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Em ‘Landscapers’, história de crime real se funde com fantasia hollywoodiana

A série, estrelada por Olivia Colman e David Thewlis como Susan e Christopher, é o primeiro drama com roteiro escrito pelo marido de Colman, o ator e produtor Ed Sinclair

Tobias Grey, The New York Times

08 de dezembro de 2021 | 20h00

Uma carta de fã datilografada e assinada por Gary Cooper. A edição limitada de um pôster High Noon. Alguns selos postais raros de Frank Sinatra. Estas eram apenas algumas peças dos milhares de dólares em memorabilia da Idade de Ouro hollywoodiana que Christopher e Susan Edwards tinham acumulado quando se entregaram à polícia de Londres, em 30 de outubro de 2013.



O recluso casal britânico que no ano seguinte foi condenado pelo assassinato dos pais de Susan a um mínimo de 25 anos de prisão agora é tema de um drama tragicômico em quatro partes da HBO, uma história baseada em sua fixação por Hollywood. Foi uma obsessão destrutiva e financiada, de acordo com os promotores, pelas mais de 285 mil libras (mais de 475 mil dólares na época) que o casal roubara dos pais de Susan depois de matá-los.

Landscapers [Paisagistas] tem esse nome porque um juiz concluiu que Christopher Edwards matara os sogros, por insistência de sua esposa, e depois os enterrara no quintal, plantando arbustos em cima da cova improvisada na qual seus corpos permaneceram por quinze anos sem serem descobertos. (O casal sempre afirmou que foi a mãe de Susan quem matara o pai e que Susan atirara na mãe).

A série, estrelada por Olivia Colman e David Thewlis como Susan e Christopher, é o primeiro drama com roteiro escrito pelo marido de Colman, o ator e produtor Ed Sinclair. “Estudei direito na universidade e sempre me interessei pelo que leva as pessoas a cometer crimes”, disse Sinclair, 50 anos, numa videochamada semanas atrás. “Então surgiu essa ideia de reabrir o caso de uma forma mais humana, porque a justiça criminal, por suas próprias necessidades, tem que ver as coisas de um jeito muito preto e branco, em termos de pura culpa criminal ou não”.

 


Numa escolha estilística que pode dividir os espectadores, Sinclair optou por explorar a vida interior do casal através do prisma da imaginação invulgarmente fértil e cinematográfica de Susan Edwards. A série é intercalada com cenas dos filmes favoritos de Susan, especialmente High Noon, cujo herói (interpretado por Gary Cooper) ela associa à lealdade incondicional do marido. Há também uma longa sequência na qual Susan imagina a si mesma e Christopher como bandidos caçados por um pelotão vestido em trajes do velho oeste.

Esses voos de fantasia refletem o comportamento do casal de verdade: um dos muitos detalhes bizarros que surgiram durante o julgamento foi que, depois da morte de seu irmão, Susan tentara levantar o ânimo do marido lhe enviando cartas que ela fingia ser do ator francês Gérard Depardieu, uma das estrelas de cinema favoritas de Christopher.

Mas o resultado desses elementos peculiares é menos a dramatização de um crime verdadeiro do que uma exploração fantástica sobre criminosos emocionalmente frágeis, cujos crimes parecem ter sido motivados por um sentimento de auto-vitimização. Se essa abordagem cria uma quantidade surpreendente de empatia pelos assassinos condenados, Sinclair também a vê como uma forma válida de sondar os mistérios da motivação humana.

Ele tentou aprofundar seu conhecimento sobre o casal, estabelecendo uma correspondência com Susan e Christopher por meio do advogado de Susan, Douglas Hylton, que é interpretado na série, uma coprodução da HBO e da British Sky, pelo ator britânico Dipo Ola.

“Uma das coisas que discuti na minha primeira carta para Susan foi que havia algumas coisas nesta história que eram difíceis de acreditar e francamente cômicas, e ela concordou”, disse Sinclair. “Ela estava definitivamente ciente de tudo isso”.



As cartas deram a Sinclair a chance de adicionar mais uma camada de textura à história do casal, mas não houve discussão sobre o crime em si. (Sinclair perguntou aos Edward sobre os assassinatos em pelo menos uma carta, mas tempos depois eles responderam que nunca a receberam, disse ele). No roteiro, Sinclair mencionou as acusações de Susan de que sofrera abusos sexuais do pai. Essas alegações, nas quais o juiz disse acreditar durante o julgamento, forneceram a Sinclair o “coração emocional” de sua história.

“Sempre tive a ideia de que a experiência de infância de Susan significava que ela era essencialmente uma alienígena que pousara na Terra aos 11 anos de idade, quando os abusos pararam”, disse ele.

Colman, 47 anos, cuja atuação como Rainha Anne em A Favorita (2019) lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, interpreta Susan como uma mulher de infalíveis boas maneiras e um frágil domínio da realidade.

“Já ouvi muitas histórias de mulheres, em particular, que mataram por terem sido torturadas nas mãos de um agressor, ou por terem sofrido violência doméstica durante anos, às vezes décadas”, disse ela numa entrevista por telefone semanas atrás. “Chega um ponto em que os seres humanos estalam”.

Um dos maiores desafios do papel, que a atriz achou emocionante, foi ter de alternar entre cenas baseadas na realidade e o fantasioso universo alternativo que Susan sonhava para si mesma.

“Acho que, no caso das sobreviventes de abuso infantil, o fato de elas seguirem vivendo... é uma coisa que traz uma força imensa”, disse ela. “Realmente dá para entender por que elas poderiam querer entrar num mundo imaginário”.

Dar vida a esse universo imaginário foi tarefa do cineasta nipo-inglês Will Sharpe, que dirigiu os quatro episódios. Sharpe, 35 anos, já havia dirigido Colman em duas temporadas da série de televisão britânica Flowers e no recente filme biográfico The Electrical Life of Louis Wain. Ele entrou no projeto depois que Alexander Payne, o diretor original, se retirou.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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