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Criticada por religiosos, 'His Dark Materials' questiona o pecado original em aventura quântica

A trilogia 'Fronteiras do Universo', de Philip Pullman, já foi acusada de ‘ateísmo para crianças’; segunda temporada revela profecia da protagonista e novos mundos

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2020 | 15h26

Concebido como uma saga de fantasia repleta de crianças acompanhadas de animais, a série de livros Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, carrega um mistério sombrio e uma seriedade capaz de assustar até as aventuras mais famosas como a de Harry Potter ou Jogos Vorazes.

Não que Voldemort ou os desafios da capital Panem não sejam devastadores, mas a batalha da protagonista Lyra, na segunda temporada de His Dark Materials, aponta para um conflito, digamos, com a própria existência. 

A produção da BBC, exibida na HBO exibiu na segunda, 15, o penúltimo episódio da segunda temporada, inspirada em A Faca Sutil, que dá continuidade às aventuras iniciadas em A Bússola de Ouro. O último episódio vai ao na próxima segunda, 21, na HBO. 

Na trama, o mundo vitoriano que abrigava a casa de Lyra deixa de ser o único, e outros mundos estão disponíveis, após o feito de seu pai, Asriel, no fim da primeira temporada.

Agora, a jovem segue em sua jornada de exploração do multiverso, ao lado de Will, com o auxílio da Bússola de Ouro, chamado de aletiômetro, e da lâmina capaz de abrir portais para outros mundos. Os amigos fogem como podem da misteriosa Marisa Coulter, representante do Magisterium, a instituição religiosa que controla o mundo de Lyra.

No universo criado por Pullman, a alma humana tem sua expressão na forma de animais, os daemons, que são capazes de mudar de forma enquanto se é criança. A mudança para a vida adulta é marcada pela fixação dos daemons em um animal específico. Na primeira temporada, a instituição religiosa da série buscava maneiras de separar crianças e daemons, como justificativa para livrar os pequenos do peso do pecado original.

Sem qualquer tipo de carisma, as personagens da série carregam mais segredos do que podem. Lyra é a encarnação de uma profecia ainda pouco explicada - e entendida. Will não desistiu de encontrar o pai, que também esconde alguns segredos, revelados nesta temporada. Ao longo da segunda temporada, Marisa deixa de ser apenas uma figura associada ao poder destrutivo do Magisterium e também persegue a real identidade de Lyra. 

O desencontro entre gerações na trama não é tudo. Os livros que inspiraram a série já foram alvo de grupos religiosos e a Trilogia de Pullman foi tratada como "ateísmo para crianças." Em defesa, o autor inglês comparou sua criação com outros sucessos que também levam crianças para o universo da magia, como os livros de J. K. Rowling. "Eu fui direto ao ponto, dizendo coisas que são muito mais subversivas do que qualquer coisa que o pobre Harry Potter disse. Meus livros são sobre matar Deus", disse o escritor em uma entrevista.

Na segunda temporada, uma cientista relata sua experiência negativa com a religião. Especialista em física quântica, Marry Mallone desenvolveu uma pesquisa sobre matéria escura, capaz de explicar segredos do universo. Ao conhecer Lyra, a garota explica que em seu mundo a Poeira é alvo dos religiosos que tentam encobrir sua existência. As ideias se batem. Para o mundo de Lyra, a Poeira foi a entrada do mal no mundo, com o Pecado Original. Quando criança, os humanos estão livres da Poeira, que se prende ao corpo dos adultos. A existência de universos paralelos seria uma heresia. Na série, Mallone conta a Lyra que no passado foi uma freira, mas que em certo momento desistiu da fé. 

Mas as críticas de cunho religioso não são únicas.  Na ocasião, Pullman recebeu apoio do Arcebispo de Cantuária, representante espiritual da Igreja Anglicana, na Inglaterra. Ele afirmou que os ataques ao autor mostram as limitações e os perigos do uso da religião para oprimir.

De qualquer forma, His Dark Materials é divertido por multiplicar versões sobre uma mesma experiência. A Poeira do mundo de Lyra se traduz na matéria escura, na descoberta de Mallone. A série não tem tanto a ver com viagem no tempo, ou com deslocamentos temporais, já tratados em outras produções. Uma única versão das personagens transita sem tantos obstáculos por universos paralelos, una mais desenvolvidos que outros.

A terceira temporada, já confirmada, prepara a dupla Lyra-Will para mais uma afronta contra a religião: o mundo dos mortos. Descrito no fim da trilogia A Luneta Âmbar, a trama vai levar os jovens para lugares que desafiam o controle religioso do Magisterium. Até que a profecia de Lyra se cumpra, o multiverso corre todos os riscos. 

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