Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

Eric Cantona, ex-craque francês de futebol, estrela série da Netflix

Futebolista vive decadência do mercado de trabalho na série ‘Recursos Desumanos’

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 05h00

Recursos Desumanos foi um infeliz trocadilho escolhido pela Netflix para substituir em português o título original da série francesa Derrapagens, que combina muito mais com a obra. Com apenas seis episódios, a produção é um grito de guerra contra o capitalismo selvagem e tem como ator principal uma figura que é a encarnação da rebeldia contra o sistema: o mitológico Eric Cantona.

Para quem não se lembra, no dia 25 de janeiro de 1995, ele protagonizou, como jogador de futebol, um incidente que ficou marcado na história da Premier League inglesa. Expulso no empate por 1 a 1 entre Crystal Palace e Manchester United, o atacante francês Eric Cantona, considerado um dos melhores jogadores da história do Manchester, reagiu à provocação de um torcedor xenófobo e correu até as arquibancadas, onde deu uma voadora no sujeito (um jovem hooligan fascista). 

Se não fosse pelo pavio curto e o gosto por brigas, Cantona poderia ser considerado um Dr. Sócrates britânico. Era um pensador de esquerda inquieto e um monstro em campo, idolatrado pela torcida e leal ao seu time. O craque, porém, se aposentou cedo e, para espanto de seus fãs, tornou-se um ator de primeira linha. Em Recursos Desumanos, Cantona está no centro de uma história baseada em fatos reais que parece um filme de Ken Loach, o diretor que, em 2009, produziu o longa À Procura de Eric (no qual o ex-jogador interpreta a si mesmo).

A narrativa começa na prisão, com o personagem principal relembrando os fatos que o levaram até lá. Alain é um homem de 55 anos que está desempregado há seis e vê as contas se acumularem. Ele foi demitido após 25 anos como chefe de RH de uma empresa. Com o seguro-desemprego chegando ao fim, Alain passou a fazer bicos e ser humilhado em serviços braçais. A pobreza bate à sua porta.

Amargurado, deprimido, rancoroso e revoltado, o protagonista vê a decadência social como irreversível para pessoas da sua idade. Não há espaço para velhos no mercado de trabalho. Os primeiros três episódios mergulham fundo na construção do personagem e seu entorno: a esposa (30 anos de matrimônio), os filhos, os colegas de trabalho. A salvação surge na forma de um inusitado convite para disputar uma vaga de alto escalão em uma multinacional francesa em crise.

A missão do escolhido como gerente será justamente demitir mais mil pessoas de uma unidade da empresa que passa por um acelerado processo de automatização. O local é um barril de pólvora. Os operários estão mobilizados e fechados com o sindicato da categoria e a comunidade local está em pé de guerra com a empresa. O cenário é descrito como “brutal e extremo”. 

A série retrata o mundo corporativo como um ambiente cínico, desumano, frio e sádico. Os discursos motivacionais escondem as verdadeiras intenções de exploração total em busca do lucro. As verdadeiras intenções estão nas entrelinhas de um discurso liberal embalado a vácuo. Do terceiro episódio em diante, a série ganha outra dinâmica, com mais ação e violência. E um certo gosto de vingança da classe operária. 

O gancho é o método sui generis escolhido pelo CEO da multinacional para testar os candidatos e escolher aquele que melhor se comportar em uma ambiente de extrema pressão: a simulação de um sequestro e a consequente negociação com os reféns. 

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