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O que aconteceu depois de ‘A Máfia dos Tigres’

Série da Netflix mostra Joseph Maldonado-Passage, ex-proprietário de um zoológico de beira de estrada em Oklahoma, atualmente preso por tentar matar uma defensora dos direitos dos animais

Alan Yuhas e Maria Cramer, The New York Times

28 de abril de 2020 | 09h41

Viajando pelos Estados Unidos em 1866, o produtor de espetáculos P.T. Barnum brigava com o fundador da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais. Depois de saber de um episódio em que um animal ficou gravemente ferido em um zoológico de Long Island, em Nova York, nos idos de 1933, uma mulher escreveu ao jornal local, “chegamos a nos perguntar por que esses ‘zoológicos’ de beira de estrada são permitidos".

Ao assistir à programação da Netflix em 2020, muitas pessoas estão pensando o mesmo.

Essa é uma das muitas perguntas que emanam da série documental A Máfia dos Tigres, a respeito de Joseph Maldonado-Passage, mais conhecido como Joe Exotic, ex-proprietário de um zoológico de beira de estrada em Oklahoma, atualmente detido em uma prisão federal por tentar contratar um assassino profissional para matar uma defensora dos direitos dos animais, entre outras acusações.

Desde o lançamento da série, no mês passado, Joe Exotic, 57 anos, conquistou numerosos aliados contra seus numerosos inimigos e ex-sócios, principalmente a ativista Carole Baskin. Alguns fazem campanha para que ele seja solto da prisão, onde cumpre pena de 22 anos.

A história dele também deu novo fôlego aos ativistas defensores dos direitos dos animais, para quem o documentário preferiu tratar com sensacionalismo as disputas pessoais, perdendo a oportunidade de denunciar a crueldade dos zoológicos de beira de estrada.

Quem assistiu ao programa ou soube de sua existência deve ter várias perguntas em aberto. Eis aqui as respostas para algumas delas.

Quer dizer que Joe Exotic está preso agora?

Nos últimos episódios da série, a fúria de Joe Exotic contra Carole Baskin, ativista defensora dos direitos dos animais, evolui para uma trama violenta contra ela, chamando a atenção do FBI.

Ele foi condenado em abril por duas acusações de conspiração para cometer assassinato e uma série de outras acusações ligadas aos animais que mantinha. Foi sentenciado em janeiro, mas sustentou a própria inocência em uma publicação do Facebook e recorreu do veredicto a um tribunal superior. Os advogados dele não responderam aos pedidos de contato da reportagem.

Ele também deu entrada em um processo exigindo uma indenização de quase US$ 94 milhões frente ao departamento do interior, a um promotor e a outras partes, de acordo com documentos do tribunal. No processo, iniciado no dia 17 de março, ele diz que o caso contra ele envolveu depoimentos falsos e perjúrio, declarando-se vítima de discriminação enquanto “homem abertamente gay e dono da maior coleção de tigres genéricos e mestiços".

Um porta-voz do gabinete do procurador-geral dos EUA para o distrito oeste de Oklahoma, onde foi processado o caso criminal, não respondeu aos pedidos de entrevista. Um dos réus identificados no processo é Jeff Lowe, que adquiriu o zoológico de Joe Exotic em Wynnewood, Oklahoma, antes de um desentendimento entre os dois. Ele não respondeu imediatamente aos pedidos de entrevista.

Ainda que Joe Exotic esteja em uma prisão federal no Texas, sua página no Facebook permanece ativa. Em publicação feita na semana passada, ele pediu ajuda para levar uma carta ao presidente Donald Trump, solicitando a ele que “faça a coisa certa, ou seja, me perdoar ou permitir o pagamento de fiança enquanto meu caso aguarda recurso".

O ex-dono do zoológico também estaria “felicíssimo” com a nova fama, disse ao Los Angeles Times uma das diretoras da série, Rebecca Chaiklin.

O zoológico continua aberto?

Estava aberto até essa semana.

A popularidade do programa chegou em um momento em que o coronavírus obrigou muitos estabelecimentos a fecharem suas portas em todo o país.

Em publicação no Facebook, Lowe disse que “o público aumentou muito depois da estreia do programa da Netflix e temos dificuldade em controlar um movimento tão intenso".

Mas, na terça feira, o xerife Jim Mullett, de Garvin County, Oklahoma, disse que o zoológico tinha sido fechado em cumprimento da ordem do governador prevendo o fechamento de todas as atividades não essenciais.

E quanto à música de Joe?

Há muitos clipes musicais com Joe Exotic espalhados por A Máfia dos Tigres, mas essa trilha sonora nunca foi dele. As canções foram gravadas por Vince Johnson e Danny Clinton, dois músicos de Washington.

Johnson disse à Vanity Fair que seu grupo, Clinton Johnson Band, começou a trabalhar com Joe Exotic graças a um anúncio: Joe queria uma música temática para seu zoológico e ofereceu em troca a possibilidade de divulgação em um programa de reality TV que, de acordo com ele, estaria em fase de produção.

Johnson disse que a banda concordou em compor músicas de acordo com temas indicados por Joe.

“Não fazia ideia que ele usaria o material como se fosse o Milli Vanilli", disse Johnson à revista, referindo-se à dupla pop que recebia crédito por canções que não tinha gravado, o que lhes custou um Grammy em 1990. Johnson disse que, depois de alguns meses de colaboração, ele descobriu Joe Exotic no YouTube, “dublando as músicas e fingindo ser o fantasma de Elvis".

No fim, Johnson concluiu que tinha sido “ludibriado” em relação ao reality show. “Tudo que eu queria era o crédito pelo trabalho.”

Ele e Clinton são identificados nos créditos de A Máfia dos Tigres.

O que houve com o marido de Carole Baskin?

A investigação do desaparecimento de Don Lewis, o rico ex-marido de Carole Baskin, em 1997 - um dos muitos mistérios que o programa aborda - nunca foi oficialmente encerrada. Joe Exotic e outros indicaram que Carole estaria envolvida no desaparecimento do marido, acusação que ela nega.

Essa semana, o xerife Chad Chronister, de Hillsborough County, na Flórida, destacando a popularidade do programa, pediu ao público que entrasse em contato caso alguém tivesse novas pistas do desaparecimento de Lewis. Ele disse aos repórteres que designou um investigador para receber as pistas que chegavam “por causa do fenômeno de popularidade do programa na Netflix".

(Chronister assistiu à série A Máfia dos Tigres. Disse que os fatos são retratados de forma “sensacionalista” por se tratar de entretenimento, mas o resultado é interessante. “Levante a mão quem não torce por Joe Exotic, mesmo sabendo que esse indivíduo é suspeito de má conduta nos seus negócios", disse ele.

De acordo com o xerife, seu departamento tem recebido cerca de seis chamadas por dia envolvendo esse caso, mas, até o momento, não surgiram pistas promissoras. “Vamos analisar novamente as provas que temos", disse ele. “É difícil descrever o quanto o caso era complicado.”

E quanto ao Big Cat Rescue?

O Big Cat Rescue é um santuário de 28 hectares na Flórida administrado por Carole Baskin, com quem Joe Exotic brigou várias vezes e a quem ele foi acusado de tentar matar.

Em publicação em um blog feita após o lançamento de “A máfia dos tigres”, ela questionou muitas das “interpretações equivocadas a respeito das quais as pessoas nos escrevem por e-mail", como o número de visitantes aceitos na propriedade do santuário (costumam ser menos de 20 por vez, disse ela), o tamanho dos espaços habitados pelos animais (o menor seria “do tamanho de uma casa pequena”) e o salário dos funcionários (“algo entre US$ 30 mil e US$ 60 mil anuais”).

Toda a receita do santuário “permanece com a organização para o cumprimento de sua missão", escreveu ela.

Carole disse achar positivo que “a série aparentemente tenha chegado a um público que não faz ideia de como é a situação nesses zoológicos de beira de estrada", que muitas vezes funcionam sem licença, mas condenou a caracterização do desaparecimento de Lewis feita pelos cineastas.

Kate Dylewski, ativista defensora dos direitos dos animais e principal assessora de políticas do Animal Welfare Institute, disse ter trabalhado com Carole durante anos na tentativa de aprovar a Lei de segurança pública dos grandes felinos, que proibiria as novas compras de grandes felinos como leões e tigres. Ela disse que a reputação de Carole entre os ativistas defensores dos direitos dos animais é impecável, e muitos deles foram às redes sociais para se queixar de como ela é retratada no documentário.

“O documentário faz muitas comparações desonestas entre ela e os proprietários dos zoológicos de beira de estrada", disse Kate. “As pessoas ficaram indignadas com o tratamento que ela recebeu recentemente.”

Na publicação do blog, Carole disse que eles participaram da produção da série da Netflix porque os diretores disseram que denunciariam os abusos cometidos nos zoológicos de beira de estrada.

“A série não faz nada disso, e ainda tem como único objetivo usar o maior sensacionalismo possível para atrair espectadores", escreveu Carole. Ela disse que o programa se baseia em “mentiras e intrigas de pessoas sem credibilidade” ao apresentar o caso do desaparecimento do marido dela.

E quanto aos demais?

Bhagavan Antle, outro proprietário licenciado de animais selvagens mostrado na série, descreveu-a como “entretenimento sensacionalista". Em publicação feita no Facebook na semana passada, ele disse que seu Myrtle Beach Safari “segue todos os parâmetros da USDA, e nossos animais são tratados com o máximo cuidado". Ele disse que seus funcionários ficaram “muito desapontados ao verem nossa instalação mencionada no programa".

Agentes da divisão de policiamento da Carolina do Sul apresentaram mandados de busca ao Myrtle Beach Safari em dezembro, mas um porta-voz da agência, Tommy Crosby, disse na quarta feira que a instalação não estava sob investigação.

“Os mandados de busca apresentados em dezembro estavam ligados a uma investigação realizada pelas autoridades da Virgínia", disse ele.

Em dezembro, Antle disse ao noticiário local da WMBF News que a investigação estava ligada a um zoológico da Virgínia e um caso envolvendo três filhotes de leão que ele obteve em meados do ano passado.

“Eles queriam que nós os ajudássemos a rastrear a origem dos leões e indícios de como tinha sido sua vida antes de virem para cá", disse ele. “O Myrtle Beach Safari não cometeu nenhuma irregularidade.”

Charlotte Gomer, porta-voz do procurador-geral da Virgínia, disse que a unidade de policiamento animal do gabinete esteve “envolvida na operação no Myrtle Beach Safari”, mas que não poderia “acrescentar mais nada no momento por se tratar de uma investigação em andamento".

Ela disse que, no ano passado, a unidade obteve a custódia de 119 animais exóticos e agrícolas de um zoológico de beira de estrada na Virgínia, o Wilson’s Wild Animal Park, cujo proprietário e seu sobrinho foram indiciados por 46 acusações de crueldade contra animais. Uma audiência desse caso foi marcada para o dia 7 de maio.

O Myrtle Beach Safari não respondeu imediatamente aos pedidos de contato.

John Finlay, que manteve um longo relacionamento com Joe Exotic, depôs durante seu julgamento federal.

Ele criou uma página no Facebook, “A verdade a respeito de John Finlay", e deu entrevistas a respeito de suas experiências no zoológico e durante as filmagens (disse que fez uma operação ortodôntica em meados de 2019, por exemplo, mas os produtores da série não mostram seus dentes corrigidos).

Ele disse ao ator David Spade que ele e Joe Exotic nunca foram casados no papel, e o ex-companheiro “saiu completamente da minha vida". Finlay tem um noivo agora e, em relação à série, disse, “Tive muito mais retorno positivo do que negativo".

O serviço Cameo, que permite aos fãs que paguem a celebridades de baixo escalão para que lhes enviem mensagens de vídeo, disse que Lowe faz parte dos seus serviços e está disponível para vídeos personalizados.

De acordo com documentos do tribunal, Lowe é acusado em quatro casos abertos no tribunal municipal de Las Vegas, onde é acusado de ter feito negócios sem licença em 2017 e de não ter obtido licença nem autorização para animais selvagens e de fazenda. Uma audiência foi marcada para o dia 1.º de junho.

O advogado dele não respondeu imediatamente aos pedidos de contato.

Há algum aspecto da criação de tigres que esteja dentro da lei?

Alguns estados proíbem a criação privada de grandes felinos para quem não tem licença federal para criá-los, enquanto outros estados têm regras menos rigorosas, ou mesmo inexistentes. Os grupos defensores dos direitos dos animais dizem que essa colcha de retalhos de leis e regras não protege os animais selvagens e coloca em risco a segurança do público.

Com frequência, pessoas com pouca ou nenhuma experiência na manutenção de zoológicos compram filhotes de leão e tigre que se tornam difíceis de cuidar quando crescem. Os defensores dos direitos dos animais costumam citar o caso de um homem de Ohio que, em 2011, soltou vários dos animais que criava, entre eles tigres de bengala, ursos e leões. A polícia matou os animais, mas não antes de alguns deles chegarem a uma rodovia estadual.

Os zoológicos de beira de estrada são problemáticos porque os grandes felinos são criados em nome do lucro, de acordo com Kate, do Animal Welfare Institute.

Os filhotes são afastados das mães, frequentemente logo após o nascimento, e são exibidos a turistas que os manuseiam, disse ela. Muitos deles sofrem abusos por parte de seus cuidadores, disse Kate.

“Esses filhotes são animais selvagens", acrescentou ela. “São tratados como objetos de cena, e não como seres vivos.”

E, quando ficam mais velhos, eles podem se tornar um fardo para seus proprietários, de acordo com Dan Ashe, presidente e diretor executivo da Associação de Zoológicos e Aquários.

“Eles são então penhorados para lugares onde recebem cuidados inadequados ou inexistentes", disse ele.

Os donos de animais que são exibidos ao público devem ser licenciados de acordo com a Lei do bem estar animal, policiada pelo departamento de agricultura dos EUA.

Os proprietários licenciados devem garantir que os animais tenham acesso a uma habitação adequada e limpa, nutrição, água e cuidados veterinários, sendo também protegidos de temperaturas extremas.

Mas os expositores ainda podem reproduzir os felinos, transferi-los de um estado ao outro e permitir que o público faça carinho em filhotes de tigre e tire fotos com leões, o tipo de contado mostrado em A Máfia dos Tigres, disse Ashe.

A Lei de segurança pública dos grandes felinos, tornaria tudo isso ilegal, proibindo novos donos de grandes felinos como tigres, leões, onças e espécimes mestiços.

A reprodução e o transporte de grandes felinos ainda seria permitida para as instituições educativa, e também para os santuários e zoológicos que seguissem determinadas restrições, como a proibição do contato direto entre os animais e o público, de acordo com o texto da proposta de lei. O congressista democrata Mike Quigley, de Illinois, que apresentou a versão mais recente da lei, disse que o texto tinha mais de 220 defensores e foi aprovado no segundo semestre do ano passado pela comissão de recursos naturais do congresso.

“Em resumo, estamos falando do bem estar dos animais e da segurança do público", disse ele. “Se um documentário se aprofundar nessa questão e ajudar a pressionar pela aprovação da lei, esse será um ótimo resultado.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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