmente em 2017, a produção tornou-se um enorme sucesso

Diorman Werneck ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 05h03

Pouco antes de as manifestações pelo fim do racismo e da brutalidade policial explodirem pelo mundo, estreava Little Fires Everywhere (Pequenos Incêndios por Toda Parte), série do Hulu, plataforma de serviço de streaming pertencente à Disney – no Brasil, está disponível na Amazon Prime. Baseada no romance homônimo de Celeste Ng, lançado originalmente em 2017, a produção tornou-se um enorme sucesso. Como toda adaptação, as comparações são itens obrigatórios, mas a linha guia presente nas duas obras é ainda mais importante e já dá o tom desde o começo.

Protagonizada e produzida por Reese Witherspoon e Kerry Washington, a história é ambientada na década de 1990, na cidade de Shaker Heights e gira em torno do encontro de duas famílias completamente diferentes, lideradas por Elena Richardson (Witherspoon) e Mia Warren (Washington).

Logo no primeiro episódio, as diferenças entre as duas protagonistas são escancaradas e servem de fio condutor da trama. De um lado, uma mulher controladora que, ainda nova, já tinha planejado toda sua vida (a ponto de medir até a quantidade de vinho que toma) e, do outro, uma mulher orgulhosa, com um passado misterioso e sem amarras.

Em uma das cenas mais impactantes, Elena e sua família observam sua mansão arder em chamas, ao mesmo tempo em que constatam o sumiço da caçula, Izze (Megan Slott), sinalizando que ela pode ser a responsável pelos “pequenos incêndios por toda parte”, constatados pelos bombeiros.

Nesse momento, a história recua ao passado, retornando quatro meses no tempo e permitindo que espectador conheça melhor as protagonistas. De um lado, Elena, mãe rica e branca com quatro filhos que sempre tiveram acesso ao conforto; do outro, Mia, também mãe, artista, negra e pobre, que se muda constantemente, sem criar raízes por onde passa.

A chegada de mãe e filha a Shaker Height vai marcar definitivamente a rotina da família Richardson. Trata-se de um subúrbio calmo, auto centrado em suas próprias regras e planejamento, da cidade de Cleveland, onde as casas têm rígido padrão de pintura e o lixo é escondido no fundo das casas, para não ser visto. Além disso, a altura da grama nos jardins é controlada e as escolas são consideradas modelos a serem seguidos, muda para sempre a vida da família Richardson.

A colisão de duas trajetórias tão distintas permite que a série ganhe relevância ao tratar das temáticas racial, sexual e de gênero com mais densidade que as observadas no livro.

A história aborda os desafios da maternidade em uma época em que a emancipação feminina chegou ao ponto máximo, revelando a crua realidade de mães que precisam sobreviver à sua maneira, enquanto tomam consciência do peso de suas decisões na criação dos filhos.

Nesse momento, a diferença principal entre livro e série já se impõe – Celeste Ng criou Mia e Pearl como personagens brancas, principalmente pelo seu lugar de fala. A própria autora, em entrevista ao jornal New York Times, revelou sua satisfação pelo fato de a série apresentar a temática racial de uma forma que ela mesma não abordou. 

Na série, o contraste não se dá apenas por questões sociais: a produção ganha uma camada mais densa e complexa nas diferenças entre as protagonistas. A sexualidade de Izzy (Megan Stott), tanto no livro como na série, é apresentada como a da filha rebelde que faz tudo para desafiar o que a mãe fala. Na série, a filha caçula tem sua sexualidade colocada em foco quando sofre bullying na escola por ter supostamente se insinuado para a melhor amiga. 

Outra diferença é o motivo que explica a desavença entre mãe e filha. A série evidencia que Elena não planejava a gravidez da filha rebelde, pois tinha acabado de voltar a trabalhar depois do nascimento de Moody, seu terceiro filho. No livro, o embate entre as duas se dá principalmente pelas diferenças de personalidade: entre a jovem mais aberta e a mãe muito controladora, ainda traumatizada pela fragilidade de Izzy, que nasceu prematura. 

Tanto a série como o livro informam que Mia estudou em uma famosa escola de artes em Nova York. Suas habilidades fotográfica e artística chamaram a atenção de Pauline Carlson (Anika Noni Rose), que logo se tornou sua mentora. Nesse ponto, surge uma distinção entre as obras: na série, além de mentora, Pauline logo desperta sentimentos por sua protegida e elas se tornam amantes. Na obra literária, aluna e professora se tornam boas amigas, construindo uma ligação apenas de aprendiz e mestre.

Na obra, Izzy se revolta com a forma como sua família tratou Mia e Pearl e, antes de fugir, inicia o incêndio que destruiu a casa, com pequenos fogaréus na cama dos irmãos. Na série, quando ela começa a despejar gasolina na própria cama, é impedida pelos irmãos. Mas, quando um novo acesso de raiva da mãe provoca a fuga da irmã caçula, Moody e Trip se revoltam e terminam o que Izzy havia começado.

O que leva a mais uma diferença na comparação entre livro e série  – no texto original, Izzy é considerada a culpada enquanto na série Elena se dá conta que foi a causadora de todos as dores e sofrimento dos filhos e se responsabiliza pelo incêndio. 

No livro, antes de sair da casa alugada em Shaker Heights, Mia deixa um envelope com um conjunto de fotos para cada membro da família Richardson, representando a forma como ela os enxerga, e também uma mensagem cifrada, que só a pessoa a quem foi direcionada consegue entender. E, na série, Mia cria uma grande maquete da cidade com uma mensagem direcionada principalmente para Elena.

 

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