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‘Laetitia’, verdadeira joia do drama policial chega à HBO

Do diretor Jean-Xavier de Lestrande, 'Laetitia' é uma minissérie angustiante e impecavelmente baseada em um caso de assassinato de 2011 que prendeu a atenção de toda a França

Mike Hale, The New York Times

01 de setembro de 2021 | 10h00

O diretor francês Jean-Xavier de Lestrande ganhou o Oscar de melhor documentário de longa-metragem em 2002 por Murder on a Sunday Morning, sobre um adolescente negro acusado injustamente de um assassinato na Flórida, e um Peabody em 2006 por The Staircase, sua influente série a respeito de um incrível julgamento por assassinato na Carolina do Norte. Nos Estados Unidos, ele tem fortes credenciais como um realizador de documentários de crimes.



Ele também tem experiência como diretor de ficção, mas seus esforços nessa empreitada não receberam destaque nas telas americanas. Isso tudo mudou nesta segunda-feira, 30, quando Laetitia, uma minissérie angustiante e impecavelmente baseada em um caso de assassinato de 2011 que prendeu a atenção de toda a França, estreia na HBO.

De Lestrade escreveu Laetitia com Antoine Lacomblez, seu parceiro em duas excelentes minisséries anteriores, Três Vezes Manon e Manon, 20 years. Assim como Laetitia, elas contam a história de uma adolescente cuja vida conturbada a coloca na órbita do judiciário francês e do sistema de proteção de menores.

Quase no mesmo instante em que a série começa, a personagem-título de Laetitia, de 18 anos, é declarada desaparecida e está supostamente morta. Sua scooter é encontrada caída na estrada nas proximidades do lar adotivo provisório onde ela vive com sua irmã gêmea, Jessica, no oeste da França. Ao longo de seis episódios, usando a investigação policial de seu desaparecimento como base para seu próprio exame sociológico, De Lestrade e Lacomblez elaboram um retrato sombrio de uma sociedade provinciana repleta de raiva e violência masculinas e uma burocracia cujas boas intenções podem ser prejudicadas por cortes no orçamento, postura política e desmoralização.

Laetitia parece um drama policial, mas não é um mistério que adota um formato clássico com ganchos ao final de cada episódio ou revelações chocantes. A identidade do assassino fica clara logo no início, e ele não tem nenhuma história de fundo com Laetitia. A série não faz questão disso, mas podemos ver o que os dois têm em comum, e talvez o que os conecta, infâncias marcadas por pais abusivos.

O que também fica evidente é que a história é muito mais a respeito de Jessica do que sobre Laetitia. A gêmea sobrevivente mostra-se compreensivelmente traumatizada, mas, também, curiosamente reticente durante o andamento da investigação. De Lestrade usa saltos no tempo para frente e para trás com fluidez impressionante, mostrando-nos a evolução comovente das meninas de uma família despedaçada para um lar provisório e para a aparente felicidade e estabilidade com os pais adotivos temporários. Ele nos mantém um pouco à frente da investigação policial, dando-nos informações de um modo que cria uma consternação cada vez maior.

 


Os acontecimentos do caso real, que ocorreu perto de Nantes no início de 2011, foram uma combinação bizarra de eventos deprimentes aleatórios e dramáticos de modo tão improvável que talvez desafiam sua retratação como documentário. (Um livro best-seller a respeito do caso no qual a série foi baseada também o transformou em ficção.) De Lestrade e Lacomblez usam sua permissão para configurar a história, mas não a tornam sensacionalista de forma alguma - a atmosfera é de reserva melancólica, beirando, mas não se rendendo ao desespero.

Eles são ajudados por um excelente elenco, liderado pelas duplas de jovens atrizes que interpretam as gêmeas em idades diferentes. Sophie Breyer e Marie Colomb, que interpretam Jéssica e Laetitia com 18 anos, são muito boas; porém ainda mais comoventes e poderosas são as duas crianças, Léwine Weber e Milla Dubourdieu, que as interpretam com 6 anos. Elas capturam perfeitamente a combinação angustiante de inocência e experiência das meninas. De Lestrade as mostra constantemente correndo, brincando e pulando nas camas, uma exuberância que contrasta de forma gritante com a súbita imobilidade delas quando a violência ou a loucura surge ao seu redor.

A narrativa de De Lestrade raramente parece forçada, exceto por alguns momentos, como quando um policial cheio de escrúpulos (Yannick Choirat) ou um juiz compassivo (Cyril Descours) fazem um discurso ligeiramente artificial a respeito das divisões de classe ou da arrogância política. (Em 2011, o presidente conservador francês Nicolas Sarkozy usou o caso para atacar o sistema judicial por ser muito tolerante com a reincidência.) O idealismo do policial e do juiz representam De Lestrade, e você pode percebê-lo trabalhando para manter isso sob controle, para fazer seu discurso ao público de forma discreta. A certa altura, enquanto os dois personagens conversam hipocritamente um com o outro sobre a patologia masculina, uma funcionária ao fundo se vira e lhes dá uma rápida olhada por cima do ombro. É um lembrete engenhoso de que, com Laetitia morta, tudo aquilo é apenas conversa da boca para fora.


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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