Rose Marie Cromwell for The New York Times
Rose Marie Cromwell for The New York Times

'Ilha da Fantasia' está de volta, agora com uma Mrs. Roarke

Roselyn Sánchez lidera esta nova versão da amada série da ABC interpretando uma sobrinha-neta de Ricardo Montalbán na administração da ilha mística

Max Gao, The New York Times

11 de agosto de 2021 | 16h02

Mais de 37 anos depois de Ricardo Montalbán encerrar seu trabalho como Mr. Roarke, o amável administrador de um enigmático resort que realiza os desejos dos seus hóspedes no Oceano Pacífico, a série Ilha da Fantasia retorna à televisão.

Mas desta vez, a nova versão da Fox que chega um ano depois de uma horrível adaptação para o cinema ter sido amplamente atacada pela crítica, tem mulheres à frente e atrás das câmeras.

Criada por Elizabeth Craft e Sarah Fain, a nova série que estreou nesta terça-feira, 10, e se centraliza em Elena Roarke (interpretada por Roselyn Sánchez), sobrinha-neta de Mr. Roarke que deixou para trás sua vida em Nova York para se tornar uma sofisticada administradora da ilha, onde vai satisfazer os maiores desejos dos hóspedes, mas os ensina que o que eles desejam não é necessariamente o que precisam.



“Elena era uma mulher normal, estudante de neurobiologia, apaixonada loucamente e prestes a se casar. Ela não queria assumir a responsabilidade, apenas ter uma vida normal”, disse Sánchez numa recente entrevista. “Mas o legado e o sobrenome foram mais fortes”.

A série original teve sete temporadas, foi ao ar de 1978 a 1984 no canal ABC e tornou “a realização dos desejos um fenômeno cultural”, disse Sánchez. Uma versão da história estrelada por Malcolm McDowell no papel de Mr. Roarke durou apenas uma temporada. Outra tentativa de recriar a série, em 2018, não passou do primeiro estágio de desenvolvimento.

No ano passado, executivos da Sony Pictures Television contataram a Fox com intenção de encontrar uma nova narrativa. E, no final, acataram a sugestão de Elizabeth Craft e Sarah Fain, que há muito tempo são parceiras em produções e roteiros e conhecidas por seu trabalho em Angel, The Shield - Acima da Lei e Lie To Me (Engane-me se Puder, no Brasil).

“Era uma ideia realmente assustadora porque assistimos Ilha da Fantasia quando crianças e tínhamos lembranças fortes de quando sentávamos no sofá em casa e víamos Mr. Roarke e seu auxiliar Tatoo (interpretado por Hervé Villechaize)”, disse Fain. “Mas amamos tanto a série que rapidamente sentimos que era uma oportunidade incrível”.

Segundo Craft, Roselyn Sánchez é uma artista que tem a combinação perfeita de “humor, cordialidade, compaixão e uma autoridade natural”. Para a atriz porto-riquenha a série, que foi gravada na ilha, ofereceu a oportunidade de ela se reunir com parentes e muitos dos mesmos membros da equipe com quem trabalhou no início da sua carreira.

A produção também deu um impulso financeiro a Porto Rico num momento em que a ilha tenta se recuperar de uma série de desastres naturais e da pandemia da covid-19, contribuindo com mais de US$ 54 milhões para sua economia nos últimos três meses. “É muito importante para a ilha, para eles e para mim mesma”, disse a atriz que decidiu adiar sua estreia como diretora para gravar os 10 episódios da primeira temporada de Ilha da Fantasia em sua terra natal.

 


Numa entrevista por telefone de Porto Rico, Roselyn Sánchez, muito conhecida por seus trabalhos em Without a Trace e Devious Maids, falou sobre a pressão de assumir o papel - e o icônico uniforme branco - de Montalbán, e a representação latina em Hollywood.

Abaixo trechos da entrevista.

 

Em vídeos promocionais, você menciona que era fã da série original. Quais são suas lembranças mais vívidas dela quando era uma garota em Porto Rico?

Nós víamos a série dublada em espanhol. Eu nasci em 1973 e o programa começou nos anos 1970, de modo que eu era muito pequena. Mas aquele momento em que o personagem Tatoo toca o sino e diz “o avião, o avião” é muito vívida.

Você tem de entender que Ricardo Montalbán, para os latinos, era como uma realeza pelo simples fato de ele ser a pessoa que liderava seu próprio show, e o fazia tão bem, com muito sucesso. Ter a oportunidade de retratar esse personagem e continuar o legado de Roarke é um sonho, e reconheço que é uma responsabilidade. Mas é uma responsabilidade que assumi com todo meu coração e espero que as pessoas gostem de mim tanto quanto eu gostava dele.


 

Como essa nova versão presta homenagem à série original e, ao mesmo tempo, também forja sua própria identidade?

A premissa é a mesma. Tem a ver com a realização de desejos, sobre você crescer como ser humano, tornar os sonhos realidade. Os hóspedes chegam à ilha e eles têm um desejo, um sonho e a ilha os ajuda a viverem uma aventura que é mágica e torna seu sonho uma realidade.

Mas o fato de no papel principal estar uma mulher é o testemunho de como as produtoras desejaram fazer algo que não é muito comum. As diretoras, muitas chefes de departamento, cineastas - são todas mulheres, por trás e na frente da câmera. Elas têm algumas liberdades criativas que irão elevar o material, especialmente o fato de ter minorias nos papéis de destaque. Estão acompanhando os tempos atuais.


 

Por que hoje é a época certa para uma nova adaptação de 'Ilha da Fantasia'? O que torna esta série diferente das predecessoras?

Por causa de tudo que vem ocorrendo no mundo atualmente. Hoje, o mundo - especialmente nos Estados Unidos - se encontra numa fronteira, numa área nebulosa e acho que as pessoas buscam uma válvula de escape, coisas que sejam positivas. As pessoas querem ver céus azuis e ter esperança no futuro. Acho que querem ver minorias. A inclusão é um tópico muito importante nos dias atuais e nós, e todas essas etnias diferentes que são tão subrepresentadas, estamos lutando com força.


 

Há poucos programas liderados por latinos na TV. Na sua opinião, como isso pode ser resolvido?

Precisamos de mais executivos latinos em posição de poder. Se não estamos representados, então não podemos esperar ver nossos rostos na tela. Os latinos também precisam aparecer. Precisamos do olhar latino quando estamos mostrando nosso produto. Precisamos de muito apoio. Se os latinos não apoiam, então essa é a desculpa perfeita para os executivos alegarem, “sabem, nós tentamos, mas não deu certo”. Portanto, é uma combinação de muitas coisas que precisam estar alinhadas.

E no tocante à etnia latina, existe uma competição de etnias e estamos ficando para trás. Não sei exatamente porque isso vem ocorrendo. Existe muita representação afro-americana. Os asiáticos estão ficando realmente poderosos dentro do setor porque eles têm apoio e seu conteúdo é fenomenal. Quanto aos latinos, temos talento, temos o desejo, temos poder de compra. Podemos conseguir isso também. Só precisamos da oportunidade, do conteúdo certo, e, esperemos, isso mudará.


Tradução de Terezinha Martino

 

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