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Figurinos de 'O Gambito da Rainha' levam glamour ao xadrez

A figurinista da série, Gabriele Binder, conta como conseguiu entrelaçar uma entrada no mundo do xadrez com o mundo da moda - uma bela associação, embora improvável

Danielle Braff, The New York Times

12 de novembro de 2020 | 11h00

Beth Harmon depara com uma espécie de “morte repentina”. A estrela do xadrez na ficção venceu sua infância como órfã, lutou contra seu vício em calmantes e álcool e consegue uma participação no campeonato mundial de xadrez na Rússia. O problema agora? Ela gastou todo o seu dinheiro em roupas e não tem os 3 mil dólares para pagar sua viagem para o maior jogo de todos os tempos. “Você poderia me dar seu vestido preto”, diz sua amiga num episódio de O Gambito da Rainha. “Ou então o roxo”. Beth ri e rejeita as duas ofertas.



Num campo dominado por homens, óculos de lentes grossas e camisas brancas abotoadas desajeitadas, Beth Harmon é um ídolo repentino de um estilo de vestir. Sim, ela é uma personagem do romance de Walter Tevis que leva o mesmo título representada agora por Gabriele Binder na série de sucesso da Netflix. Mas de algum modo ela consegue entrelaçar uma entrada no mundo do xadrez com o mundo da moda, uma bela associação, embora improvável.

“À primeira vista, o xadrez não envolve elegância e moda, mas os jogadores escolhem o que vão vestir e por quê”, disse a figurinista Gabriele Binder, em uma entrevista pelo Zoom, falando de sua casa em Berlim, usando uma camiseta preta e sem nenhum acessório. E ela acredita que essas escolhas são importantes. “Dão sorte ou uma boa experiência”.

O Gambito da Rainha é ambientada nos anos 1960 e, nesta época, havia poucas mulheres jogadoras, americanas ou russas, nas ligas mais importantes. Gabriele pesquisou como os homens se vestiam e, segundo ela, era uma “moda geek, de nerds”.

As roupas das mulheres eram similares. Beth, interpretada por Anya Taylor-Joy, é uma perfeita nerd. E esse novo visual pode ser um divisor de águas. Como foi. “O xadrez nunca será o mesmo”, disse Cathleen Shehan, professora e presidente do programa Fashion Design MFA, do Instituto de Moda e Tecnologia em Nova York. “Esta história traz glamour internacional, humanidade e uma história relevante para o jogo de xadrez. Cada vez que a cena mudava eu me sentia mais empolgada para ver o que ela iria vestir em seguida”.



Inspirada por Edie Sedgwick, Jean Seberg, Pierre Cardin e Balenciaga, Gabriele Binder criou um conjunto impressionante de modelos que levam Beth dos seus dias de órfã em Kentucky para os torneios de xadrez em Las Vegas, Paris e Moscou. Não menos do que uma dezena dos trajes que ela usa contém padrões geométricos espelhando um tabuleiro de xadrez, mas Binder não chegou a ponto de imprimir um tabuleiro num top ou numa saia.

Em vez disso, por exemplo, entrou sorrateiramente no mundo do xadrez com um vestido quadriculado sem mangas sobre uma camisa branca abotoada que não se afastava muito da moda da época. Beth Harmon tentava desesperadamente achar seu caminho no mundo da moda e do xadrez - e os trajes que usa refletem isto, disse Gabriele. Quando a série termina, ela surge com um casaco de lã branco combinando com um chapéu branco perfeito para uma rainha do xadrez.

E há também a maquiagem, que ajuda a transformar Beth, uma órfã, numa estrela glamourosa do xadrez, refletindo seu estado de espírito ao longo do caminho. “É um make-up exagerado para respaldar que ela está realmente empolgada, não se encaixando na ideia de uma enxadrista”, disse Gabriele. “Era como se dizendo, ‘esta sou seu, e sou frágil. Frágil, mas chique”.



Jennifer Shahade, duas vezes campeã feminina de xadrez nos Estados Unidos e diretora do programa feminino do US Chess na Filadélfia, disse que sempre viu o jogo como um esporte glamoroso. Shahade deixou o país pela primeira vez aos 15 anos de idade para participar de um campeonato mundial juvenil de xadrez no Brasil e comemorou seu 16º aniversário na Islândia quando disputava um outro. É um lado do xadrez que aqueles que estão de fora nem sempre veem.

“O glamour alimenta minha ética de trabalho e vice-versa”, disse Shahade. “O entrelaçamento do xadrez com o glamour não é novo, mas esta é a primeira vez que vemos isto retratado de modo tão brilhante na tela, e levado a um nível de imaginação ainda mais alto”.

Embora não seja a primeira vez que o xadrez entra no campo da moda, este pode ser o maior filme nesse sentido.



Em 2005, Alexander McQueen apresentou um desfile de moda inspirado no xadrez durante o qual um tabuleiro era projetado no chão e cada modelo representava uma peça de xadrez. Mais tarde, em 2010, na Fashion Week de Nova York, a G-Star, uma marca de Amsterdã, exibiu o Grande Mestre Magnus Carlsen num jogo de xadrez antes do desfile nas passarelas. A G-Star também criou uma campanha publicitária em torno dele.

O World Chess Hall of Fame se uniu com o St. Louis Fashion Fund em 2018 para desafiar estilistas principiantes a criarem trajes de xadrez elegantes. Mas os grandes mestres continuam a usar seus ternos pretos costumeiros.

“Apesar de os Grandes Mestres hoje se vestirem muito melhor do que há 15 anos, ainda falta muito para grandes jogadores dos Estados Unidos, como Fabiano Caruana e Hikaru Nakamura, serem reconhecidos como ícones de moda”, disse Lennart Ootes, fotógrafo e apresentador em Amsterdã. “O xadrez tem sido mostrado em inúmeros filmes e comerciais como metáfora para decisões estratégicas, mas dificilmente vemos um jogador de xadrez num tapete vermelho”.

Mas agora que chegou O Gambito da Rainha, parece que o xadrez está tendo um momento na moda. No fim de novembro será inaugurada a exposição Keith Haring: Radiant Gambit, no World Chess Hall of Fame, que inclui arte de rua e tabuleiros.

E também está programada uma exposição de Michael Drummond, designer de St. Louis que apresenta o Project Runway. A mostra, intitulada Being Played, examina os efeitos da moda e clima usando figuras de xadrez como metáfora.


 


E, agora, os costumes exibidos em O Gambito da Rainha podem ser vistos numa exposição virtual no Brooklyn Museum, que trabalhou com a Netflix para oferecer um olhar mais de perto dos modelos usados na série, junto com os figurinos da série The Crown.

A má notícia, porém, é que nenhuma das roupas glamorosas da personagem é encontrada nas lojas. Elas foram confeccionadas especificamente para Beth, devem ser adquiridas de arquivos de costumes. Assim, quando se trata de comprar, a jogada é sua.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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