Erik Tanner/The New York Times
Erik Tanner/The New York Times

Oscar Isaac reaprendeu a amar blockbusters ao fazer 'Cavaleiro da Lua'

Ator conta que quis criar o personagem-título da série da Disney+ de uma maneira que parecia certa para ele, mesmo que sua abordagem nem sempre se encaixasse nos moldes da Marvel

Dave Itzkoff, The New York Times

04 de maio de 2022 | 10h02

A essa altura de sua história, a Marvel não parece estar disposta mexer em sua fórmula comprovada de super-heróis. E, no entanto, Cavaleiro da Lua (Moon Knight), a atual série Disney + do estúdio, teve alguns lances inesperados.

Seu episódio de estreia apresentou ao público Steven Grant, um desajeitado balconista de loja de presentes de museu com um sotaque britânico, interpretado por Oscar Isaac. Isaac também interpreta Marc Spector, um mercenário americano grisalho que compartilha o mesmo corpo com Grant – e que também é o Cavaleiro da Lua, o avatar de combate ao crime de uma antiga divindade egípcia.

Como a história de Cavaleiro da Lua revelou, Spector tem transtorno dissociativo de identidade, ou TID, desde a infância, e Grant é uma identidade alternativa que ele criou para se proteger de traumas e abusos.

Cavaleiro da Lua também foi um risco para Isaac, embora seu currículo já inclua algumas das maiores franquias de fantasia que Hollywood produziu. Embora ele tenha feito toda uma carreira em projetos de magnitude menores – Hamlet e Romeu e Julieta para o Teatro Público e dramas íntimos como The Card Counter e Scenes From a Marriage – ele também foi destaque em séries de filmes como Star Wars e X-Men. Esses sucessos de bilheteria deram mais reconhecimento a Isaac, mas o trabalho exaustivo que eles exigem o fez hesitar quando a Marvel o procurou para Cavaleiro da Lua.

Como Isaac, de 43 anos, explicou em uma entrevista em vídeo na semana passada, o prazer de Cavaleiro da Lua foi explorar o personagem-título de uma maneira que parecia certa para ele, mesmo que sua abordagem nem sempre se encaixasse nos moldes da Marvel.

Se o Cavaleiro da Lua terá seu próprio filme ou vai entrar para a equipe dos Vingadores “não importa tanto”, diz Isaac. “É um novo personagem ao qual estamos dando uma chance”, disse ele. “A natureza da história é essa investigação, esse mistério de revelação lenta.”

Antes do final de Cavaleiro da Lua, Isaac falou sobre a produção da série, da qual ele também é produtor executivo. Discutiu as oscilações inesperadas de sua carreira e falou do que significa trabalhar para a Disney enquanto a empresa enfrenta uma tempestade política. Estes são trechos editados dessa conversa.

Você recebe dois salários por interpretar dois papéis em 'Cavaleiro da Lua'?

Eu deveria, cara. É engraçado porque era por isso que eu estava apreensivo não queria que parecesse essa coisa masturbatória. Quando comecei, eu estava muito convencido de que não queria fazer o truque de alternar entre médico e monstro. Eu realmente segreguei Marc e Steven, até perguntei se poderíamos filmá-los em dias diferentes. 

Alguns atores dizem que aceitam imediatamente quando a Marvel liga, mas você não. Por que não?

Eu não estava, naquele momento, muito ansioso para entrar em uma grande produção. Eu queria me apaixonar por atuar novamente. Eu estava um pouco cansado. Eu tenho dois filhos pequenos e estava pronto para dar um passo atrás, fazer filmes menores. Quando isso aconteceu, meu sentimento imediato foi, ugh, este é um mau momento.

Como fã de quadrinhos, você sentiu que estava recebendo um personagem da lista B ou C impingido a você?

Sim, eles estão praticamente no limite. Embora as pessoas também tenham dito isso para o Homem de Ferro – isso mudou o cinema para sempre e que performance incrível foi. Parte da atração era sua obscuridade, para ser honesto.

Quais foram suas inspirações para interpretar Steven Grant?

É uma homenagem às coisas que eu amo, como Peter Sellers e os britânicos The Office e Stath Lets Flats e Karl Pilkington. Eu também estava assistindo Love on the Spectrum – pessoas autistas vão a encontros, estão sentindo as mesmas coisas que todos nós sentiríamos, mas não desenvolveram essas máscaras para esconder tudo. Está tudo a céu aberto. Havia algo que eu achava tão comovente nisso. Comecei a fazer o personagem em casa, e meus filhos me pediam para fazer ele o tempo todo.

Você falou de se sentir esgotado em projetos de grande orçamento. Quando você começou a sentir isso?

Do meio ao fim de Star Wars. O compromisso de tempo era tão longo e as janelas de disponibilidade eram muito específicas. Comecei a ficar faminto por esses estudos de personagens e por trabalhar com esses grandes diretores.

Como ex-aluno da Juilliard e veterano intérprete de Shakespeare, você não achou que esses tipos de filmes estavam de alguma forma abaixo do seu potencial?

Não, não me senti assim. Eu queria ganhar a vida como ator, não tinha o luxo da ética, o luxo da integridade. [Risos.] Eu senti que poderia trazer meu ponto de vista para o que quer que viesse no meu caminho. No início, eu pensava: “Se eu tivesse uma chance, eu poderia provar …” Depois de um tempo, ficou claro que a única coisa que você pode controlar em seu ofício é a capacidade de permanecer curioso, e exercitar essa curiosidade da maneira que você achar bom.

Estrelar em 'Inside Llewyn Davis' pareceu uma dessas oportunidades para você?

Isso mudou completamente a vida em todos os sentidos. Foi meu primeiro papel principal. Era um filme dos irmãos Coen. Ainda não consigo acreditar que isso aconteceu. Foi por acaso do momento que fiz o que pretendia fazer e os Coen arriscaram em alguém relativamente desconhecido.

Foi estranho que isso levou a ainda mais papéis de franquias de fantasias? Tipo, é isso que eles pensam de mim?

Eu tenho estrada suficiente para saber que não há “eles” – são apenas pessoas tentando fazer filmes, sejam eles em grande ou pequena escala. J.J. [Abrams] queria me conhecer [para O Despertar da Força] enquanto eu ainda estava filmando A Most Violent Year. Eu me lembro porque Albert Brooks [seu coastro em A Most Violent Year] me deixou uma mensagem muito engraçada fingindo ser J.J. antes de ir conhecer J.J. Você acredita e se jogada. E com certeza, se eu não tivesse feito isso, talvez estivesse disponível para alguma outra coisa que teria surgido no meu caminho. Mas ninguém nunca sabe.

Você teve uma chance anterior de adaptações de quadrinhos com 'X-Men: Apocalypse'. Esse é um papel que você rejeita?

Não, eu não rejeito. Eu sei exatamente o que eu queria fazer quando fui até lá e porque. Havia esses atores incríveis envolvidos com quem eu realmente queria trabalhar, [James] McAvoy e [Michael] Fassbender e Jennifer Lawrence. Eu colecionava X-Men enquanto crescia, e adorava Apocalypse. E então você chega lá e fica tipo, meu Deus, eu tenho todas essas próteses. Eu tenho um terno, não consigo me mexer, não consigo ver ninguém. Todos esses atores com quem eu queria trabalhar – eu nem consigo ver quem eles são. Ainda penso naquele tempo com carinho. Eu gostaria que tivesse sido um filme melhor e que eles cuidassem um pouco melhor do personagem, mas esses são os riscos.

Você consideraria seu tempo fazendo Dune com Denis Villeneuve como uma de suas experiências típicas de filmes de franquia?

Denis foi a razão para eu fazer o filme. Quando ele veio até mim, ainda não tinha um papel em mente. Ele disse: “Estou fazendo Dune, você está interessado? Que papel é interessante para você?” Decidimos que era Leto. Foi um desafio ser um som muito específico em meio a uma grande sinfonia.

'Star Wars' foi sua referência mais próxima quando a Marvel o procurou para 'Cavaleiro da Lua'? Foi isso que o deixou cauteloso?

São filmes tão grandes, enormes. Por mais divertidos que possam ser, você está gastando muita energia e depois sai e fica exausto. Isso era parte do medo. Eu não previ quanta flexibilidade criativa haveria – quanta energia isso me devolveu.

Durante grande parte da série, Marc e Steven interagem de maneira discreta, como conversar um com o outro no reflexo de um espelho. Como você lidou com as sequências em que os dois estavam frequentemente lado a lado?

Eu tive meu irmão, Michael [ator Michael Benjamin Hernandez], que é um grande ator e compartilha meu DNA, como meu alter. Outras vezes, era um grande desafio tecnicamente, pois, especialmente nos planos gerais, eu tinha que agir sem ninguém e lembrar do bloqueio que fiz como o outro personagem e responder às falas que me eram passadas em um fone de ouvido.

Por que histórias sobre identidades alternativas e multiversos estão se tornando cada vez mais populares?

Vivemos em um mundo pós-realidade. As coisas costumavam parecer muito mais claras, e agora não são. Nada mais pode ser verdadeiro ou autêntico, e acho que isso está se refletindo em muito da nossa cultura popular.

Você é um embaixador proeminente da marca Disney em um momento em que a empresa está enfrentando uma reação conservadora e represália política por sua oposição à lei “Parental Rights in Education” da Flórida, que seus críticos chamam de “Don’t Say Gay”. Isso é algo em que você se envolve pessoalmente?

Não. Eu não estou nas redes sociais, então, felizmente, se isso está acontecendo no meu caminho, eu ignoro. Mas tudo tem uma corrente política no momento. A Disney foi forçada a tomar uma posição, e estou feliz que eles tenham tomado a posição certa. Às vezes, o silêncio ou a neutralidade simplesmente não funcionam. Eu cresci na Flórida e reconheço como o estado é disfuncional. Mas é um momento interessante em que tudo é analisado, e se a Disney vai possuir tanto da indústria do entretenimento, eles devem esperar algumas decisões difíceis.

Esses são os tipos de considerações que você terá que fazer agora sempre que trabalhar para um grande estúdio?

Prefiro não. [Risos.] Isso vai exigir que eu faça muita pesquisa de antemão e prefiro gastar esse tempo descobrindo um bom personagem. / Tradução de João Luiz Sampaio

 

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