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Odiamos o escritório. Amamos o escritório. Queremos retornar?

Durante a pandemia, quando muitas pessoas ficaram grudadas na TV em casa o dia inteiro, havia um programa que os americanos não conseguiam deixar de assistir: 'The Office'

Roxanne Roberts, The Washington Post

03 de julho de 2021 | 10h00


Durante a pandemia, quando muitas pessoas ficaram grudadas na TV em casa o dia inteiro, havia um programa que os americanos não conseguiam deixar de assistir: The Office.

Os telespectadores passaram mais de 57 bilhões de minutos assistindo sem parar na Netflix o dia a dia de funcionários da empresa de papéis retratada na série - mais do que qualquer outra série transmitida por qualquer outro serviço de streaming segundo dados da Nielsen, provocando rumores de que muita gente trabalhando de casa estava, de repente e inexplicavelmente, com saudade dos seus cubículos e dos seus colegas de trabalho.

Ah, por favor! Uma coisa é sentar no sofá e rir com Michael e Dwight e Jim e Pam, e outra bem diferente é perder uma hora indo para o escritório para ficar sentado num cubículo.

Até o ano passado, ir para o escritório era um fato imutável e inevitável da vida para milhões de pessoas. Amávamos ou odiávamos. Mas o escritório sempre esteve ali, o centro do Sonho Americano, a escada para o sucesso, uma sala enorme com janelas nunca abertas, as figueiras com excesso de água, as mesas onde passamos aproximadamente 90 mil horas das nossas vidas.

Mas então veio o lockdown e a percepção de que nossos escritórios e nossos empregos não são necessariamente a mesma coisa. O Zoom se tornou uma salvação e um verbo. Que felicidade não ter de pegar o transporte para ir ao trabalho, as saias obrigatórias (e, pelo amor de Deus, as calças).

Assim, o cuidadoso retorno ao escritório tradicional tem sido recebido com um número sem precedentes de “Uh, não tão rápido”. Naturalmente esse é um privilégio daqueles que têm opções, ao contrário de muitos trabalhadores essenciais que sofreram o maior impacto da pandemia. Mas os trabalhadores de escritórios, outrora à mercê dos chefes supremos corporativos, manifestam preferência por algo que não seja o trabalho no horário comercial, as 44 horas semanais no escritório do passado.

Segundo uma pesquisa Gallup realizada entre outubro e abril, 40% dos trabalhadores de escritório preferem continuar trabalhando remotamente o máximo possível, com 21% optando pela volta ao trabalho presencial (e 29% não estavam trabalhando remotamente, ao passo que o restante não quis voltar por causa de medo do coronavírus).

O Escritório de Estatísticas Trabalhistas do governo informou que os trabalhadores vêm deixando seu emprego em números recorde e muitos mais estariam pensando em se demitir se não houver a promessa de algumas opções de trabalho remoto. Os empregadores que insistem que o trabalho presencial é necessário para a colaboração e inovação não possuem dados para provar sua alegação, segundo o New York Times. E embora medir a produtividade seja algo irritantemente subjetivo, alguns afirmam que ela permaneceu estável e até mesmo cresceu em 2020.

“O que ocorreu é que toda a ilusão que você tinha com relação ao escritório desmoronou”, explicou Scott Adams, criador de Dilbert, a icônica história em quadrinhos sobre a vida no escritório.

Os fãs de Dilbert nunca se intimidaram em dizer a Adams tudo o que não suportavam no ambiente de trabalho. “O sujeito ou a mulher que para diante da mesa para um bate-papo”, disse ele, “e depois todo aquele ruído vindo dos outros cubículos: o sujeito usando o cortador de unha, o outro pigarreando, outro falando no viva-voz. O cheiro do micro-ondas. Quando eu pergunto: ‘o que o está incomodando?’, as respostas sempre são desse tipo".

Mas há uma coisa curiosa que ele percebeu. Se perguntar a algum empregado de um escritório como foi seu dia, ele dirá que foi terrível. O patrão foi um problema, os colegas irritantes, o ar-condicionado frio como se estivesse no Ártico. “Mas se indagar se gosta do seu trabalho, ele dirá ‘Sim, adoro meu emprego’”, disse Adams. “As pessoas sempre dizem que gostam do seu emprego mesmo se queixando dele”.

A pandemia levou esta cultura das queixas a um ápice abrupto. Agora podemos realmente fazer algo a respeito. E perguntar: ”odiamos o escritório o bastante a ponto de nunca mais voltar?”

“A morte do escritório já foi prevista uma centena de vezes”, disse Gideon Haigh, autor australiano que escreveu o livro The Office: A Hard-Working History, e a continuação, The Momentou, Unevenful Day: A Requiem for the Office, sobre como a pandemia deve mudar a vida no trabalho.

Em qualquer lugar havia uma burocracia - a necessidade de registrar e documentar a informação - algo que se assemelhava a um escritório, na época dos antigos romanos, que nos legaram a palavra “officium”. A ideia dos espaços de trabalho públicos foi abandonada há séculos - muitos comerciantes realizavam os negócios em casa, com frequência no andar de cima de suas lojas. Eram poucas as exceções: os monges medievais usavam espaços específicos para copiar os manuscritos, e a família Médici originalmente criou a Galeria Uffizi em Florença, hoje um museu mundialmente famoso, para seu vasto império de negócios.

Os escritórios mudaram para casas adjacentes às fábricas, e depois para o centro da cidade. “Quando os patrões desejaram ficar separados das empresas quentes, nauseabundas e vulgares por motivos sociais e de classe, temos a ideia do prédio de escritórios do Central Business District”, disse Haigh. “Mas herdamos da fábrica duas leis de ferro: a lei da sincronia, que é a necessidade de todos trabalharem ao mesmo tempo, e o compartilhamento do local, a ideia de cada trabalhador no mesmo lugar que todos os outros”.

O edifício de escritórios moderno remonta a 1729 quando a East India Co. construiu sua enorme sede londrina para seus empregados para monitorarem os negócios e o transporte global da empresa. O escritor Charles Lamb trabalhou ali durante 33 anos e se queixava de que “ficava terrivelmente cansado do confinamento oficial. Trinta anos servi os Filisteus e meu pescoço não se submeteu ao jugo”.

O trabalho no escritório era considerado algo afeminado em comparação com o trabalho físico. Coube às mulheres - antes confinadas ao ensino ou enfermagem - quando adentraram o mesmo espaço no início do século 20 o aumento do respeito pelos homens do escritório. “O escritório se tornou o primeiro ambiente de trabalho em que homens e mulheres trabalhavam em paralelo e em proximidade, e é por isso que sempre se achou que a revolução do escritório se igualou à Revolução Industrial”, disse Haigh.

Frank Lloyd Wright introduziu o escritório em espaço aberto, sem divisórias, em 1906 com o Larkin Administration Building, em Buffalo, que nos levou no final ao famoso cubículo que concentrava mais e mais pessoas trabalhando num espaço cada vez menor.

O livro Cubed: A Secret History of the Workplace, de Nikil Saval, senador do Estado da Pensilvânia, de 2014, indicava que o trabalho no futuro seria remoto, o que, disse ele, causou “uma modesta controvérsia” quando muitos afirmaram que os trabalhadores precisavam do escritório para suas “interações fortuitas”. O livro foi publicado quando Marissa Mayer, do Yahoo, insistiu que seus funcionários tinham de trabalhar no escritório.

Anos depois, quando Saval trabalhava em seu porão durante a pandemia, ele percebeu que às vezes sentia falta de não estar fisicamente junto com seus colegas de trabalho. “Sentindo-me completamente carente desse ambiente de trabalho que basicamente tem sido relativamente consistente durante gerações” - é difícil mudar para um modelo totalmente diferente sem algum custo”.


 



Então surgiu o dilema: gostamos de várias coisas no tocante ao escritório, mas temos muito mais pavor. “No fundo, o trabalho no escritório sempre teve a conotação de ser algo um pouco mecânico, degradante e humilhante”, disse Haigh. “Acho que os que trabalham num escritório acabaram por internalizar essa ideia”.

“A porta de Scrooge estava aberta pois assim ele podia ficar de olho no seu funcionário que, num cubículo minúsculo, uma espécie de aquário, copiava cartas. Scrooge tinha uma lareira muito pequena, mas a do funcionário era muito menor, parecia uma pedra de carvão. Mas ele não podia enchê-la porque Scrooge mantinha o saco de carvão na sua sala”, escreveu Charles Dickens em 1843. Ebenezer Scrooge foi o patrão desumano original; Bob Cratchit o funcionário maltratado que sofria em silêncio.

O escritório é um lugar físico e é uma criação cultural: vimos diferentes descrições dele antes de envelhecermos o bastante para trabalhar. Na tela, o ambiente de trabalho é espirituoso e divertido (como em Desk Set ou Amor Eletrônico), ou um local de traições e sem humanidade (O Homem do Terno Cinzento). As histórias de escritório mais memoráveis revelam nossa relação de amor e ódio com o ambiente. Ele nos atrai com uma fantasia - o primeiro emprego, o colega adorável no elevador, o início de tanta ambição e possibilidades, e nos mostra o lado escuro desgastante.

O filme de comédia Como Eliminar Seu Chefe, de 1980, é um dos  mais amados de todos os tempos, graças ao hino de Dolly Parton para todos os trabalhadores explorados e as três heroínas que vencem seu chefe sexista e criam um escritório utópico com salário igual, horas flexíveis de trabalho e executivos agradecidos.

O filme Uma Secretária de Futuro, de 1988, em que uma secretária de Staten Island “com uma cabeça para os negócios e um corpo para o pecado” se torna uma executiva júnior - foi um sucesso exatamente porque era inspirador e totalmente irrealista, com barreiras como homens sexistas e de classe provocando muitas risadas. Anunciado como uma comédia otimista de escritório, adequado para as mulheres, o filme acabou de modo tão hábil que encobriu os reais problemas que as mulheres numa empresa enfrentavam na época.

Mad Men, um retorno elegante, sexy, do mundo da propaganda dos anos 1950 e 1960, foi comemorado pelos coquetéis nostálgicos, a sofisticação de meados do século e o retrato nítido do sexismo no ambiente de trabalho. Os personagens tinham todos os defeitos, mas eram talentosos, bem-sucedidos e ricos. A mensagem de fundo era: o escritório é o lugar onde os sonhos se realizam, a ética questionável é desculpada onde pessoas espertas transformam a ambição em ouro.

O que nos traz de volta para The Office. “Por que os americanos o tornaram a comédia favorita da pandemia?” Sim, era divertida, compreensível. Mas também é uma fantasia, um chefe bom, mas estúpido, que genuinamente se preocupa com seus empregados. Colegas de trabalho, excêntricos, mas decentes, no final do dia pensam um no outro como uma família.

“Para mim, The Office se encaixa num período específico de tempo e esse período de tempo foi 'antes'”, disse a jornalista Libby Hill falando sobre a série no ano passado. Ela considerou o programa reconfortante porque “tudo acontece numa bolha quase impenetrável. Patrões desajeitados costumavam ter um coração de ouro e queriam o melhor para você. Essa não é a nossa realidade. Mas outrora foi. E esperamos que seja novamente”.

O que vai acontecer com o escritório no futuro?

“Vai depender muito do equilíbrio de poder entre trabalhador e patrão”, disse Adams. “No Vale do Silício os empregados têm mais influência. Assim, se você tem um bom programador, permitirá que ele trabalhe em casa se ele insistir nisso. Mas vamos supor que você dirige um departamento obscuro, anônimo, de uma empresa listada na Fortune 500 - talvez queira que seu pequeno império volte a trabalhar de maneira que poderá fiscalizá-lo”.

Jamie Dimon, do JPMorgan, disse que os funcionários em trabalho remoto “prejudicam extremamente o ambiente de trabalho da empresa ao eliminarem a interação espontânea e a criatividade". Sandeep Mathrani, CEO da WeWork, afirmou que “os empregados mais engajados desejam estar presentes no espaço de trabalho; os menos engajados (você sabe quem são, os relaxados) preferem trabalhar em casa. Outros CEOs já anunciaram políticas liberais para trabalho em casa. Existem tantas variáveis que é difícil prever como e o motivo para um empregado progredir ou tropeçar.

Moral da história da pós-pandemia: o escritório padrão não mais se ajusta a estes tempos. “Acho que as pessoas vão dizer que antes ir ao escritório fazia todo o sentido. Agora não mais”.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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