Nicole Wilder/Paramount+/Via AP
Giovanni Ribisi interpreta Joe Colombo na nova série 'The Offer', sobre os bastidores de 'O Poderoso Chefão' Nicole Wilder/Paramount+/Via AP

'O Poderoso Chefão': Série ‘The Offer' mostra os bastidores selvagens do filme de Coppola

Série da Paramount+ retrata o drama nos bastidores para trazer a saga da família Corleone para o cinema

Alicia Rancillo, Associated Press

27 de abril de 2022 | 11h45

Em uma viagem a Nova York no início dos anos 1970, Robert Evans, ex-chefe da Paramount, descobriu um rato morto na cama de seu quarto de hotel. De acordo com a nova série da Paramount+ The Offer, esta não foi uma experiência de viagem infeliz que hoje resultaria em uma crítica mordaz no Yelp, mas um aviso da máfia.

O chefe do crime Joseph Colombo acreditava que o livro de Mario Puzo O Poderoso Chefão era um insulto aos ítalo-americanos e não queria que a Paramount o adaptasse para o cinema.

A cena é ao mesmo tempo horripilante e hilária quando Matthew Goode, que interpreta Evans, sai rapidamente da cidade depois de pedir ao produtor do filme, Al Ruddy (interpretado por Miles Teller), para fazer o que era certo.

O que é revelado nos 10 episódios de The Offer, que estreia em 28 de abril, é que a pressão da máfia foi apenas um dos muitos obstáculos que Ruddy, Evans e outros envolvidos enfrentaram para fazer o filme.

“Eu não conseguia acreditar em algumas das histórias”, disse Goode.

Patrick Gallo, que interpreta Puzo, acrescenta: “se você ama o filme, não vai acreditar no tipo de coisa que aconteceu quando ele foi feito”

Embora O Poderoso Chefão seja um exemplo extremo, Colin Hanks, que interpreta um dos executivos da então proprietária da Paramount, Gulf + Western, diz que The Offer mostra o quão difícil é fazer qualquer coisa em Hollywood.

“É uma série interessante para as pessoas que assistiram O Poderoso Chefão e amam O Poderoso Chefão porque obviamente vão conhecer os locais, os personagens, e haverá alguns insights sobre a criação do filme. Mas acho que mesmo que alguém não tenha visto O Poderoso Chefão é uma análise bastante interessante de como é difícil''

Também mostra como Hollywood pode ser inconstante.

“Conversei com cineastas realmente aclamados e reconhecidos que fizeram um filme incrível e depois presumiram que seriam capazes de fazer o que quisessem em seguida. E eles não puderam”, disse Teller. “Mesmo grandes estrelas de cinema, você ficaria surpreso com a rapidez com que o entusiasmo por elas desaparece se não estiverem saindo de um sucesso. E alguém me disse 'Neste negócio, ninguém se importa com o que você fez há dois anos.' Eu acho que ninguém se importa com o que você fez sete meses antes. É um campo de provas constante.''

The Offer pinta um retrato heroico de Ruddy, que foi firme ao proteger a visão criativa do diretor Francis Ford Coppola, mesmo sendo pressionado por todos os lados. A série descreve como Coppola queria desesperadamente escalar um então desconhecido ator off-Broadway chamado Al Pacino para o papel de Michael Corleone, para a consternação inicial de Evans e da Gulf + Western. Ele também achava Marlon Brando perfeito como Don Corleone, embora Brando fosse considerado pouco confiável na época. Ruddy persistiu e fez acontecer.

“Se ele acreditasse em alguém e se dissesse que te apoiava, ele mantinha a palavra. Ele foi assim até o fim'', disse Teller.

Ruddy foi o único produtor do filme - uma raridade na Hollywood de hoje, mas seu sistema de apoio incluía sua assistente Bettye McCartt, que estava ao seu lado a cada passo do caminho.

Juno Temple interpreta McCartt e chama de "uma das maiores honras" de sua carreira trazer a parceria de Ruddy e McCartt para a tela, um par que confiava um no outro implicitamente.

"Você sempre ouve, ‘Homens e mulheres não podem ser amigos’. Sim, eles podem. Eles podem ser melhores amigos e podem fazer coisas incríveis juntos."

Dan Fogler, que interpreta Coppola, diz que The Offer é um lembrete da genialidade do diretor, e ele adoraria ter seu selo de aprovação.

“Eu me pergunto o que ele vai pensar de tudo isso. Espero que ele nos dê sua bênção,” disse. (Deve-se dizer que Coppola rejeitou o projeto, dizendo à Variety em março que The Offer não corresponde à sua memória do que aconteceu.)

E Hollywood ainda não terminou essa história. Um filme em torno da montanha-russa para fazer O Poderoso Chefão, estrelado por Oscar Isaac e Jake Gyllenhaal, chamado Francis and the Godfather, também está em andamento. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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Al Pacino sobre 'O Poderoso Chefão': 'Levei uma vida inteira para aceitar e seguir em frente'

O filme, que completa 50 anos nesta terça, teve praticamente todo o elenco reprovado pela Paramount Pictures

Dave Itzkoff, The New York Times

14 de março de 2022 | 20h00

É difícil imaginar O Poderoso Chefão sem Al Pacino. Sua atuação discreta como Michael Corleone, que se tornou um respeitável herói de guerra apesar de sua família corrupta, passa quase despercebida na primeira hora do filme – até que finalmente ele se afirma, gradualmente assumindo o controle da operação criminosa Corleone, além do próprio filme.

Mas também não haveria Al Pacino sem O Poderoso Chefão. O ator era uma estrela em ascensão do teatro de Nova York com apenas um papel no cinema – no drama sobre drogas Os Viciados, de 1971 – quando Francis Ford Coppola lutou por ele, contra a vontade da Paramount Pictures, para interpretar o reflexivo príncipe em seu épico sobre a máfia. Mais de meio século de cruciais papéis cinematográficos se seguiram, incluindo outras duas participações como Michael Corleone em O Poderoso Chefão Parte II e Parte III.

O Poderoso Chefão estreou em Nova York em 15 de março de 1972 e, 50 anos depois, você pode imaginar todas as razões pelas quais Pacino não queria mais falar sobre isso. Talvez ele ficasse envergonhado ou irritado pelo fato de essa única atuação, logo no começo de sua carreira no cinema, ainda dominar seu currículo, ou talvez ele tenha dito tudo o que há para dizer sobre o assunto.

Mas em uma entrevista por telefone no mês passado, Pacino, agora com 81 anos, foi bastante filosófico, até saudoso, ao discutir sobre o filme. Ele continua sendo um fervoroso admirador do longa e do quanto Coppola e seus colegas de elenco fizeram para apoiá-lo. Ainda está impressionado com a forma como o filme, sozinho, construiu sua carreira.

“Estou aqui porque fiz Chefão", disse Pacino, falando de sua casa em Los Angeles. “Para um ator, é como ganhar na loteria. Na verdade, eu não tive nada a ver com o filme a não ser desempenhar o papel.”

Como lembrou Coppola, Pacino era o ator que viu interpretando o papel desde o início, independente de seu magro currículo.

“Quando realmente li o livro O Poderoso Chefão, fiquei imaginando Pacino no papel”, disse Coppola em uma entrevista separada. “E eu não tinha uma segunda escolha. Foi, para mim, sempre Al Pacino. Essa é a razão pela qual eu fui tão decidido de que ele deveria interpretar Michael. Esse era o meu problema.”

Mas, para o ator, o grande desempenho de sua vida também trouxe fardos, como ele aprenderia nos anos seguintes.

“É difícil explicar no mundo de hoje – explicar quem eu era naquela época e como aquilo foi como um raio que caiu do céu”, disse Pacino. “Senti que, de repente, algum véu foi levantado e todos os olhos estavam em mim. Claro que havia outros no filme. Mas O Poderoso Chefão me deu uma nova identidade com a qual foi difícil lidar.”

Pacino falou ainda sobre ser contratado, o peso de seu legado e por que ele nunca mais interpretou outro personagem como Michael Corleone. Estes são trechos editados da nossa conversa.

Quando você recebe uma ligação pedindo para falar sobre O Poderoso Chefão, existe alguma parte de você que pensa, ah, Deus, de novo não? Alguma vez se torna tedioso?

Bem, não. Eu já espero isso. Espero falar sobre quais coisas funcionaram e quais não. Tenho a sensação de que alguém vai me criticar. Só penso: OK, já fiz isso. Mas é legal. É melhor do que falar comigo mesmo sobre isso.

Como surgiu o papel de Michael Corleone?

Naquele momento da minha vida, não tive escolha. Francis queria que eu fizesse o personagem. Eu tinha feito só um único filme. E não estava tão interessado em fazer cinema como fiquei depois. Minha cabeça estava em outro lugar. Eu me senti deslocado nos primeiros filmes que fiz. Lembro-me de dizer ao meu amigo Charlie (seu mentor, professor de atuação Charlie Laughton): Uau, eles falam sobre isso ser real, mas não é. Porque há fios ligados em você de todos lugares. E, ainda por cima, você tem de fazer isso de novo! (Risos.) Você faz e eles dizem, bem, vá de novo, faça de novo. É real e não real ao mesmo tempo. O que leva algum tempo para se acostumar.

Quando você e Coppola se conheceram?

Para dar um pouco de história, Francis era aquele cineasta que tinha a Zoetrope (sua produtora, a American Zoetrope), e pessoas como Steven Spielberg e George Lucas e (Martin) Scorsese e (Brian) De Palma formavam um grupo com ele. Eu me lembro de ter visto alguns deles quando Francis me pediu para ir a São Francisco depois de me ver em uma peça na Broadway. Você conhece essa história? Estou contando velhas histórias agora (risos).

Está ótimo, é por isso que estamos aqui.

Ele me viu no palco (na Broadway, em 1969, na peça Does a Tiger Wear a Necktie?), mas eu não o conhecia. Ele havia escrito o roteiro de “Patton” naquela época e me enviou uma história sobre uma maravilhosa história de amor que ele havia escrito (e que nunca foi produzida). Ele queria me ver. Isso significava que eu tinha que pegar um avião e ir para São Francisco, e eu não estava acostumado com isso. Então pensei, existe alguma outra maneira de ir? Eu não posso dizer a esse cara para vir até aqui, posso? Então resolvi aceitar o desafio e fui. Passei cinco dias com ele. O filme parecia ser realmente especial. Mas fomos rejeitados, é claro. Eu era um ator desconhecido e ele havia feito alguns filmes, Agora Você é um Homem e Caminhos Mal Traçados. Então voltei para casa e nunca mais ouvi falar dele.

Mas você foi, não? Quando foi isso?

 Os Viciados ainda não tinha estreado. E recebi uma ligação de Francis Coppola. Primeiro, ele diz que vai dirigir O Poderoso Chefão. Pensei, bem, ele poderia estar passando por um pequeno colapso ou algo assim. Como deram a ele O Poderoso Chefão?

Você não achou que fosse possível ele fazer o filme?

Tenho de dizer: já era um grande negócio. Era um grande livro. Quando se é um ator como eu era na época, nem põe os olhos nessas coisas. Você está em um determinado momento da vida em que não será aceito nesses grandes filmes – não ainda, pelo menos. E ele disse que não só iria dirigir o filme (caindo na risada), como queria que eu interpretasse. Desculpe, não quero rir aqui. Parecia tão ultrajante. Lá estava eu, falando com alguém que parecia ter enlouquecido. Achei melhor fazer ele pensar que eu estava acreditando. E ele queria que eu fizesse Michael. Pensei, OK, vou concordar com isso. Respondi: sim, Francis, ótimo. Sabe aquele jeito com que as pessoas falam com alguém quando está perdendo o juízo? Dizem: “Sim! Claro! Sim!" Mas ele não estava enlouquecendo. Era a verdade. E me deram o papel.

A Paramount se opôs à ideia de você interpretar o papel.

Bem, eles rejeitaram todo o elenco! (Risos). Eles rejeitaram Brando. Rejeitaram Jimmy Caan e Bob Duvall. Houve conflito.

Recentemente, assisti a alguns de seus testes de tela para O Poderoso Chefão e você parecia ter esse olhar de cachorro encurralado quando te pedem para repetir de novo e de novo.

Sim. Eu sempre tive esse olhar (risos). Foi uma fachada que me fez suportar essas audições. Porque grandes atores estavam fazendo testes para o filme. Mas aqui está o segredo: por alguma razão, ele me queria e eu sabia disso. Dava para sentir isso. E não há nada igual quando um diretor quer você. É a melhor coisa que um ator poderia ter, na verdade.

Quando você começou a filmar O Poderoso Chefão, trabalhando ao lado de pessoas como James Caan e Robert Duvall, que tinham muito mais experiência cinematográfica, e Marlon Brando, que você admirava muito, como fez para se firmar?

Refleti sobre o papel. Eu só não conseguia verbalizar isso na época. Hoje, sim. Pensei que seria um personagem muito eficaz se viesse do nada. Essa foi a minha visão. Eu não conseguia descrever isso porque não sabia como dizê-lo. Mas eu poderia pensar. E, ao ler o roteiro, senti que estava mapeado para mim.

Como assim?

Ele não aparece muito. Está lá, mas não aparece. Acho que um processo de aparecer aos poucos até fazer aquele discurso em que diz que vai pegar aqueles caras (o traficante Sollozzo e o policial corrupto Capitão McCluskey), e todos começam a rir dele.

Ou seja, Michael estava sendo subestimado e isso era algo que você poderia se identificar e usar a seu favor?

Exatamente. Mas vou lhe dizer, eles não poderiam ter sido mais amigáveis, todos eles. Eu era jovem, desconhecido e eles eram tão reconfortantes. Havia uma espécie de amor ali. Eles entenderam, especialmente Brando. Mas os outros também. Todos estavam se tornando aqueles irmãos mais velhos e conselheiros que interpretam no filme. Esses tipos de emoções e cores vieram à tona, tanto na performance quanto na vida. 

 

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Nos 50 anos de 'O Poderoso Chefão', Coppola revela desafios para realizar o filme

Cineasta foi homenageado com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood e o Museu da Academia anunciou que terá uma galeria exclusiva para seu filme

Andrew Marszal, AFP

23 de março de 2022 | 16h47

Há 50 anos, O Poderoso Chefão quebrou todos os recordes de bilheteria, levou para casa o Oscar de melhor filme e apresentou milhões de pessoas a um mundo de mafiosos, assassinatos e cannoli. 

Para o diretor Francis Ford Coppola, com 29 anos à época, a adaptação do romance de Mario Puzo não parecia uma oferta impossível de recusar. 

"Fiquei muito decepcionado quando comecei a ler (...) Era, basicamente, algo que Mario Puzo havia escrito para seus filhos", disse Coppola durante a projeção do filme no Museu da Academia, em Los Angeles, na segunda-feira (21), por seu 50.º aniversário. 

"Quando me ofereceram a chance de fazê-lo, principalmente porque todo mundo tinha recusado, eu também recusei", lembra o aclamado diretor.

Felizmente, um jovem sócio chamado George Lucas insistiu em que ele aceitasse o trabalho, já que seu incipiente e contracultural estúdio cinematográfico American Zoetrope estava muito endividado. 

"Francisco, precisamos do dinheiro! Vão fechar a gente, você tem de aceitar esse trabalho", disse Lucas, conforme palavras de Coppola. 

O resto, como dizem, é história. 

Lançado em 24 de março de 1972 em um número incomumente grande de cinemas, O Poderoso Chefão  já era o filme de maior bilheteria de todos os tempos em setembro, superando ...E o Vento Levou.

Com ele, ajudou a inaugurar a era dos sucessos de bilheteria, que realmente decolou quando Tubarão, de Steven Spielberg, quebrou o recorde de arrecadação três anos depois. 

De acordo com o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders, Raging Bulls (Intrínseca, 2009), de Peter Biskind, Coppola ganhou uma aposta da Paramount de que eles comprariam uma limusine para ele se o filme arrecadasse US$ 50 milhões. O Poderoso Chefão arrecadou US$ 130 milhões. 

Coppola se tornou o primeiro diretor superestrela, com o peso financeiro necessário para apoiar suas credenciais artísticas. 

"Foi o começo de uma nova era para os diretores", escreveu Biskind. 

Orçamento

Sob muitas formas, O Poderoso Chefão foi um sucesso improvável. 

Em 1972, os filmes de mafiosos estavam fora de moda. Quatro anos antes, a Paramount havia lançado The Brotherhood, estrelado por Kirk Douglas, e fracassou.

Mas o romance de Mario Puzo estava se tornando popular, e o estúdio tinha os direitos. A Paramount tinha, no entanto, problemas para encontrar um diretor. Figuras como Elia Kazan, Costa-Gravas e Peter Bogdanovich rejeitaram o projeto. 

Embora liderasse o movimento da Nova Hollywood de diretores jovens e contestadores, Coppola não tinha sucesso em seu nome e foi convidado, em parte, por sua herança italiana. 

"Se isso gerasse muitos protestos de ítalo-americanos ofendidos que considerasse que os italianos estavam sendo desprestigiados, eu teria ficado na mira", afirmou Coppola. 

Embora a Paramount quisesse uma adaptação barata e rápida, Coppola brigou por mais orçamento, insistindo em que o filme fosse rodado em Nova York, mas ambientado na década de 1940, e não como era hoje. 

"O orçamento foi de cerca de US$ 2 milhões, US$ 2,5 milhões. E porque eu queria fazer isso em Nova York em 1945, significava que, provavelmente, precisaria de pelo menos o dobro disso", comentou Coppola. "Algo que não os agradava", completou. 

"À sua maneira"

Não foi o único desafio que o diretor enfrentou. O produtor Robert Evans, um dos pesos pesados de Hollywood e que havia comprado os direitos do filme, desentendeu-se com Coppola sobre o elenco. 

O único grande nome do projeto (Marlon Brando) não estava em seu melhor, e Al Pacino era um desconhecido, e não o "homem alto e bonito" que Evans queria. 

"Al é muito bonito, mas à sua maneira única", brincou Coppola. 

Ele acrescentou: "Al Pacino era muito atraente. Eu me perguntava por que exatamente, mas ele era". 

"No entanto, quando sugeri Al Pacino para o papel, o pessoal na Paramount começou a se perguntar se havia escolhido a pessoa errada", contou.

O resultado foi o reconhecimento da Academia. O Poderoso Chefão ganhou o Oscar de melhor filme; Brandon, o de melhor ator; e Al Pacino foi uma das três estrelas da produção entre os indicados na categoria de melhor ator coadjuvante.

Um sinal de como seu legado permanece, Coppola foi homenageado esta semana com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, e o Museu da Academia anunciou que terá uma galeria exclusiva para este filme. 

"O Poderoso Chefão teve muito mais sucesso do que qualquer um achou que pudesse ser", refletiu Coppola.

 

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Novo 'Poderoso Chefão', que Coppola reeditou e melhorou, chega aos cinemas e plataformas

'O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone' é a terceira parte da saga da família Corleone revisitada 30 anos depois de seu fracasso; veja trailer e vídeo com Coppola

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2020 | 14h00

No início do ano, quando os estúdios Paramount anunciaram que o diretor Francis Ford Coppola retrabalharia o filme O Poderoso Chefão III, criou-se uma grande expectativa. Afinal, o longa rodado em 1990 é considerado o pior da trilogia sobre a família Corleone, muito aquém das duas primeiras partes que são obras-primas. Desde a pálida atuação da filha do diretor, Sofia Coppola (hoje, uma renomada cineasta), até o desfecho insatisfatório, o filme deixava a desejar.

Não mais – a partir desta quinta, 3, quando O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone estreia nas salas de cinema (e, no dia 8, chega às plataformas digitais NET NOW Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video, PlayStation Store), Coppola não apenas recupera seu trabalho como finalmente oferece o longa que desejava. O próprio diretor, aliás, aparece antes do início da projeção, explicando suas escolhas. “Graças à gentileza da Paramount Pictures de me deixar revisitar este projeto, eu o reeditei e dei a ele um título que não é exatamente novo, mas é o título original”, comenta.

Coppola foi, na verdade, diplomático ao se referir à bondade do estúdio – a produção foi acidentada e a Paramount não aceitou que o longa tivesse como subtítulo A Morte de Michael Corleone, como desejavam Coppola e o roteirista Mario Puzo. O estúdio também ofereceu um salário minguado para Robert Duvall, excelente como o conselheiro da família Corleone, Tom Hagen – naquelas condições, o ator não aceitou participar do filme. Assim, era inevitável a fraca recepção (se comparada às sequências anteriores) e ao fracasso no Oscar: apesar de sete indicações, não venceu em nenhuma.

No título original, consta a palavra “coda” que, em português, se transformou em “desfecho”. “Em termos musicais, uma coda é uma espécie de desfecho. É um resumo. E era isso que gostaríamos que esse filme fosse. Você verá um filme com um começo diferente, um final diferente. Muitas cenas foram reposicionadas e penso que o filme ganhou uma nova vida. O que, de fato, serve para elucidar o que os dois primeiros filmes significaram”, continua o diretor, quase irreconhecível, pois está mais magro, com a barba grisalha.

De fato, comparada ao longa que estreou em 1990, a nova versão começa exatamente com a cena que, na anterior, surge quando já foram transcorridos 40 minutos de projeção. Com isso, Coppola foca precisamente na relação insidiosa entre o poder da Igreja e o dinheiro corrompido. Se, os minutos iniciais antes reforçavam a importância da família e da religião para os Corleone até chegar naquele ponto, o cineasta, que hoje está com 81 anos, torna a relação o ponto central da trama.

É curioso como Coppola não escondeu, ao longo dos anos, sua insatisfação com as decisões unilaterais do estúdio em relação ao título do filme e também com a forma com que a trama é inicialmente narrada – em comentários que figuram em versões em DVD de O Poderoso Chefão III, o diretor explicita sua decepção com a falta de liberdade criativa (“naquela época, meu poder de decisão estava em baixa”) e revela que pretendia iniciar a narrativa com a cena que ora figura na nova versão, “em que o arcebispo Gilday (Donal Donnelly) relata a Michael Corleone (Al Pacino) como o Vaticano teria se metido em dificuldades financeiras”.

Coppola conta que seu colaborador Walter Murch, porém, sugeriu que seria melhor tratar antes da vida familiar e particular e depois entrar nos negócios. “Ao invés de dizer ‘não é nada pessoal, são apenas negócios’, é como se dissesse ‘não são negócios, mas assuntos pessoais’, o que definiria melhor a postura de Don Corleone. Então, decidimos começar com a cerimônia em que Michael é condecorado pela Igreja pelas generosas doações.” 

Com o novo formato, o longa que, ao longo dos anos, foi criticado pelo desenvolvimento lento e que mais parecia uma recauchutagem de seus predecessores imaculados, ganhou mais agilidade e precisão. E, ao reposicionar a cena (que, de uma certa forma, remete ao início do pioneiro O Poderoso Chefão), Coppola acerta ao deixar às claras a intenção do mafioso: Michael está saldando a dívida da Igreja Católica para legitimar os negócios da família Corleone e, não à toa, se tornar um dos homens mais ricos do mundo. Por ser um filme pródigo em excelentes diálogos, a cena termina com Gilday se lamentando: “Parece que, no mundo de hoje, o poder de absolver dívidas é maior que o poder de perdoar”. Ao que Michael retruca: “Nunca subestime o poder do perdão”.

Naquela fase da vida, Michael é um homem atormentado e em crise – exatamente como Coppola, no início dos anos 1990, quando acumulava fracassos e despertava a desconfiança da crítica, que previa encerrado seu talento. “Foi um momento em que me sentia como ele, tentando entender o que era mais importante que fama e dinheiro, e, ao decidir fazer o terceiro filme, só poderia ser com um Michael Corleone mais velho. Naquela época, eu já sabia, como ele, que a realização é ver os filhos e a família prosperarem.”

É em busca disso que Michael luta, no final da existência. Para isso, aceita a contragosto a carreira de cantor de ópera do filho Tony (Franc D’Ambrosio) e concede à filha Mary (Sofia Coppola) a presidência do instituto beneficente da família. Depois de uma vida cumprida à risca as regras de um jogo de poder (em que se sentiu obrigado até a matar um de seus irmãos), Michael busca a expiação e, quem sabe, paz.

Coppola também alterou o final do filme, que não convém aqui revelar. Apenas não foi possível “melhorar” a interpretação de Sofia. Em sua defesa, porém, a atriz Diane Keaton, que vive Kay, ex-mulher de Michael, disse, ao ver a nova montagem: “Mary tem como pai o líder de uma organização criminosa. É insegura, quieta, um tanto assombrada. Sofia foi fantástica”.

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Nos bastidores de ‘O Poderoso Chefão’, brigas, desajustados e a verdadeira máfia

Livro detalha como foi a produção de um dos melhores filmes de todos os tempos

Glenn Frankel, The Washington Post

27 de dezembro de 2021 | 12h00

O diretor tinha no currículo quatro longas-metragens nada extraordinários e um punhado de filmes de soft-porn. A maior estrela era uma ex-divindade em fim de carreira e pouco confiável que não conseguia decorar suas falas, estava profundamente endividada e encarando o terceiro divórcio. O outro protagonista era um ex-mensageiro que abandonara a escola e que os executivos do estúdio achavam muito baixo, muito velho e muito inexperiente para o papel. E o homem que supervisionava a produção era um narcisista insuportável com um crescente vício em cocaína e uma esposa glamorosa que estava prestes a trocá-lo por Steve McQueen.

Eles brigaram muito entre si e com os questionáveis gerentes da Paramount Pictures, excedendo o orçamento, o prazo e a paciência de todos os envolvidos. Mas, no final, esta equipe de desajustados entregou uma verdadeira obra-prima: O Poderoso Chefão, que o American Film Institute classifica como o segundo maior filme americano de todos os tempos (atrás apenas de Cidadão Kane, caso você esteja se perguntando).

A produção deste clássico é uma história que já foi contada, recontada, psicanalisada e explorada até o osso - veja, por exemplo, The Godfather: The Corleone Family Cookbook, apenas um volume de toda uma biblioteca de livros derivados. O filme de 1972 revitalizou Hollywood, elevou Francis Ford Coppola à categoria dos grandes diretores, resgatou a carreira de Marlon Brando e ajudou a criar uma nova geração de estrelas de cinema: Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton. O longa gerou duas sequências, uma delas brilhante (O Poderoso Chefão: Parte II), a outra meio mais ou menos (O Poderoso Chefão: Parte III). Mas será que realmente precisamos ler mais uma história de como Brando tingiu o cabelo com graxa de sapato preta, encheu as bochechas com bolas de algodão e baixou o tom de voz em duas oitavas para o teste de tela que o levou ao papel principal?

Mark Seal, que há anos escreve sobre filmes na Vanity Fair, claramente acredita que sim. E depois de resistir à ideia o máximo que pude, devo confessar que seu livro, Leave the Gun, Take the Cannoli, mesmo com esse título de piada interna, “Deixe a arma, pegue os cannoli” (uma fala improvisada no filme), me cativou com sua energia, extensa pesquisa e entusiasmo de tirar o fôlego.

São os personagens esquecidos que costumam deixar os livros de filmes mais intrigantes, e a história de Seal ganha corpo quando ele apresenta Mario Puzo, o autor sempre falido e frustrado com vício em jogos de azar e massas com alto teor de carboidratos que, num último esforço para escapar da falência, decide escrever um romance barato sobre a máfia. Apesar de sua origem ítalo-americana, Puzo não sabia quase nada sobre a máfia quando começou o projeto e fez muitas pesquisas conversando com crupiês de blackjack e operadores de roleta nos cassinos dos hotéis Sands e Tropicana em Las Vegas. “Nunca conheci um gângster de verdade”, confessou ele tempos depois.

O épico de mais de quatrocentas páginas capturou a crueldade e a brutalidade dos mafiosos, mas também seu senso de honra e sua devoção a suas famílias. “Foi um golpe genial de Puzo transformá-los em homens de família”, escreveu a crítica Maria Laurino no Wall Street Journal. E Puzo também transformou a máfia numa metáfora para a América - sua ganância, violência, ambições e traições. O romance, publicado em 1969, virou um grande best-seller: só o contrato pelos livros rendeu a Puzo US$ 410 mil. Mas Robert Evans, o playboy bonitão e agressivo que tinha a tarefa de mudar a sorte da Paramount, já havia comprado os direitos cinematográficos por meros US$ 12,5 mil, com outros US$ 50 mil se o filme fosse feito.

A Paramount não ficou muito entusiasmada. Filmes de máfia em geral eram um fracasso, entre eles o péssimo Sangue de Irmãos, recentemente lançado pelo estúdio. Mas Evans e o vice-diretor Peter Bart perceberam que a melhor maneira de resolver o problema seria contratar um diretor ítalo-americano. Eles escolheram Coppola, então aos 30 anos de idade. Ele estava profundamente cético com o projeto: “Eu era jovem e não tinha poder nenhum, então eles perceberam que poderiam simplesmente mandar em mim”, disse ele a Seal. Mas, assim como Puzo e Brando, ele também estava profundamente endividado depois de abrir seu próprio estúdio independente. Ele embolsou os US$ 175 mil dos honorários de diretor e, ainda que relutante, começou a trabalhar.

O estúdio, sempre pensando nos custos, queria atualizar a história dos anos 1940 para um cenário contemporâneo e mais barato, todo filmado nos fundos da Paramount. Coppola conseguiu reverter essas opções, além de sabotar as ideias de elenco mais bizarras do estúdio - entre elas Ernest Borgnine como Vito Corleone, papel que foi para Brando, e Robert Redford ou Ryan O’Neal como Michael Corleone, o filho mais novo de Vito e seu sucessor, papel que acabou indo para Al Pacino. Os executivos do estúdio odiavam a ideia de chamar Brando, que desperdiçara a década anterior fazendo filmes meio obscuros. Eles fizeram com que Brando pagasse uma carta de fiança de US$ 1 milhão para garantir que ele não atrasaria as filmagens e insistiram que ele abrisse mão de seu cachê habitual por uma pechincha de US$ 50 mil. Ele concordou de má vontade - e ganhou o Oscar de melhor ator.

Coppola insistiu na verossimilhança, chegando a supervisionar a cor, a qualidade e a trajetória do sangue nas cenas sangrentas de execuções. Muitas cenas eram visualmente operísticas - Coppola e o diretor de fotografia Gordon Willis mantinham a câmera numa posição fixa, criando um quadro pelo qual os atores entravam e saíam. Willis usou filme subexposto e luz baixa para produzir composições ricas em tons escuros.

Enquanto Coppola criava mafiosos cinematográficos, o produtor Al Ruddy negociava com um de verdade: Joseph Colombo, chefe de uma das cinco maiores famílias do crime de Nova York e fundador da Liga dos Direitos Civis Ítalo-Americana. Ruddy concordou em excluir os termos “máfia” e “Cosa Nostra” do filme e transferir os lucros da estreia em Nova York para o fundo hospitalar da liga. Em troca, Colombo deu sua aprovação ao projeto e proporcionou cooperação e tranquilidade dos poderosos sindicatos da cidade.

As batalhas mais duras foram entre Coppola e os executivos do estúdio, que estavam sempre ameaçando demiti-lo. “Foi a época mais terrível da minha vida”, diz ele a Seal. Ele teve uma briga feroz com Evans por causa das quase três horas de duração do filme, da música e do tom sombrio. Depois, Evans brigou com o conselho de classificação da Motion Picture Association of America, cujos censores exigiram cortes em três cenas consideradas excessivamente violentas. As cenas permaneceram; o filme recebeu classificação indicativa para maiores de 17 anos.

Tanto Coppola quanto Evans temiam que o filme fosse um fracasso. Mas uma prévia mudou tudo. Quando o filme acabou, relata Seal, fez-se silêncio. Nenhum aplauso. Nada. O público ficou pasmo com aquela obra de arte - continua pasmo desde então. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', de Coppola, com Marlon Brando no papel principal. Paramount Pictures

Os 50 anos de 'O Poderoso Chefão', por Luiz Zanin Oricchio

Longa de Francis Ford Coppola volta aos cinemas na quinta-feira com cópia remasterizada

Luiz Zanin Oricchio , Especial para o Estado

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', de Coppola, com Marlon Brando no papel principal. Paramount Pictures

O Poderoso Chefão começa no escuro. Ouve-se apenas uma linha melódica, tocada num único instrumento – o tema de Nino Rota escrito para o filme. Em seguida, entra uma voz: “Eu acredito na América”. Um rosto surge na penumbra e começa a contar sua história. A filha sofreu uma tentativa de estupro e foi barbaramente surrada por dois homens. O caso foi ao tribunal, mas os agressores saíram livres. O homem está ali para “pedir justiça”. Durante essa fala, a câmera vai recuando e o interlocutor aparece, de costas.

Ninguém esquece essa abertura de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, que volta aos cinemas na quinta-feira, dia 24, em cópia restaurada, 50 anos após sua estreia. Em 22 de março, estará disponível em plataformas digitais. 

O desenho visual da abertura é magnífico – a fotografia é de um mestre, Gordon Willis. Joga toda a cena na penumbra e revela aos poucos a figura principal do quadro, o capo, Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando. É a festa de casamento da filha do “Padrino”. Nesse dia, segundo a tradição siciliana, ele atende a pedidos. 

 

 

O sentido do diálogo entre Corleone e o homem é muito claro. “Por que você não me procurou antes, por que buscou a polícia e a justiça? Porque tinha fé na América. Pois é, nada foi feito, sua filha está no hospital, com o rosto deformado e os malfeitores continuam à solta e assim permanecerão a depender das instituições do país”. Já o Padrinho (lembre que o título original é The Godfather) se encarrega de tudo. Sob as asas do Padrinho, ninguém se sente desguarnecido. Desde que lhe beije a mão e seja leal. E que, eventualmente, no futuro, possa retribuir o favor que agora recebe. 

Ao estrear, em 1972, O Poderoso Chefão foi um choque. A própria frase inicial de Bonasera (Salvatore Corsitto) parece uma ironia, uma vez que, na época do lançamento do filme, pouca gente se atreveria a acreditar de fato na América, um país ainda enterrado na Guerra do Vietnã e em meio a uma fabulosa revolução de costumes que assustava as partes mais conservadoras da população. 

Encantada, a exigente crítica da New Yorker, Pauline Kael, escreve na época da estreia: “É um melodrama popular com raízes nos filmes de gângster da década de 30, mas expressa um novo realismo trágico e é totalmente extraordinário”. 

 

 

O chamado “filme de gângster” floresce nos Estados Unidos durante a década de 1930. Provavelmente, o boom de gênero está associado com a proibição de venda de bebidas alcoólicas, que induziu um espetacular comércio clandestino e fez a criminalidade subir às alturas. Filmes como Inimigo Público (1931), de William Wellman, Alma do Lodo (1931), de Mervyn LeRoy, Scarface, a Vergonha de uma Nação (1932), de Howard Hawks são considerados arquétipos do gênero.

Essas aventuras na época da Proibição repercutem até mais tarde. Foi famosa a série de TV Os Intocáveis (1959-1963), com o justiceiro Elliot Ness interpretado por Robert Stack. Em 1987, Brian De Palma fez o filme de mesmo título, com Kevin Costner no papel de Ness. A obra inclui até mesmo um pastiche da famosa cena da Escadaria de Odessa do clássico soviético O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein.

Mas, nesses casos, o ponto de vista é o da polícia, ou seja, do Estado. Já no típico filme de gângster, o foco é sobre o bandido. Mesmo que ele seja retratado como uma espécie de aberração, um desajustado em contraste com a sociedade sadia, esse protagonismo chegou a incomodar. Era preciso reservar a esses anti-heróis desfechos bem negativos para acomodar a ficção à moral vigente: a morte em combate com os homens da lei, a prisão ou a pena de morte. O crime é um desvio, que altera a órbita normal da sociedade. Uma vez eliminado o criminoso, o mundo volta ao seu eixo. 

Esse gênero preparou a entrada em cena do “film noir”, com a tradução para a tela dos romances de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O protagonista agora é o detetive particular, cujo tipo ideal foi encarnado por Humphrey Bogart. Alguns se tornaram clássicos, como Relíquia Macabra (1941), de John Huston, Até a Vista, Querida (1944), de Edward Dmytryk, À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks. O noir é um gênero ambíguo. O detetive flutua no limite entre a legalidade e a ilegalidade, o certo e o errado. É cético. Pode ter um fundo moral, mas não acredita nas pessoas, e menos ainda nas instituições. 

Num filme de passagem, O Segredo das Joias (1950), de John Huston, a atenção principal se detém sobre o grupo que vai assaltar uma joalheria. Trata-se de uma história de assalto fracassado, que humaniza os criminosos. Suas vidas particulares são retratadas e o desfecho trágico de um deles (Sterling Hayden) desperta a simpatia do público. Sentindo-se perdido, um advogado corrupto, Alonzo Emmerich (Louis Calhern), murmura a frase significativa: “Ora, o crime é apenas uma forma marginal do esforço humano”. 

De modo que, em parte, o caminho para O Poderoso Chefão já fora aberto por seus antecessores. Coppola dá um passo a mais. Partindo do best-seller de Mario Puzo, mescla o realismo a certo tom operístico e melodramático ao retratar o mundo da máfia. Finca seu ponto de observação no interior de uma família. Não de uma “famiglia” mafiosa caricata, mas de uma família qualquer, com seus problemas, grandezas e a soma de alegrias e desgraças que vão compondo uma dinastia, geração após geração. 

Certamente Don Vito é um homem de poder. A relação com os filhos, Michael (Al Pacino), Sonny (James Caan), Fredo (John Cazale) e Connie (Talia Shire), é a de um patriarca à moda siciliana, devotado aos seus, exigente e terno. Como construiu um império, mesmo que do crime, também tem responsabilidades com a sua comunidade. Dá proteção e apoio, exige lealdade total – como se viu naquela primeira cena, com o dono da funerária, Bonasera, que vai pedir vingança pela agressão à filha. 

 

 

Depois da cena inicial, segue-se a festa de casamento de Connie e Carlo (Gianni Russo), sequência que dura bom tempo, com cantos, danças, brindes, comes e bebes. Estamos num ambiente ítalo-americano. Não poderiam faltar a polícia e os paparazzi à porta da mansão. Nem o ator e cantor das multidões Johnny Fontane (Al Martino), figura decalcada em Frank Sinatra, que, em baixa na carreira, também tem um pedido a fazer ao pai da noiva. 

Na parte que segue à festa, veremos uma amostra do lado violento do Don, que, por intermédio do seu consigliere, Tom Hagen (Robert Duvall), precisa convencer um produtor recalcitrante a dar a Fontane o papel num filme que poderá trazê-lo à tona de novo. A frase ficou famosa, “Don Corleone faz uma oferta que o senhor não pode recusar”. Não pode mesmo. O desfecho da “oferta” é brutal.

Isso para dizer que Coppola não pode ser acusado de romantizar o ambiente e os malfeitos da máfia. Algumas cenas de violência, como o assassinato de um dos filhos, são levadas a níveis operísticos. Bem como o primeiro crime de sangue em que Michael se envolve, liquidando a sangue frio, numa cantina, dois inimigos do pai, um gângster rival e um tira corrupto. 

O balanço entre violência e ternura familiar parece tão perfeito que nos deixamos levar por esta obra nada maniqueísta. Se o lado humano figura em primeiro plano, seu caráter criminal não fica para trás. O estilo da filmagem, a mise-en-scène perfeita trabalhando no quadro do cinema narrativo, a música, a intensidade do conjunto, a força operística dos momentos mais agudos, a densidade dos personagens – tudo isso nos conquista.

Nos seduz, mas também deixa espaço para reflexão sobre o que está sendo exposto na tela. Aquele limite tão estreito entre o legal e o ilegal, já presente em filmes de gângsteres mais antigos, e em todo o cinema noir, aqui parece abolido. Por outros meios, Don Corleone conduz os negócios da família como um empresário realista ou um político pragmático. 

É metódico, planejador, arrojado, sabe negociar e conhece seus objetivos. Pode ser cruel ou conciliador. Implacável, porém generoso. É um grande dirigente, o que faz de O Poderoso Chefão uma parábola pouco disfarçada sobre o funcionamento mais geral da sociedade e, em particular, do mundo dos grandes negócios. 

Esse desmascaramento de um mecanismo torna essa obra-prima um filme político como poucos. Esse aspecto, diga-se, irá se acentuar nos Chefões 2 e 3.  

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Marlon Brando, Al Pacino e James Caan. Paramount Pictures

'O Poderoso Chefão' não é só um filme, é um monumento de cinema, diz James Caan

Ator relembra a realização do clássico que completa 50 anos e volta com cópia remasterizada

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão

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Marlon Brando, Al Pacino e James Caan. Paramount Pictures

Em 1972, James Caan já tinha quase dez anos de carreira – iniciada com um papel sem crédito em Irma la Douce, de Billy Wilder – e personagens importantes em filmes de grandes diretores como Howard Hawks (El Dorado) e o jovem Francis Ford Coppola. Justamente ele. Com Coppola havia feito Caminhos Mal Traçados/Rain People, um road movie em que dividia a cena com Shirley Knight e Robert Duvall. Fazia Jimmy, um personagem instável. O filme sombrio, e muito bom, é considerado o vestibular do diretor para o seu épico de gângsteres, O Poderoso Chefão, com roteiro dele e de Mario Puzo, autor do romance original, The Godfather

Na composição do elenco, Coppola chamou James Caan para outro personagem instável, mas de recorte diferente – Santino, também chamado de Sonny. Robert Duvall também foi convocado para o papel do conselheiro, Tom Hagen. Eram todos jovens e talentosos. Quando o filme estreou, arrebatando os Oscars de melhor filme, roteiro adaptado e ator (Marlon Brando), o impacto foi grande. “Brando estava numa fase de baixa, era considerado decadente, mas sua criação como Don Vito foi tão espetacular que, imediatamente, ele se tornou de novo o nome mais quente da indústria. Um ator do Método. Foi a inspiração para todos nós. Leo(nardo DiCaprio), Johnny (Depp), que até dirigiu um filme com ele, eu e muitos outros.” 

Seu nome completo é James Langston Edmund Caan, natural de Nova York, onde nasceu em 1940 – há 82 anos. Tornou-se conhecido somente como James Caan. Conversa pelo Zoom com o Estadão, mas, para desapontamento do repórter, a entrevista é só por áudio, sem imagem. Seria bom rever Sonny, 50 anos depois. Para comemorar o cinquentenário, O Poderoso Chefão está voltando às salas de cinema brasileiras nesta quinta, 24. A cópia está estalando de nova e permitirá que toda uma geração que só conhece O Poderoso Chefão do home video e da televisão possa ver o clássico na tela grande.

Não é só um filme, é um monumento de cinema. Como é? “A monument.” “Ah sim, mas há 50 anos ninguém sabia disso. O que sabíamos é que estávamos fazendo um bom filme, reunindo grandes talentos da época.” Música, fotografia, direção de arte, interpretação. Tudo e todos a serviço de uma prodigiosa lição de cinema narrativo. Cinéfilo de carteirinha sabe, mas não custa lembrar um pouco da história. Começa na festa de casamento da filha do Don/Brando. Rapidamente, as cenas mostram a estrutura familiar e a da organização criminosa que Don Vito Corleone controla. Mas ele está velho, quer impor limites à difusão das drogas. Sofre um atentado. No interior da família, digladiam-se duas formas de enfrentar a situação. A impulsividade de Sonny e a visão mais distanciada, fria, de Michael – Al Pacino. 

 

Michael fora destinado pelo pai para ser o orgulho da família. É herói de guerra, não participa dos negócios. Não participava, porque agora ele é que vai comandar a reação. O filme que começa com um casamento encerra-se com um batizado. O cerimonial na igreja é mostrado em paralelo com o banho de sangue que os sicários de Michael Corleone promovem para consolidar o poder dos Corleone. “O filme é sobre crime, mas Mario (Puzo) e Francis (Coppola) preferiam ver a história como sendo de família, e foi assim que o filme foi construído.” Caan lembra-se do clima nas filmagens. “Francis havia estudado o cinema de gângsteres. Mario e ele escreveram o roteiro pensando nos códigos de gênero e nas cenas que pretendiam emular. A Nova Hollywood estava nascendo, mas não tínhamos consciência disso. Do ponto de vista do estúdio – a Paramount –, o filme foi planejado para ser um grande sucesso. Superou toda expectativa. Para nós, os jovens, era como um sonho. Estar ali, contracenando com Brando.” 

“Desde o começo, os diretores e roteiristas criavam para mim papéis de durões e heróis. Francis me levava por outro caminho. Santino aprofunda a linha mais escura do Jimmy de Caminhos Mal Traçados. Jimmy é mais puro, especial. É atingido pela violência do mundo. Santino é o agente dessa violência. Vive e morre por ela. É impulsivo, ardente. Num filme sobre família, ele é o cara mulherengo que se satisfaz fora do casamento. O pai vive perguntando pela mulher e os filhos. Ele diz que tudo bem, mas é tudo bem ao jeito dele.” Dois anos depois, O Poderoso Chefão – Segunda Parte prosseguiu com a saga dos Corleone em dois tempos, contando como o jovem Don Vito, interpretado por Robert De Niro, chegou ao topo da Máfia e, em paralelo, o outro banho de sangue que Michael vai promover, para consolidar seu poder. 

Sangue e violência são ingredientes da trama, mas o tema do primeiro filme é político – a luta pelo poder numa democracia étnica. “Como Santino voltei numa participação sem crédito no segundo filme. Ainda fiz Jardins de Pedra com Francis, sobre a Guerra do Vietnã. Sonny abriu um mundo de possibilidades para mim. Sem ele, não sei se teria feito O Jogador/The Gambler (de Karel Reisz, 1974), que foi um de meus melhores papéis. Intenso, sombrio.” Francis? “Oh, ele foi crescendo. Virou uma lenda nesse negócio. Mas ainda me lembro de nós, naquela estrada – Caminhos Mal Traçados –, que foi o começo de tudo.” Haveria muito para conversar com James Caan. O escritor de Misery, à mercê da Louca Obsessão – título brasileiro – da enfermeira Kathy Bates no suspense de Rob Reiner, o patriarca de Dogville, de Lars Von TrierDepois da anunciada última pergunta, o repórter arrisca. Mais uma? “Shoot”, diz. 

É sobre Cinderella Liberty/Licença para Amar Até Meia-Noite, que fez em 1973, logo após o primeiro Chefão. O filme é sobre um marinheiro em terra firme. Baggs Jr. envolve-se com a prostituta vivida por Marsha Mason, que ganhou no jogo, numa noite de bebedeira. A licença de Baggs lhe permite ficar com ela só até a meia-noite. É a liberdade de Cinderela, do título. Mark Rydell é o diretor. “Marsha era e continua sendo uma lady.” Naquele mesmo ano, ela se casou com o dramaturgo Neil Simon, que escreveu belos papéis para ela. Os críticos, em geral, colocam o romântico Cinderella Liberty entre os seus melhores filmes. Ele concorda. “Interpretei aquele marinheiro como se fosse o meu Billy Budd, entende?” Com certeza – Herman Melville, o marinheiro belo e puro acusado de incitar um motim. A inocência corrompida pelo poder das palavras. Há um pouco disso no Michael de O Poderoso Chefão

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', com Marlon Brando Paramount Pictures

Clássico do Dia: 'O Poderoso Chefão', uma trilogia de notável coerência, ética e estética

O crítico do 'Estadão' Luiz Carlos Merten seleciona obras valiosas do cinema; os cultuados filmes dirigidos por Coppola contam com as marcantes atuações de Marlon Brando e Al Pacino

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', com Marlon Brando Paramount Pictures

É um daqueles casos em que as preças demoraram para se ncaixar no quebra-cabeças. Na série Clássico do Dia, já houve filmes como Casablanca e O Intrépido General Custer, em que mudaram diretor e elenco. Como teriam sido, se o planejamento inicial tivesse sido mantido? Jamais saberemos, mas com certeza não seriam esses clássicos. Poderiam até ser outros. Ocorreu com O Poderoso Chefão. Por volta de 1970, a Paramount era um estúdio falido. Precisava desesperadamente de um grande sucesso. Robert Evans, catapultado ao cargo de diretor geral de produção, conseguiu transformar Love Story num megassucesso.

Na origem do filme estava o livro - best seller - de Erich Segal. Se deu certo uma vez, não custa tentar de novo. A Paramount anunciou, com todas as fanfarras, a produção do maior filme de gangsteres de todos os tempos, adaptado do livro de Mario Puzo. The Godfather, literalmente O Padrinho - no Brasil, O Poderoso Chefão. Adquiridos os direitos, começou a batalha por um diretor. O primeiro cogitado foi Sergio Leone, mas ele declinou poque queria fazer o próprio filme de gângsteres - Era Uma Vez na América. Peter Bogdanovich e Costa-Gavras também foram sondados e disseram não. A cúpula da Paramount passou a buscar um diretor ítalo-americano. Francis Ford Coppola foi chamado e disse não. Temia que a Máfia e a violência fossem glorificadas. Ao fim de muitas reuniões de trabalho com Puzo e Robert Evans, Coppola convenceu-se de que seria possível abordar o tema como metáfora do capitalismo norte-americano.

Escreveu o roteiro com Puzo, e o estúdio, que monitorava o andamento do projeto, cobrava mais emoção e mais violência, sob pena de decepcionar o público. Começou outra batalha. A Paramount via Ernest Borgnine no papel de Don Vito Corleone. Coppola discordava. Da forma como via o personagem - shakespeariano, maior que a vida – queria um Laurence Olivier, ou um Marlon Brando. Olivier chegou a ser contactado, mas seu assistente respondeu que ele estava doente, praticamente morrrendo, e não poderia entrar numa filmagem desgastante. Como desculpa valeu, mas talvez não correspondesse à realidade. Olivier sobreviveu mais quase 20 anos, após o convite. Marlon Brando, não. O estúdio não se esquecera das dificuldades que teve com ele em A Face Oculta, quando Brando demitiu o diretor Stanley Kubrick e assumiu a realização, aumentando o orçamento e desrespeitando prazos. Coppola negociou e conseguiu que Brando fizesse um teste. Aprovado, ele teve de firmar um acordo pelo qual pagaria multa, caso retardasse o cronograma.

Resolvido o problema do chefão, restava o do filho, Michael, que manobra para assumir o controle do império do pai, quando Don Vito quase morre. A Paramount sugeriu Robert Redford, ou Ryan O'Neal, dois protótipos de galãs wasps, de pele e olhos claros. Coppola queria um ítalo-americano. Al Pacino saiu melhor que a encomenda e teve a extraordinária carreira que todo cinéfilo sabe. A filmagem durou de março a agosto de 1971 - foram 77 dias, uma semana menos que os 83 previstos no planejamento. Começa com a festa de casamento de Connie e a cerimônia do beija-mão, quando os convidados vão apresentar seus respeitos a Don Vito ou pleitear sua interferência em assuntos que os afligem. Johnny Fontane/Al Martino, o cantor que anima a festa, pede ajuda ao padrinho para dobrar o produtor que está empatando sua carreira.

Johnny é inspirado em Frank Sinatra, e o recado que Don Vito manda ao produtor não poderia ser mais brutal - ele acorda com a cabeça decepada de seu alazão de US$ 500 mil na cama. Coppola exigia uma cabeça de verdade. Associações de proteção a animais mobilizaram-se contra, mas ele teve sua cabeça, garantida por uma companhia que preparava ração para cães. Partindo da comemoração, o filme logo estabelece seu plano - a luta pelo poder numa democracia étnica. Don Vito sofre um ataque do coração e, no hospital, Michael consegue frustrar um atentado contra a vida do pai.

São três filhos - Sonny, esquentado demais para conduzir os negócios da família; Fredo, débil demais, um filhinho de mamãe; e Michael, que se revela um estrategista frio. Herói de guerra, realiza ele próprio a execução do policial corrupto McCluskey. Com a cabeça a prêmio, foge para a Itália. Casa-se, mas a mulher morre num atentado e Michael regressa à América para acertar contas e consolidar o poder da família Corleone. Para isso é preciso um massacre - a morte dos inimigos fornece o gran finale, uma sucessão de assassinatos enquanto Michael, na igreja, torna-se padrinho da filha da irmã. A essa altura ele já reatou com a namorada americana, e Kay (Diane Keaton) torna-se sua mulher, mas ela não se sujeita ao modelo de dominação masculina da organização. O final, do ponto de vista de Kay, mostra a repetição do beija-mão do princípio, mas agora o chefão, o padrinho, é Michael. Com quase três horas de duração - 175min -, O Poderoso Chefão oferece uma das mais completas (perfeitas?) lições de cinema narrativo da história. Coppola e Puzo em nenhum momento perdem o controle das situações, e dos numerosos personagens.

Entre o casamento, no começo, e o massacre, no fecho, o filme é pródigo em grandes cenas. Algumas - Sonny batendo no marido abusivo da irmã e sendo atraído à cilada para ser fuzilado; a morte de Don Vito; a mortandade. O Poderoso Chefão venceu os Oscars de melhor filme, roteiro adaptado e ator, Marlon Brando. Como raras vezes ocorreu ao longo da história, a Academia não honrou a escolha do Director's Guild - Coppola - e atribuiu a estatueta da categoria a Bob Fosse, por Cabaret. A fotografia de Gordon Willis e a trilha de Nino Rota mereciam prêmios, mas não levaram. O compositor alimentou-se da sua trilha para o clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. Coincidência ou não, o repórter sempre identificou em Michael Corleone o idealismo de Rocco no Visconti, e ambos são arrastados pela violência do mundo (o crime, para um, o boxe, para outro). O próprio Coppola disse que nunca pensou dessa maneira, mas considerava lisonjeira a comparação do repórter - Rocco, concorda ele, é um dos grandes filmes do cinema. É sobre família, lealdade - como o primeiro Chefão.

Depois que o filme arrebentou na bilheteria e foi prestigiado no Oscar, Coppola e Puzo foram cooptados a fazer uma sequência. Surgiu O Poderoso Chefão Parte II, que venceu os principais Oscars de 1974 - melhor filme, direção, roteiro adaptado, ator coadjuvante (Robert De Niro), etc. A originalidade do conceito desse segundo filme está no fato de que Coppola e Puzo contam duas histórias paralelas - a do jovem Vito, no passado, mostrando como ele se tornou chefão, e a de Michael, no presente, consolidando seu poder na organização, e isso significa enfrentar uma investigação do Congresso e eliminar integrantes da própria família (Fredo). Na parte 2 está o diálogo do advogado da família, o conseglieri Tom Hagen (Robert Duvall), em que ele detalha a organização militar da Máfia/Cosa Nostra com base no Império Romano. Também mostra as famílias de mafiosos estendendo seu império em Cuba. Numa cena emblemática, fatiam um bolo que tem a forma da ilha, cada um reivindicando seu pedaço, mas ocorre a revolução de Fidel Castro, que coloca os gringos a correr.

Michael, mais uma vez, impõe-se a seus inimigos, mas o filme termina com a imagem dele como um velho solitário. Vitorioso, ou derrotado? O dilema retorna no 3, que Coppola e Puzo realizaram em 1990, colocando no centro da história o escândalo do Banco Ambrosiano, do Vaticano. Michael, cada vez mais legitimado, lava o dinheiro do crime no banco da Igreja. Ele volta às origens, à Sicília, preparando seu sucessor, o sobrinho Vicenzo/Vinny, filho ilegítimo do irmão, Sonny. O Poderodso Chefão Parte III termina com um novo massacre, mas em vez do batizado, na Igreja, como no primeiro filme, a matança ocorre durante a encenação da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni.

Há controvérsia em relação a esse terceiro filme, que não repetiu o sucesso de público e crítica dos anteriores, mas, de certa forma, é o mais pungente de todos. A trama inclui (elucida?) até o que teria sido o assassinato do papa João Paulo I e, no plano mais íntimo, Michael e Kay reaproximam-se porque o filho deles é o diretor da ópera dentro do filme. Coppola manteve sempre o núcleo central de elenco (Al Pacino, Diane Keaton, Robert Duvall, Talia Shire), agregando novos nomes segundo a exigência de cada novo filme. Ele pretendia fazer Parte III com Winona Ryder, mas no último momento ela foi substituída pela filha do diretor, Sofia Coppola, no papel da filha de Michael (e Sofia já havia sido o bebê no batizado do primeiro Chefão). No tiroteio na escadaria da Ópera - ecos de O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein -, a garota é atingida, e morre. Filmar a morte da filha, mesmo que fictícia - e simbólica -, confere uma dimensão particular à tragédia de Parte III. Michael, o velho Pacino, urra feito bicho ferido. Destituído de seu poder, como Vito no primeiro filme, é apenas um velho patético naquele jardim que cheira a morte. Nem todo o poder do mundo preenche o vazio que corrói o coração de um homem. Há algo de fordiano nessa confissão final de derrota.

Na tentativa de atingir o pai, a crítica demoliu a filha. Sofia recebeu as piores críticas jamais atribuídas a uma jovem atriz. Desistiu da carreira frente às câmeras e virou a diretora - autora - que os cinéfilos sabem. A cada um o direito de escolher seu melhor Chefão. O que não cabe dúvida é que os três filmes compõem um bloco de notável coerência, ética e estética. Uma saga como a da família Corleone nunca houve, e nunca haverá. O Poderoso Chefão Parte 2 fez história como única continuação a vencer o Oscar de melhor filme. Pensados conjuntamente, os três filmes se tornam progressivamente mais sombrios, enquanto a corrupção gerada pelo poder resulta em completa degradação moral. Coppola, que iniciara a década de 1970 como um cineasta promissor, fechou-a com a ópera antimilitarista de Apocalypse Now, ou como a 'América' enterrou-se na guerra bilionária do Vietnã - e terminou perdendo para as táticas de guerrilha dos vietcongues. Hoje, sabe-se que Coppola quase foi demitido do primeiro Chefão e, falido, escrevia febrilmente o roteiro de O Grande Gatsaby - que virou filme de Jack Clayton -, enquanto The Godfather não estreava.

O sucesso, que superou toda expectativa, levou a Paramount a fazer-lhe uma oferta irrecusável - Parte 2 -, com direito a participação nos lucros. Ofertas irrecusáveis é o que Don Vito e Don Michael fazem a seus inimigos ao longo dos 547 (175 + 202 + 170) minutos dos três filmes. Coppola ganhou rios de dinheiro com Parte 2 e empatou tudo no seu épico sobre o Vietnã. Iniciou os 80 falido, de novo, mas nunca desistiu de recomeçar - com o vídeo de O Fundo do Coração, de 1982. O gosto pela experimentação levou-o, seis anos mais tarde, a Tucker - Um Homem e Seu Sonho, sobre o inventor que criou o carro do futuro e não conseguiu furar o bloqueio das grandes montadoras. Logo veio Parte III. Como 'autor' foi sempre assombrado pelos espectros do sucesso e do fracasso. Michael, num certo sentido, sempre foi ele.

Os três filmes estão disponíveis no streaming do Telecine e no YouTube.

 

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