Apple TV+ via AP
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Elisabeth Moss e Wagner Moura buscam um serial killer em 'Iluminadas'

Série do Apple TV+ é mistura de suspense com ficção científica, um gênero que atrai cada vez mais o público feminino

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

03 de maio de 2022 | 05h00

Um dos dilemas de quem vai adaptar um livro para o cinema ou a televisão é quanto se manter fiel às páginas. No caso dos policiais, suspenses e mistérios, então, é ainda mais complicado, com suas surpresas e reviravoltas. 

Iluminadas, de Lauren Beukes, lançado no Brasil pela Intrínseca, não é exatamente um “quem matou”, mas, mesmo assim, Silka Luisa, criadora da série, decidiu por uma abordagem um pouco diferente em Iluminadas, a série, que estreou seus três primeiros episódios no Apple TV+, com novos capítulos chegando todas as sextas. 

“Eu era uma grande fã do livro. Achei único, especial, com uma mistura de gêneros”, disse Luisa em entrevista ao Estadão. “Mas a personagem com que realmente me conectei foi Kirby. Ela era uma sobrevivente como eu nunca tinha visto antes, autêntica, vulnerável, mas disposta a enfrentar o que tinha acontecido.” Kirby, interpretada por Elisabeth Moss, é uma mulher que trabalha no arquivo do jornal Chicago Sun-Times. Anos depois de quase ser assassinada, ela ainda sofre os efeitos, tendo aparentes lapsos de memória e vivendo uma realidade em constante mutação. Quando uma mulher aparece morta, Kirby, que nunca desistiu de procurar o homem que a atacou, mesmo quando a polícia e a imprensa não deram bola, percebe uma relação entre os dois casos e ajudará o repórter Dan Velazquez (o brasileiro Wagner Moura) a investigar o caso. 

Por ter ficado fascinada com a personagem, Silka Luisa decidiu centrar a narrativa em seu ponto de vista. No livro, a história era metade Kirby, metade Harper (Jamie Bell). Logo de cara, ficava estabelecida a relação entre os dois e as habilidades fantásticas que ele tem. A série, porém, concentra-se nela, revelando aos poucos o mistério dos crimes e de Harper. “Por estarmos com Kirby, nossa experiência é diferente”, contou Luisa. “Para quem leu o livro, há esse elemento novo, que é a realidade mutante. O que está se passando com ela é real ou não? Por que está acontecendo? Assim adicionamos um novo elemento.” 

Para Michelle MacLaren, uma das diretoras do projeto junto com Elisabeth Moss e Daina Reid, a série não fala de quem matou, mas como ele conseguiu e qual o resultado. “A aparente confusão temporal de Kirby é uma metáfora para o trauma”, explicou ela ao Estadão. “Visualmente, criamos um mundo que parece fora de esquadro. Kirby não sabe o que vai acontecer no segundo seguinte. Mas ela escolhe não ser uma vítima e sim sobrevivente.”

Em muitos momentos, Kirby parece não ser uma testemunha confiável. Muita gente não acredita nela, o que acontece muitas vezes na realidade, com mulheres vítimas de abuso. “Eu achei interessante que Kirby é sujeito e autora de sua própria história. Essa é a história dela, mas ela também está tentando desvendá-la”, afirmou Luisa. 

Wagner Moura viu muitos atrativos em Iluminadas: o roteiro era bom, trabalharia com Elisabeth Moss e era um projeto escrito, dirigido e produzido por mulheres. Além disso, ele interpretaria um jornalista pela primeira vez – o ator é formado em jornalismo e chegou a trabalhar na área. “Eu adoro filme de jornalista e tenho muita admiração pela profissão. Hoje em dia, o jornalismo está em xeque no mundo, com Trump, Bolsonaro desacreditando a profissão. Jornalistas estão em perigo, as fake news se espalham. Então fico feliz de interpretar um bom jornalista, apesar de ser um cara todo problemático.”

O ator também achou importante a série tratar de feminicídio. “Quantas vezes a gente vê nas páginas do jornal um homem que se sente pequeno perante uma mulher brilhante e usa a única coisa que ele tem, a força física”, observou o ator, apontando ser uma loucura o número de mulheres assassinadas no México, na América Latina. “Cresci em um ambiente totalmente machista, sexista, em que casos de violência contra a mulher eram aceitáveis. E acho que a gente hoje sabe que está errado, e quanto mais a gente falar, melhor.” A abordagem das três diretoras foi não sanitizar a violência, mas que ela nunca fosse gratuita. “Mostramos uma parte, mas a história principal é o depois, é o trauma”, admitiu MacLaren. 

Curiosamente, as mulheres são grande parte do público de histórias sobre crimes, seja “true crime” ou uma série que mistura suspense e ficção científica como esta, mesmo que a maior parte das vítimas seja de mulheres. “Sempre tive inclinação a gostar de narrativas sombrias”, revelou Luisa. “Com a onda dos podcasts, que levaram a mais diálogo sobre o assunto, percebi que muitas outras mulheres têm esse mesmo interesse.” Para ela, o fascínio existe por causa do perigo que o mundo representa para quem é do sexo feminino. 

Como disse MacLaren, “toda mulher sabe o que é sentir medo ao ir pegar seu carro em um estacionamento subterrâneo ou ter a sensação de ser perseguida ou observada”. Silka Luisa acredita que essas histórias oferecem certo controle. “Em muitas, o final é feliz. Há uma reformulação da narrativa. Então é quase reconfortante, por ser o contrário do que normalmente acontece na realidade.”

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