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Masculinidade tóxica no centro da série 'Beartown'

Ambientada em uma pequena cidade da Suécia, trama que chega ao fim nesta segunda (22) na HBO, é um extrato da sociedade em que vivemos

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

21 de março de 2021 | 05h00

Na televisão, cidades pequenas viraram o cenário perfeito para investigar problemas profundos da sociedade desde pelo menos Twin Peaks, de David Lynch. Não é diferente com a série sueca Beartown, criada por Peter Grönlund com base no livro de Fredrik Backman, que exibe seu quinto e último episódio nesta segunda-feira (22), às 21h, na HBO e tem todos os episódios disponíveis na HBO Go. “É como se fosse um extrato da sociedade que permite falar dos tempos que vivemos, do ser humano, as dinâmicas entre as pessoas, só que concentrado nesse universo pequeno”, disse Grönlund em entrevista com a participação do Estadão, por videoconferência. “E é uma atmosfera quase incestuosa.”

A pequena Beartown vive uma depressão econômica, com a perda de uma fábrica. O único orgulho da cidade é o time de hóquei, e agora ele também está ameaçado de perder sua arena. Peter (Ulf Stenberg) é um ex-jogador da NHL (National Hockey League americana) que cresceu ali e volta para treinar o time depois de viajar o mundo como profissional. Ele enfrenta a pressão dos moradores, dos dirigentes, dos pais dos jogadores. Seu antigo rival Mats (Tobias Zilliacus), que nunca conseguiu se destacar no jogo e virou um poderoso e rico empresário, é pai do astro do time, Kevin (Oliver Dufaker). A filha de Peter, a adolescente Maya (Miriam Ingrid), está tentando se encaixar no seu novo ambiente e acaba no alvo de Kevin.

A união de cidade pequena, a paixão por esportes e o universo teen faz com que Beartown remeta a Friday Night Lights – tirando, é claro, que no lugar da ensolarada paisagem texana há o gelado cenário do norte da Suécia. Mas a minissérie nórdica é bem mais compacta e focada no ambiente nocivo criado pelo misto de depressão econômica, falta de perspectivas e cultura do vale tudo para vencer, que resultam em masculinidade tóxica, homofobia, machismo, xenofobia e preconceito. “A série fala de masculinidade tóxica”, explicou Grönlund. “Foi isso que me interessou no projeto. O hóquei é uma ilustração de um problema maior da sociedade, essa masculinidade tóxica e violenta com suas normas que nos controlam e ditam a agenda. Por isso foi interessante ter Maya, uma mulher, navegando esse espaço.”

A atriz Miriam Ingrid acha que o movimento Me Too contribuiu para a onda de filmes e séries falando sobre os efeitos da violência sexual na pessoa que sofre, na família e na comunidade como um todo. “Eu acho importante abordar isso, ajuda quem passou pela mesma coisa a contar sua história”, disse ela. “Se ficarmos quietos, ninguém saberá o que aconteceu. Fora que, ao mostrar o que acontece, as pessoas aprendem o que é certo num relacionamento e o que não é.” 

Grönlund contou que achava importante mostrar o estupro. “Não queria deixar na dúvida se tinha ou não acontecido”, explicou. “Eu queria que fosse explícito, mas sem exploração. A violência é resultado dessa cultura do vencedor, que ao vencedor tudo é permitido, inclusive tomar o corpo do outro.” 

Sendo homem, ele acredita que precisa apontar o espelho para si mesmo. “E eu faço isso constantemente, porque eu sou parte do problema”, disse o diretor. “Eu lido com questões como masculinidade tóxica e sociedade que privilegia o vencedor. Cresci rodeado de mulheres e tenho uma família – somos eu e três mulheres. Esta é uma história muito pessoal para mim, mesmo que não tenha escrito. Tenho total consciência desses assuntos e, como homem, eu preciso lidar com isso também.”

 

Mas Peter Grönlund prefere levantar questionamentos e não oferecer muitas respostas. “As perguntas se referem aos tempos em que estamos vivendo, nosso status individual versus o coletivo. Houve épocas em que cuidávamos uns dos outros, não às custas do indivíduo, mas para beneficiar a jornada de cada um. Então é um comentário político. Hoje em dia, com essa cultura do vencedor nessa sociedade individualista, as pessoas sentem que precisam tirar outras do caminho para alcançar seus objetivos. E isso é perigoso.”

Por isso, ele não teme que a paisagem gelada e o hóquei como fio condutor impeçam que o público brasileiro aprecie a série. “É uma história humana, que diz respeito a todos nós.”

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