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‘His Dark Materials’, que encerra primeira temporada, abre espaço para questionar o 'maligno'

Atores Ruth Wilson e Clarke Peters falam sobre a jornada e a complexidade dos personagens da produção

Thaís Ferraz, Especial para O Estado

22 de dezembro de 2019 | 07h00

Com o episódio Betrayal (Traição), que vai ao ar nesta segunda-feira, 22, na HBO, a série His Dark Materials encerra uma primeira temporada centrada em discussões sobre crenças, conhecimento e poder.

A superprodução, resultado de uma parceria entre HBO e BBC, é baseada na saga homônima do escritor britânico Philip Pullman, lançada no Brasil com o nome Fronteiras do Universo. Na história, a jovem órfã Lyra, interpretada por Dafne Keen (Logan), vive em um universo paralelo onde o ‘Magisterium’, uma espécie de Estado eclesiástico, controla o Reino Unido.

A jornada de Lyra começa quando seu melhor amigo, Roger, desaparece misteriosamente, assim como outras crianças. Apesar da idade da protagonista, a produção não é destinada ao público infantojuvenil. Autoritarismo e religião, por exemplo, são alguns dos temas centrais da história. Personagens complexos completam o pacote.

De passagem pelo Brasil durante a CCXP 2019, Ruth Wilson (Luther) e Clarke Peters (Três Anúncios Para Um Crime) afirmaram, em painel, que a produção é “tudo, menos uma história infantil”. Em entrevista ao Estado e mais três veículos, os atores discutiram os principais aspectos da série.

“Para mim, uma das coisas mais importantes da primeira temporada é a jornada de Mrs. Coulter, um grande conflito pessoal”, diz Ruth, que interpreta a personagem. “Antes de Lyra chegar em sua vida, ela é uma via de mão única, no jeito que constrói a própria vida, de como decide viver e manter o poder, e de acreditar nos sistemas construídos nesse mundo”, explica. “Mas a chegada de Lyra faz com que ela questione o que tem feito, o que tem escutado, em quem ela acredita... e por que ela segue esse padrão.”

Para ela, a série abre espaço para questionar o ‘maligno’. “Nós definitivamente precisamos trabalhar com os motivos pelos quais as pessoas fazem o que fazem, por que elas defendem algo, como Mrs. Coulter e Lorde Asriel (‘tio’ de Lyra) são tão diferentes apesar de terem recebido treinamento no mesmo lugar e no mesmo tempo”, diz. “Esse é o motivo pelo qual cada indivíduo é tão único e tão fascinante: porque todos nós viemos de lugares muito distintos e passamos por experiências tão diferentes que moldam aquilo em que acreditamos ou não, o jeito que agimos ou não”.

Intérprete do Dr. Carne, reitor da Universidade Jordan, Clarke Peters, destaca o debate, na série, sobre crenças e conhecimento. “A questão é que estamos presos, porque fomos educados com certos fatos que são estabelecidos, mas não são necessariamente verdades. Então, temos sociedades inteiras que estão seguindo coisas que não são verdadeiras”, diz. “É louco como você ensina isso para as pessoas, se são só teorias.”

Ele conta que esse conflito o levou ao papel. “Você tem que ter certas chaves para acessar certas bibliotecas, certas referências, onde estão informações que todos nós deveríamos ter”, diz. “Não gosto disso. Eu gostaria que, ao menos, todos tivessem acesso a tudo, e chance de explorar a história, a espiritualidade e o intelecto.”

Relação conflituosa. His Dark Materials investe em recursos gráficos avançados. Enquanto a precursora Game of Thrones precisou economizar no CGI (computer-generated imagery/imagens geradas por computador), a nova produção da HBO emprega o recurso quase o tempo todo.

Isso acontece porque, na história, cada pessoa é acompanhada por um dæmon (grafado dessa forma), seres vivos que são uma manifestação física externa do eu interior e assumem a forma de diferentes animais. Para Ruth e Clarke, os dæmons são uma grande sacada da saga.

“O relacionamento com os dæmons é fascinante nos livros, e eu continuo fascinada conforme vamos filmando. É a parte mais excitante para mim, a relação de Mrs. Coulter com o seu macaco”, diz Ruth. Na prática, ela conta, a interpretação acontece com manipuladores de fantoches, que, mais tarde, tomam vida com o CGI.

Diferentemente da maioria das pessoas, Coulter tem uma relação conflituosa com seu dæmon. “Alguém complexo como Mrs. Coulter tem uma relação muito difícil e até assustadora com ele mesmo e, portanto, com seu animal”, explica Ruth. “No curso das três temporadas, é através desse relacionamento que você consegue entendê-la.”

Ela conta que trabalhou o aspecto psicológico e emocional dessa relação com o marionetista Brian Fisher. “Pensamos em como eles fazem a performance de uma relação publicamente, e como são quando estão sozinhos em uma sala. Em público, eles fazem a coisa funcionar e manipulam o ambiente, mas, em casa, não suportam estar no mesmo espaço, porque Mrs Coulter não suporta estar com ela mesma. Desenvolvemos a psicologia dessa relação.”

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