Divulgação/Bruno Polleti/Spotify
Divulgação/Bruno Polleti/Spotify

‘É do cara**o! Sou o Batman’, diz Rocco Pitanga sobre interpretar o herói em nova série do Spotify

Em nova série que embaralha Gothan City no universo DC, Batman é interpretado por um ator negro; Veja entrevista com Rocco Pitanga, Tainá Müller e Camila Pitanga que estrelam a produção do Spotify

Simião Castro, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2022 | 00h02

Batman perdeu a memória e agora disseca corpos em um necrotério. Assim começa a nova história do morcego, que estreia hoje, 3, no Spotify, em uma parceria com a DC e Warner Bros. Sombrio o bastante para a nova fase de Bruce Wayne.

No Brasil, o herói de Gothan é interpretado por Rocco Pitanga em formato inédito, o que considera incrível. “É do cara**o!”, diz ao Estadão, aos sussurros para amenizar o palavrão. Veja entrevista em vídeo abaixo.

A áudio série Batman, Despertar, de dez episódios, terá nove versões ao redor do mundo, todas baseadas no original estadunidense e com lançamento simultâneo. Abusando dos efeitos sonoros, mas também da dedicada interpretação do elenco, o podcast afasta de leve as comparações com as empoeiradas telenovelas. 

Universo embaralhado

Um dos diretores, Daniel Rezende (Turma da Mônica e Bingo: O Rei das Manhãs) conta que buscou trazer para o outro meio as referências que acumulou no cinema. “Quero contar uma história como se eu estivesse dirigindo um filme de olho fechado”, disse durante entrevista coletiva sobre a série.

Com Camila Pitanga (Kell), Tainá Müller (Barbara Gordon) e elenco estrelado, o que se ouve da parceria de Daniel e Marina Santana, diretora de voz, é quase uma HQ sem traços. São as vozes que desenham a trama.

Concebida originalmente por David S. Goyer, responsável pela trilogia Batman - Cavaleiro das Trevas ao lado de Christopher Nolan, a nova série mergulha na mente perturbada de Wayne. E a história inicia tão enigmática que não apenas o Comissário Gordon se aposentou, como Martha e Thomas Wayne estão vivos.

Neste horizonte, a filha do policial, Barbara Gordon, vai se juntar ao Charada (Augusto Madeira) para desvendar o mistério que norteia a produção: o serial killer Ceifador (Hugo Bonemer) está tocando o terror em Gothan City. E chega a machucar Bruce.

Mistura de sensações

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Camila, Rocco e Tainá explicam um pouco do processo para chegar ao resultado da narrativa do herói pela perspectiva brasileira. Falam dos desafios de criar o cenário inteiro apenas com a voz e do simbolismo de um Batman negro.

Camila Pitanga faz suspense sobre o desdobramento da própria personagem. Ela afirma incluive que interpreta dois papéis. Ao ponto de criar ansiedade para descobrir qual é o mistério. Pega de surpresa com a pergunta da reportagem sobre se era a Mulher Gato, respondeu com a tranquilidade que lhe é particular. "Não sou! Mas não posso dizer o que é!"

Veja a entrevista:

Cara, você é Batman!

Camila Pitanga: Eu amei essa reação! Mas, olha, quando eu ouvi essa notícia também, de que seria meu irmão, eu falei assim: ‘Cara**o, meu irmão é o Batman!’

Rocco Pitanga: Eu tô me segurando para não falar palavrão.

Pode falar palavrão

Rocco Pitanga: [Só mexendo a boca] É do cara**o! É muito f*da!  [risos]

E essa cultura de super-herói tão americana, tão distante da nossa realidade. Passava pela sua cabeça a possibilidade de ser um super-herói?

Rocco Pitanga: Nunca. Justamente por isso que você está falando. Não é uma cultura do Brasil e ainda mais um personagem que é conhecido a nível mundial: o Batman, né! É muito maneiro poder estar estreando esse lugar de um de um herói globalmente conhecido. É f*da! Sou o Batman!

Como ressoa em você ser um Batman negro?

Rocco Pitanga: Eu acho incrível! Porque, por que não? Herói não tem cor. Herói tem atitudes e virtudes. Então fazer o Batman sendo negro eu acho que avanço junto com um debate já antigo para caramba. Desde a época de Grande Otelo, meu pai [Antonio Pitanga], Léa Garcia, Ruth de Souza… E, de repente, estar nesse momento simbolizando um personagem, um herói, que tem uma influência muito grande e poder ser esse símbolo desse processo de passagem, de quebra! Eu estou muito feliz!

E é um super-herói humano. Não é um cara que caiu em um poço radioativo…

Rocco Pitanga: Eu acho um dos super-heróis mais completos justamente por isso. Ele é um cara humano que usa de todos os seus recursos financeiros, tecnológicos, inteligência e ele consegue juntar tudo isso e ajudar a diminuir toda a maldade que a humanidade sofre. É um personagem completo para caramba a nível psicológico. É um dos mais completos para mim.

Esse trabalho não é uma dublagem. É uma interpretação do roteiro do zero. O que exigiu de vocês como atores?

Tainá Müller: Foi uma experiência muito rica. Muito diferente pelo menos do que eu estava acostumada. Eu tinha feito recentemente uma coisa para um game que foi um pouco diferente, mas eu nunca tinha feito isso de criar uma personagem, como você falou, a partir de um roteiro e criar essa imagem na cabeça. Tanto na minha, quanto do ouvinte. Eu tinha isso muito claro: se eu conseguir imaginar, o ouvinte vai conseguir também. Então era um trabalho de concentração muito intenso. De escuta, literalmente, muito intensa - do colega, da minha própria voz - para ver como é que estava ressoando com suas sutilezas. Eu fui percebendo coisas ao longo do processo. Por exemplo, quando você fala com a cabeça para baixo, você dá um tom. Quando fala reto [dá outra coisa]. Então a própria movimentação do corpo sem sair do eixo do microfone mudava a intenção do que a gente estava imprimindo ali naquela escuta para o ouvinte. Foi uma experiência muito legal. Que eu, inclusive, gostaria de repetir.

Olha a dica!

Tainá Müller: Olha a dica, Spotify. Primeiro que a gente não tem que se maquiar. [risos] Olha que coisa boa! Com todo o respeito aos meus queridos maquiadores maravilhosas, mas eu saía do ensaio, ia com a roupa de ensaio do teatro, chegava lá e virava a Barbara Gordon, futura Batgirl. Isso era também incrível! É uma possibilidade muito legal.

E o trabalho de corpo para imprimir essa voz, como foi?

Camila Pitanga: Tem um eixo que é o microfone e o texto. Porque, por mais que existisse, claro, a contracenação, você tinha que estar de olho o tempo inteiro no texto. O que dá uma certa imobilidade. É de fato um ato de muita concentração no aparelho fonador, no trabalho de escuta no detalhe. E eu acho que, no meu caso, e pode ter acontecido com meus colegas também, de uma atenção muito grande com a respiração. Com o arfar, o respirar. Porque a gente faz isso naturalmente, nem percebe. E, quando você tem um aparelho expondo todos os detalhes do som, a respiração é muito presente. O detalhe dela [faz som ofegante] faz diferença. Agora, você tem essas situações de pegar [algo pesado], ou de levar um soco, ou morrer - Quem morre? Não tô dizendo quem! -, mas como é que você faz isso na interpretação? É um ato de concentração e um ato de procura. É que nem no ensaio em que você tem que procurar. A gente tinha o Dani Rezende [diretor] a Marina [Santana, diretora] muito dadivosos em procurar junto conosco, para a gente descobrir essa linguagem e um idioma comum para esse trabalho Às vezes a gente corria. Eu via a Maria Bopp [que interpreta Vicki Vale] fazendo isso. Porque ela estava confinada, a personagem dela estava presa. Então ela não podia voltar do almoço, botar o fone e ‘vamos lá, vamos gravar’. Ela ficava correndo, correndo, correndo e isso cria um estado [corporal] - que a gente faz também para o audiovisual. Mas sem dúvida que [é fundamental] para a voz. Para você dar um estado de estar trôpega, cansada.

Tainá Müller: E cansa, viu! A gente acha que vai chegar lá, vai sentar em um banquinho… O quê? Eu saía exausta! Porque é [o uso de] uma musculatura diferente. Uma musculatura que não está preocupada com o visual. Que o corpo está disponível a fazer qualquer coisa para que essa voz saia da forma que a gente quer.

Rocco Pitanga: São as cenas mais difíceis. Você levantar uma porta [onomatopéia de quem faz força] com o microfone no mesmo eixo. O corpo todo contrai. E isso demanda uma energia total do corpo inteiro.

Tainá Müller: É outro tipo de tensão e musculatura.

Camila Pitanga: Está parecendo outra coisa! [risos]. No meu caso, eu sou analógica. Todo mundo tinha o seu iPad, maravilhoso, chique, para poder passar as páginas [do texto] sem barulho. Eu estava com as minhas páginas rabiscadas, rascunhadas. Então eu tinha que falar, fazer o texto - isso não é exatamente um mérito, era uma necessidade porque eu preciso dos textinhos - mas eu tive que fazer isso e conseguir virar a página sem interferir, sem a página ficar presente.

Tainá Müller: O casaco interfere. Às vezes eu ficava morrendo de frio. Mas o casaco se mexe, interfere. Então é totalmente outra dinâmica.

Rocco Pitanga: O estômago, né!

Tainá Müller: O estômago! Quando chegava perto do meio-dia os nossos estômagos que davam corda. Porque, assim, imagina a Barbara Gondon: ‘Batman! [barulho da barriga com fome] Ai, gente desculpa, foi meu estômago’. Era um trabalho muito visceral. Foi mesmo o trabalho mais visceral talvez que eu já tenha feito.

Camila Pitanga, você é a Mulher Gato?

Camila Pitanga: Não sou! Mas não posso dizer o que é!

 

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