Devin Oktar Yalkin/The New York Times
Devin Oktar Yalkin/The New York Times

Michael Gandolfini e o enigma de Tony Soprano

Ele é filho do ator James Gandolfini, que interpretou o ameaçador, mas inegavelmente cativante chefe da máfia Tony Soprano por seis temporadas em 'Família Soprano'; agora, Michael repete o papel que foi do pai em 'The Many Saints of Newark'

Dave Itzkoff, The New York Times

25 de setembro de 2021 | 15h00

Quando Michael Gandolfini estava filmando seu papel em The Many Saints of Newark, um drama policial de época que o coloca como um adolescente encrenqueiro precoce chamado Tony Soprano, ele teve problemas para dormir e ficava acordado até tarde trabalhando em suas cenas para o próximo dia.



Às vezes ele refletia sobre as motivações de seu personagem, cuja lealdade é dividida entre duas figuras paternas: seu pai geralmente ausente, um gângster de New Jersey chamado Johnny Boy; e o protagonista do filme, um carismático mafioso chamado Dickie Moltisanti.

Em seus esforços para entrar no personagem, Gandolfini tentaria identificar-se com o desejo de Tony de agradar os dois homens. Ele seria atraído para Johnny Boy e repetiria o desejo para si mesmo como um mantra.

Gandolfini lembrou-se recentemente, “Eu sempre pensava assim, ‘Quero deixar meu pai orgulhoso. Quero deixar meu pai orgulhoso’”.

Não foi preciso chamar um psiquiatra para desvendar o que isso tudo significava. “É claro que era algo dentro de mim”, ele disse.

Gandolfini é filho do ator James Gandolfini, que interpretou o ameaçador, mas inegavelmente cativante chefe da máfia Tony Soprano por seis temporadas da reverenciada série da HBO, Família Soprano, e que morreu subitamente de um ataque do coração aos 51 anos em 2013.

Gandolfini, 22, herdou muitas características de seu pai famoso. Eles compartilham do mesmo olhar profundo e dos sorrisos maliciosos; como seu pai, Gandolfini tem uma fala suave com um vocabulário ácido e admite ter um temperamento, por vezes, questionador.

E quando Gandolfini - que nasceu quatro meses depois que Família Soprano estreou em 1999 e mal assistiu a série antes de se preparar para The Many Saints of Newark - pensa em seu pai, ele não evoca Tony Soprano, o personagem maior que a vida. Ele se lembra de James Gandolfini, o homem.

Ele valoriza os bons momentos que tiveram, resmunga sobre as lições de vida que seu pai impôs, o admira como ator e sente sua falta como qualquer criança sentiria de um pai levado muito cedo.

“Eu não estava realmente consciente de seu legado”, Gandolfini disse. “Meu pai era só meu pai”

Agora, enquanto se dedica à sua promissora carreira de ator, Gandolfini está conscientemente e irrevogavelmente ligando-se a seu pai com The Many Saints of Newark; em seu papel cinematográfico mais importante até o momento, ele interpreta o papel de excelência de James Gandolfini - um dos mais comentados e influentes personagens na história da TV - em uma idade mais jovem e mais inocente.

 


Com essa decisão surgem exigências - corresponder às expectativas do público e chegar à altura de seu pai -  o que Gandolfini previu. Mas há uma responsabilidade adicional que ele não considerou até começar a fazer o filme.

“A pressão é real”, ele disse. “Houve medo. Mas a segunda camada na qual muita gente não pensa, e que foi muito mais difícil, é interpretar Tony Soprano.” Quando ele entrou no papel, Gandolfini disse, “não foi apenas expressar o sentimento de meu pai; era, tipo, Tony Soprano é um (palavrão) personagem difícil.

Para se preparar, Gandolfini estudou Família Soprano em detalhes pela primeira vez. Antes, só havia visto relances do piloto, mas agora assistiu a primeira temporada de 13 episódios sozinho, sabendo que seria um processo emocional. “Foi difícil assistir ao meu pai sozinho e não ter ninguém em quem me apoiar,” ele disse.

Conforme assistia seu pai interpretar o personagem, Gandolfini percebeu que sua única conexão como filho não lhe ensinou nada sobre ser Tony Soprano.“Talvez eu soubesse como interpretar meu pai”, ele disse, “mas não sei como interpretar Tony. Tenho que criar meu próprio Tony a partir da minha vida e ainda interpretar as coisas que o fizeram ser Tony”

E ele ficou totalmente fascinado com o multifacetado Tony - “um personagem que vai chorar, ficar bravo consigo mesmo por estar chorando e depois rir de si mesmo em uma mesma cena”, ele disse.

Gandolfini estava determinado a assimilar as peculiaridades físicas e os tiques que viu na atuação de seu pai: o andar desajeitado de Tony e sua postura curvada; a forma com a qual mordia os lábios quando sorria e cerrava os punhos nas sessões de terapia.

Depois de um processo de testes de uma semana, Gandolfini saiu com o papel e uma nova visão de seu pai. “Ele não tinha nada a ver com Tony”, ele disse. “A única coisa que acho que ganhei foi um profundo orgulho dele. Estou exausto após três meses; você fez isso por nove anos?”

Alan Taylor, diretor de The Many Saints of Newark, disse que teve dúvidas sobre Gandolfini fazer testes para o papel. “Eu nunca o tinha visto atuar”, Taylor disse. “Não sabia se ele conseguiria e não sabia se era a coisa certa, emocionalmente, pedir-lhe que fizesse. Porque era pedir para que um jovem entrasse em um território muito explosivo”.

Mas Taylor, que dirigiu vários episódios de Família Soprano, disse que foi vencido pelo teste cuidadosamente preparado de Gandolfini - e pelos comentários que Gandolfini fez a seus colegas em um jantar logo antes que as filmagens começassem.

Taylor se lembra, “Ele se levantou e disse, ‘Eu quero agradecer a todos aqui por me darem a chance de dizer olá e adeus novamente para o meu pai’. Depois desse dia, nunca mais tive dúvidas”.

Nas semanas antes da produção, Gandolfini passou um tempo conhecendo Alessandro Nivola, que interpreta Dickie Moltisanti, indo a lanchonetes, conversando sobre a vida e assistindo Dirty Harry juntos.

Esses exercícios foram necessários, Nivola disse, porque o filme não é nada sentimental na forma de retratar a relação entre Dickie e Tony. “Não falamos sobre o quanto nos amamos”, ele disse. “Então esse sentimento tinha que existir sem a necessidade de colocá-lo em palavras”



Nicola disse que foi fácil se conectar com Gandolfini pela importante oportunidade que o filme representava para ambos.

“Ele, por estar no início de sua carreira e saber que seria definido tão cedo por esse papel que originalmente foi de seu pai, e eu por estar atrasado em minha carreira para fazer uma pausa”, Nivola disse. “Ele foi incrivelmente humilde e me disse, de uma forma irritante, que estava confiando na minha experiência para guiá-lo.”

O que mais o impressionou sobre Gandolfini, Nivola disse, “foi sua habilidade de remover completamente a conexão sentimental, pessoal e genética que ele tinha com seu pai e o legado do papel e abordá-lo friamente, da mesma forma que você faria com qualquer outro papel”.

Com uma risada, Nivola acrescentou, “Você poderia dizer que esse tipo de compartimentação é qualidade de um psicopata, mas também de pessoas capazes de atuar nesse tipo de situação”.

Jon Berthal, que interpreta Johnny Boy, disse que ele e Gandolfini conversaram antes das filmagens sobre o fardo que sentiam de corresponder aos padrões de James Gandolfini - fardo que cai desproporcionalmente nos ombros de Michael Gandolfini.

“Ele falou para mim sobre essa missão que tinha de conhecer seu pai melhor”, Bernthal disse. “Tentar entrar nos sapatos do pai de Mike é uma tarefa impossível para todos nós, mas especialmente para ele. E Mike fez isso o tempo todo, com o rigor de seu trabalho e com tudo que colocou nele”.

Apesar de serem de gerações diferentes, Bernthal, de 45 anos, disse que ficou surpreso com a facilidade com a qual se conectou com Gandolfini como colega e amigo.

“Seu pai era meu ator favorito, e acho que ele está se esforçando muito para ser o tipo de artista que seu pai era”, Bernthal disse. “Da mesma forma, eu também estou. Nós dois temos essa responsabilidade. É notável que eu possa ir até esse homem, que tem a metade da minha idade e pedir conselhos assim como ele vem até mim. Ele tem uma sabedoria para além de sua idade e é um ator comprometido e talentoso.”


TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

 

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