Red Production Company
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'Fico imaginando o que seria se o HIV não tivesse atacado', diz o diretor da série 'It's a Sin'

Programa narra o início da epidemia que reforçou os estigmas sofridos por homossexuais nos anos 1980

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

02 de março de 2021 | 05h00

As pessoas envolvidas na minissérie It’s a Sin, sobre a epidemia de HIV-aids entre 1981 e 1991, ficaram com um certo receio de lançar agora um drama sobre um vírus letal. “Não sabíamos se alguém ia querer assistir”, admitiu o diretor Peter Hoar em entrevista com a participação do Estadão. A preocupação era infundada. It’s a Sin foi um dos programas mais vistos e mais comentados de 2021 no Reino Unido e estreou com sucesso nos Estados Unidos também, no serviço de streaming HBO Max. E ainda gerou um aumento no número de testes e de doações a organizações que ajudam pessoas vivendo com o HIV. A minissérie em cinco episódios, que faz parte da programação do Festival de Berlim, deve chegar em breve ao Brasil. 

Em It’s a Sin, Ritchie (Olly Alexander) deixa sua família conservadora no interior para estudar em Londres. Lá, fica amigo de Jill (Lydia West) e decide estudar atuação. Ritchie e Jill dividem o chamado Palácio Rosa com Ash (Nathaniel Curtis), Roscoe (Omari Douglas), que saiu de casa depois de sua família religiosa tentar mandá-lo para a Nigéria para “consertar” sua homossexualidade, e Colin (Callum Scott Howells), que saiu do País de Gales para trabalhar numa das alfaiatarias de Savile Row. Em Londres, eles podem ser quem são e abraçar sua sexualidade sem medo. 

O primeiro episódio é de alegria, festas e muito sexo, tudo embalado pelos melhores hits da época. Mas o HIV chega aos poucos, sorrateiramente, sem que as pessoas tivessem muita informação ou mesmo coragem de lidar com o assunto. Pouco a pouco, amigos começam a desaparecer, trancados em hospitais, ou “ir embora para casa” para nunca mais voltarem. “Fico imaginando o que seria se o vírus não tivesse atacado nos anos 1980”, disse Hoar. “Porque foi quando a vida gay começou a ser mais visível, mais aceitável. Havia mais popstars abertamente gays ou evidentemente gays. Se as coisas tivessem sido diferentes, talvez estivéssemos uma outra posição agora.”

Há paralelos a serem feitos com a pandemia de covid-19. “Estamos contando a história de um grupo marginalizado ainda hoje. Então, muita gente consegue se identificar com a minoria que pode ser ignorada pelas instituições de poder”, disse Hoar, referindo-se ao fato de as mortes por coronavírus afetarem desproporcionalmente os mais velhos, negros, indígenas. A diferença é que, na época da aids, nem os médicos e enfermeiros queriam tocar os pacientes. O pessoal de saúde no início era majoritariamente formado por gays e lésbicas. “Não culpo ninguém. A doença foi muito demonizada. Todos sabem da história de como a princesa Diana tocando uma pessoa com HIV alterou a percepção sobre a doença”, disse Hoar. 

A produção não fez nenhuma mudança para que esses paralelos ficassem claros. “Funcionou porque estamos contando uma história sobre a vida, sobre o amor, sobre a perda. E as pessoas se apaixonaram pelos nossos atores.” A maior parte era pouco conhecida. O criador, Russel T. Davies (Queer as Folk), priorizou elenco e técnicos que fossem abertamente homossexuais. 

 


Os jovens personagens fazem com que os jovens espectadores se identifiquem e conheçam mais a história de quem veio antes. “Nossa mensagem é: preste atenção. E não se esqueça de se divertir”, disse Hoar. Ele credita a falta de conhecimento sobre a tragédia causada pela aids às pessoas que viveram aquela época e perderam muitos amigos. “Eles não queriam pensar nisso”, afirmou o diretor. “Não queriam contar a ninguém. Elas enterraram seus sentimentos. Muita gente morreu no hospital de uma doença sobre a qual tinham vergonha de falar. Recebi muitas mensagens de pessoas dizendo que acham que seu amigo morreu por causa do HIV, que não sabiam na época e só ficou claro agora. O amigo foi embora e aí morreu. E agora quem sobreviveu pensa naquilo e fica culpado de não terem ajudado.” 

Talvez isso explique por que somente agora, 40 anos depois do registro dos primeiros casos, esse período esteja sendo dissecado em séries como It’s a Sin e Pose. Antes, houve peças como Angels in America, mas o tom era diferente, porque foram feitas ainda no calor da hora. “Elas tinham mais raiva e ódio, o que faz sentido. Mas acho que hoje podemos contar com um pouco mais de humor.” 

Mas pode preparar os lencinhos. A epidemia de HIV-aids foi brutal, e o impacto nos personagens é inevitável. Peter Hoar acredita que essa seja também uma explicação para o sucesso da série no meio da pandemia. “Acho que as pessoas precisavam chorar”, disse. Para ele, a forma como tantos espectadores abraçaram a série é motivo de comemoração. “A empatia está em falta em algumas partes da nossa sociedade. Então, é bom perceber que ela existe, sim, está viva e passa bem.”


 

Série traz promotor dos EUA

Durante 30 anos, Larry Krasner foi advogado criminalista e especialista em defesa de direitos civis – entre seus clientes, teve integrantes dos movimentos Black Lives Matter e Occupy Philadelphia. Mesmo sem vontade de parecer simpático, em 2017 ele foi eleito promotor da Filadélfia, com uma plataforma de reforma do sistema de justiça criminal, que costuma penalizar desproporcionalmente os mais pobres, negros e latinos. E agora é o personagem principal da série documental Philly D.A., de Ted Passon, Yoni Brook e Nicole Salazar, que participa do Festival de Berlim.

Durante meses, os três tiveram acesso quase irrestrito aos escritórios da promotoria. “Teve quem dissesse ao Larry que era uma péssima ideia”, contou Brook ao Estadão. “Falaram: isso não se faz, é muito delicado. Porque há casos reais ali sendo discutidos. E esses promotores gostam de trabalhar com discrição. No sistema judiciário, o palco é o tribunal. E nós estamos vendo os bastidores, onde as decisões são tomadas.” 


 


Ao definir os tempos de pena, a permissão ou não de fiança e o valor de cada uma, a promotoria afeta diretamente a vida de milhares de pessoas. Só que isso faz com que Krasner bata de frente com a associação de policiais, ainda mais depois de o promotor acusar vários deles de mentir no tribunal para conseguir condenar pessoas. A série mostra que mesmo os bem-intencionados têm extrema dificuldade de realizar transformações, até por conta de suas próprias limitações.

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