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Neil Gaiman aumentou sua participação na 3ª temporada de ‘American Gods’

Quando escreveu o livro, Gaiman falava do caldeirão cultural americano, com diferentes culturas e crenças, e da contribuição dos imigrantes - e ela era vista como positiva. De lá para cá, as coisas mudaram

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADO

09 de janeiro de 2021 | 14h00

A primeira coisa que Neil Gaiman diz quando ouve que a jornalista é do Brasil é: “Eu amo o seu país. Tive sorte de ir três vezes e continuo querendo voltar, mas aí acontecem coisas como a covid. Um dia, eu volto”. A conversa é sobre American Gods, a série baseada em seu livro lançado em 2001, sobre os Estados Unidos habitados por deuses antigos e novos das mais diversas origens e culturas. A terceira temporada chega ao Amazon Prime Video, na segunda-feira, 11. 



A jornada de American Gods na televisão é quase tão acidentada quanto a de seu personagem principal, Shadow Moon (interpretado por Ricky Whittle). Após a primeira temporada, houve troca de showrunners, ou seja, os responsáveis para que o programa de fato aconteça. Na segunda, foi ainda pior, já que o showrunner saiu no meio. A terceira não foi diferente. Além de um novo showrunner, o ator que fazia Mr. Nancy, Orlando Jones, deixou a série atirando para todos os lados. Segundo a produção, a explicação para a saída de Jones e outros atores é simples: Shadow se refugia na pequena Lakeside, tentando levar uma vida normal entre humanos, o que deixou pouco espaço para outros personagens. 

Pelo menos, Gaiman está mais presente do que nunca. “Foi estranho estar na posição de ser o elemento de estabilidade, porque perdemos showrunners, produtores, atores”, disse Gaiman em entrevista com a participação do Estadão, via conferência digital. “Mas foi bom por muitas razões, inclusive centrar em Shadow, como eu sempre quis, e explorar o charme de Ricky Whittle na tela, que ele nunca teve chance de mostrar.”

Durante uma semana no festival South by Southwest, Gaiman reuniu-se com o showrunner Charles Eglee para falar sobre a terceira temporada. “Tentamos voltar mais ao livro, às coisas de que as pessoas gostam nele”, disse Gaiman. “Foi uma sorte que estamos na parte de Lakeside, uma das favoritas dos fãs.” Para Whittle, Shadow está numa jornada de autodescoberta. “Ele agora sabe que é um semideus e está tentando investigar quem é e o que é capaz de fazer”, disse o ator. 

Com os outros personagens, é mais complicado, porque no livro eles estão fora das páginas. Não sabemos o que Wednesday (Ian McShane) está fazendo, nem Laura (Emily Browning). Mas eles aparecem, assim como Tech Boy (Bruce Langley), que precisa lidar com uma nova versão de Mr. World (Dominique Jackson, de Pose) e Bilquis (Yetide Badaki).



 

Guiado por Orixás


Uma das coisas que Eglee sugeriu foi que os orixás Chango (o rapper Wale) e Oshun (Herizen Guardiola), que não existem no livro, se manifestassem. “Eu adoro a cultura iorubá”, disse Gaiman. “E uma coisa importante é que, no livro, Shadow é mestiço, como os Estados Unidos são, ou o Brasil. E sabemos o porquê”, completou o autor. Na temporada anterior, a paternidade do protagonista foi revelada. Mas, mesmo que também tenha origens miscigenadas, a cor da pele de Whittle é negra.

“Tínhamos de incorporar isso, contrabalançar sua origem paterna. E, para isso, introduzimos os orixás.” Whittle não quis entrar em detalhes sobre os novos deuses por serem parte essencial na trajetória de Shadow. “São como seus guias, tentando direcioná-lo para o caminho correto, mostrando sua história e seu passado. É um reconhecimento à sua ancestralidade negra e africana.”

Quando escreveu o livro, Gaiman falava do caldeirão cultural americano, com diferentes culturas e crenças, e da contribuição dos imigrantes - e ela era vista como positiva. De lá para cá, as coisas mudaram. “É impressionante ver pessoas chateadas porque temos um elenco diverso”, afirmou. 

Ele jamais imaginou que, 20 anos mais tarde, American Gods seria tão relevante. O romance fala de como o passado nunca morre - suas consequências ficam para o presente e o futuro - e trata de fé e de crença. “O maior problema que enfrentamos agora é esse: em que as pessoas acreditam?”, disse Gaiman. “Os países que aplicam a ciência combatem o coronavírus com mais eficácia. E, em lugares como os Estados Unidos, as pessoas estão indo à justiça para rezar juntas em grandes grupos e transmitir covid uma para as outras, alegando direito à religião.” Neil Gaiman não sente, porém, nenhum orgulho de seu livro fazer mais sentido que nunca, duas décadas depois. “Eu preferiria estar discutindo essas coisas como se fossem o passado.”


 

 

‘Vi a beleza da diversidade’, revela o ator Ricky Whittle


Poderemos ver alguns momentos felizes do Shadow nesta temporada?

Garanto que você vai ver os dentes de Shadow! Ele vai sorrir. Quando o conhecemos, estava morto por dentro. E aí ficou cheio de frustração e raiva ao conhecer um mundo cheio de deuses, duendes e esposas mortas. Agora, deixou tudo para trás e foi morar em Lakeside. Está tentando ter uma vida normal. É a primeira vez que ele está cercado por humanos. Infelizmente, estamos em American Gods, e a felicidade nem sempre dura, especialmente para Shadow Moon.


Vê algum paralelo entre você e seu personagem?

Shadow me inspira. E então eu gostaria de pensar que, sim, temos coisas em comum. Ele é um personagem muito ético. Quando o conhecemos na primeira temporada, ele está um caco. Perdeu sua esposa, seu melhor amigo. Na segunda temporada, descobrimos que ele perdeu sua mãe quando tinha 15 anos e nunca conheceu seu pai. É um homem que não teve nada em sua vida, mas continua seguindo em frente de maneira positiva, tratando as pessoas com respeito, amor e leveza. Para mim, é lindo alguém passar por tantas adversidades e ainda ter uma visão positiva da vida e da raça humana. 


O que descobriu sobre si mesmo ao interpretar Shadow?

Aprendi a beleza da diferença e da variedade. É uma plataforma fantástica para divulgar a beleza de diferentes raças, gêneros, nacionalidades, orientações sexuais. Não dizemos que um é bom, outro é mau, apenas mostramos a beleza de cada pessoa individualmente. E eu aprendi muito sobre a cultura tradicional indígena com Sam Crow, e a muçulmana com Salim, por exemplo. 


Acha que isso pode abrir os olhos das pessoas também?

Espero que sim, que percebam a beleza de cada pessoa diferente que retratamos na série. Sinto que o medo vem da falta de conhecimento, a divisão vem da falta de consciência e respeito. Positividade gera positividade. Então, quero que se divirtam com a série, mas também aprendam um pouco sobre a beleza que todos nós temos por dentro. 

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