Stephane Mahe/Reuters
Stephane Mahe/Reuters

Diego Luna explica por que decidiu interpretar Félix Gallardo em ‘Narcos: México’

Ator mexicano lança um olhar para além da violência da fronteira e diz que a responsabilidade pelo que ocorre no México é de todos

Entrevista com

Diego Luna

Scott Tobias, The New York Times

02 de março de 2020 | 07h00

Antes de mais nada, um aviso: essa entrevista contém spoilers da segunda temporada de Narcos: México.

Nela, Diego Luna interpretou o traficante de droga Miguel Ángel Félix Gallardo, fundador do cartel de Guadalajara, no estilo de um executivo, tentando conferir uma ordem corporativa a uma empresa repleta de foras da lei.

Passando o seu tempo em salas de diretoria repletas de fumaça, quartos de hotéis de luxo e repartições do governo, o Gallardo de Diego Luna parece um visionário que consegue unir feudos rivais da droga e subjugar a polícia e o governo por meio de subornos e intimidação. Mais dinheiro, menos violência.

“É o que realmente o empolga, eu acho”, disse Luna em entrevista por telefone. “Sobreviver às suas próprias ideias.”

Na segunda temporada de Narcos: México, lançada na Netflix, Gallardo paga pela sua arrogância. Depois de ordenar o sequestro, tortura e assassinato do agente do DEA Kiki Camarena (Michael Peña) no final da primeira temporada, o governo dos Estados Unidos responde com a Operação Legenda, uma grande investigação que aumenta as apreensões de drogas e afrouxa seu poder de controle do cartel. À medida que seu império desmorona, o frio empresário da primeira temporada recorre a ataques de violência e intimidação.

Embora fosse uma criança na cidade do México durante a ascensão de Gallardo, o ator lembra da agitação política que se seguiu quando a guerra contra as drogas se intensificou e o partido no governo começou a ruir. Diego encontrou um trabalho consistente em Hollywood desde a sua atuação revolucionária no filme E Sua Mãe Também (2002), mas ele e sua família residem em sua cidade natal, onde Diego é muito atuante em causas políticas e sociais.

Eric Newman, responsável pela série, teve de convencer Diego de que Gallardo não era um simples vilão, mas o sintoma de uma doença maior. Mas o ator também achou que era uma oportunidade de ajudar os não mexicanos a compreenderem o escopo e a complexidade de um problema que se estende para além das suas fronteiras.

Numa entrevista que concedeu a partir da Cidade do México, Diego falou sobre essa temporada final da série, a ascensão e queda de Félix Gallardo e o que, na sua opinião, os americanos precisam compreender sobre a guerra das drogas. A seguir, trechos da entrevista.

Como você descreveria a história de Félix Gallardo durante as duas temporadas? É uma pessoa cuja alma foi corroída, ou os eventos apenas revelaram nele a pessoa que sempre foi?

Uma mistura de ambas. Sua trajetória é dramática, muito interessante para um ator interpretar. É um indivíduo que começa com uma ambição que ninguém compartilha. E o seu desejo é criar um império, não o poder que ele vem a ter, mas poder que ele deseja e que ainda não existe. Ele não quer tirar a posição de outra pessoa. Ele está criando algo que ninguém em seu país sabia que era possível e está vendo algo que ninguém está vendo, ou seja, como as coisas mudam e o quão crucial o México se tornará. No início, não acho que ele sabe o que deseja ser de fato. Ele não se vê apenas como um traficante de droga, mas dirigindo uma estrutura que permite que as drogas cheguem ao norte. Ele pensa nessa operação como se fosse uma empresa. E é uma ambição constante que o leva a assumir um risco atrás do outro.

Qual é o raciocínio dele do ponto de vista moral? Ele acha que pode fazer isto e será um trabalho mais semelhante ao de uma empresa? É assim que ele se justifica?

Acho que sim. Ele acredita que o sistema que vão implementar vai se tornar mais importante do que qualquer pessoa envolvida nele. Obviamente o sistema tem de ser controlado por ele. ‘Não vamos desperdiçar tempo, dinheiro e recursos lutando uns contra os outros’, ele afirma. Para ele, coordenação é importante e o personagem, como eu o interpreto, compreende o poder da discrição. Ele não é uma pessoa exuberante. Ele sabe que pode ir muito longe se as pessoas não o notarem.

Neste sentido, ele é o contrário de Pablo Escobar nas duas primeiras temporadas da série. Não é o tipo ‘homem do povo’ e nem é impulsivamente violento.

Uma razão pela qual decidi interpretar Gallardo como fiz foi o quão pouca informação você encontra sobre a vida pessoal dele. São muitas perguntas. Há muitos espaços em branco. Na minha pesquisa, percebi que muitas perguntas não tinham resposta. Isso me permitiu criar um personagem com total liberdade, usando o material que eu tinha e preenchendo esses espaços vazios. O que ele construiu em Guadalajara foi incrível. Ele possuía hotéis, bancos, escolas, clubes de campo. E tudo funcionava com a elite interagindo. Isso me diz que ele aspirava ser um empresário. Minha percepção é de que sua ambição era estar no poder entre homens de terno, onde as reais decisões são tomadas, com políticos e executivos de empresas. Ele entendia a engrenagem por trás do sistema.

Como uma pessoa que cresceu na Cidade do México, você teve algum controle da precisão com que tudo isso está sendo apresentado? Sentiu a responsabilidade de assegurar que tudo fosse feito da maneira certa?

Fiz o que faço com tudo. Tive uma longa conversa com Eric Newman e desde o início deixei claro que se iríamos contar uma história sobre pessoas honestas perseguindo bandidos, não estava interessado. Porque se fosse simples assim nós não focaríamos exatamente este pesadelo que persiste ainda hoje. Para mim, é importante ver como todos os níveis de poder estão envolvidos para que algo como o cartel de Gallardo exista. E ele opera sua empresa tão bem que ela se torna um grande negócio para tantas pessoas. Quero saber o quão complicado isso era – não só a estrutura mexicana, mas a demanda que tem de existir para isso acontecer.

O que você acha que os americanos precisam entender dessa guerra das drogas da perspectiva mexicana que não entendem hoje?

A violência que estamos vivendo no México não é nossa violência. É uma violência que tem a ver com um problema global que precisa de uma solução global. Tem de ser enfrentada nesse sentido, ou nunca será solucionada. Gostaria que as pessoas entendam que a violência no México tem de acabar e precisamos da ajuda delas. Precisamos da ajuda de todos, não é algo que podemos resolver por nós mesmos. Estou falando de cidadãos, para ser claro. Não estou falando de intervenção. Somos todos parte disto. Esta violência não existiria se não existisse um mercado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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