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Como os criadores de ‘Cursed’ conjuraram uma nova perspectiva sobre o rei Arthur

Frank Miller e Tom Wheeler falam sobre os desafios de reimaginar uma história tão conhecida para um público moderno e sobre a sensação de trazê-la às telas

Stuart Miller, The New York Times

18 de julho de 2020 | 11h00

Merlin, rei Artur, a dama do lago. Sim, todos nós conhecemos a história.

Ou talvez não. Imagine uma versão em que Merlin é um bêbado que perdeu a magia; Artur é um zé-ninguém ambicioso, com escrúpulos questionáveis; e a Dama do Lago é uma fada adolescente com poderes que ela não consegue controlar e nem sabe se quer.

No mundo pós-Game of Thrones, o sonho de toda grade de programação é encontrar a próxima grande série espetacular - e, na era da covid-19, uma série que vale a pena maratonar tem o poder das espadas místicas. Esta é a mágica que a Netflix espera fazer com Cursed - A Lenda do Lago uma série de fantasia live-action criada por Frank Miller e Tom Wheeler que põe a jovem Dama do Lago no centro do mito arturiano.



A estreia da primeira temporada, nesta sexta-feira, 17, será a última fase de um tipo de projeto dos sonhos para Miller e Wheeler, que começaram a colaborar no romance ilustrado de 2019 no qual a série se baseia. Wheeler, escritor e produtor talvez mais conhecido pelo roteiro de Gato de Botas (2011), era um autodeclarado “fã de Frank Miller a vida inteira” quando os dois foram apresentados, anos atrás. Miller, cultuado artista gráfico e de quadrinhos, já havia transposto suas obras para as telas uma porção de vezes: Demolidor, O Cavaleiro das Trevas e 300, além de Sin City, o filme que ele também ajudou a dirigir.

Mas Miller nunca tinha enfrentado Artur e ficou empolgado quando descobriu que Wheeler também era apaixonado pelas lendas medievais.

“Sou fascinado com a história do Rei Artur desde pequeno, quando vi A espada era a lei da Disney”, disse Miller numa entrevista pelo Zoom junto com Wheeler, este mês. “Acabo adorando todas as suas encarnações, por mais diferentes que sejam”.

Então eles decidiram criar sua própria versão, um tipo de "prequel" com uma abordagem bem moderna, que se passa antes de Artur virar rei. Nessa versão, a jovem dama Nimue está sendo caçada junto com suas colegas fadas - “fae”, na língua de Curse. Seus perseguidores são os Paladinos Vermelhos, uma seita religiosa violenta e intolerante com um desprezo desconfortavelmente familiar pelos “outros”.

“Parecia um grande parque de diversões”, disse Wheeler. “Eu com certeza tinha aquele sonho de fã de ver o que Frank iria fazer com sua estética e narrativa naquele mundo”.

Então, Wheeler escreveu e Miller ilustrou. O livro saiu no ano passado, quando a Netflix já o havia adquirido.

Com seus visuais suntuosos, Cursed pode suscitar comparações com Game of Thrones e Senhor dos Anéis. Nimue (interpretada por Katherine Langford) compartilha alguns traços com Harry Potter (ela é a garota que sobreviveu) e a Carrie de Stephen King (uma adolescente que sente que seus poderes são uma maldição). É uma concorrência acirrada - e isso para não falar das muitas adaptações anteriores das lendas arturianas, entre elas Camelot, Excalibur e, talvez a mais inescapável, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado.

Miller e Wheeler falaram sobre os desafios de reimaginar uma história tão conhecida para um público moderno e sobre a sensação de trazê-la às telas. Estes são trechos editados da conversa.




 

Foi muito desafiador criar algo novo nessa saga?


FRANK MILLER: Você tem que abordar esse material pensando que tudo é uma oportunidade, não uma limitação. Temos uma mitologia sem limites, que pode ser interpretada de várias maneiras: você pode contar como se fosse uma história política, uma história mitológica ou um romance.

TOM WHEELER: Tínhamos a obrigação de trazer algo novo para a mesa depois de tantas interpretações. Isso nos levou à imagem da jovem estendendo a espada através da água e a oferecendo a Artur. Ficamos ligados nessa imagem por causa das perguntas que evoca: quem é ela? Por que está entregando a espada? Qual é a relação entre eles? Por que ela tinha chegado a esse final trágico e misterioso? Conversamos sobre essas coisas como se fizessem parte de um conto de fadas sombrio e, à medida que a personagem de Nimue crescia nas nossas cabeças, ela tomava decisões - às vezes decisões com erros absurdos. Mas ela tomou conta da história, o que foi ótimo.

MILLER: O que Tom e eu fizemos foi escolher e decidir, usando essa jovem e seu destino para fazer essa jornada por todas essas peças da mitologia, da fantasia e da política.

WHEELER: Quando começamos a conversar sobre essa história, minha filha estava com 10 ou 11 anos e não tinha personagens a quem se agarrar nessa mitologia. Mas os temas - dominar a espada, assumir o controle do seu próprio destino, ter responsabilidade desde cedo - fizeram com que a história se transformasse numa coisa com que ela conseguia se conectar. Essa ideia de ser o herói da sua própria história vale para todos nós. É ótimo ter uma mulher com esse tipo de força.


 

A criação do livro facilitou a adaptação para a TV?


WHEELER: Às vezes, quando tentávamos adaptar certas cenas, eu falava: “Quem escreveu isso? Quem é responsável por isso?”. Tinha momentos em que as coisas pareciam perfeitamente claras no livro, e nós nos perguntávamos como as deixaríamos claras também nas cenas. Não tínhamos a quem culpar além de nós mesmos. O maior desafio foi adaptar um capítulo que se passa dentro da cabeça da Nimue e tem uma relação íntima com o lado leitora dela. Precisamos mudar completamente para a série e mostrar tudo através do comportamento.

MILLER: Muitas coisas na cabeça de Nimue viraram locações e cenários fantásticos. É isso que a arte da fantasia faz, então me senti muito em casa vendo as estalactites e as pontes como indicações do estado de espírito da personagem.

 

Como vocês selecionam, evitam, honram ou subvertem todas aquelas conexões com outros filmes e séries de fantasia e com todas as histórias de Artur e Merlin?


MILLER: Esta é uma das perguntas mais difíceis. Você não pode ignorar tudo que está por aí. É sempre uma dança: será que, de tanto evitar essas influências, acabo deixando passar uma chance de tirar do papel uma ideia ótima? Você não pode fazer isso. Você tem que trabalhar duro no seu conceito central - construir uma identidade própria, ser fiel a ela e não se preocupar se houver alguma sobreposição com outras coisas.

WHEELER: A mitologia arturiana é o primeiro universo compartilhado do mundo. Estamos apostando nisso e trazendo algo novo, mas ainda podemos homenagear versões mais antigas. Eu amo Excalibur e adoraria encontrar imagens que nos conectassem a esse mundo. O Cálice Sagrado sempre esteve lá, desde o início. Estávamos viajando pela Escócia e Irlanda e, quando vi um castelo, falei: “Será que estou tendo a lembrança de alguma vida passada? Estou reconhecendo este lugar”. Aí me dei conta de que era o castelo onde Lancelot mata toda a festa de casamento em Cálice Sagrado. Quando as cenas dão errado, a gente diz: “Acho que estamos entrando no território do Cálice Sagrado”.

MILLER: Ainda não fizemos a cena do “tragam seus mortos”.


 

Foi difícil manter a mente aberta na hora de escolher o elenco, dado que vocês já tinham criado o livro?


MILLER: Você tem que ficar com a mente aberta, para não perder as surpresas agradáveis.

WHEELER: É uma combinação entre o que você acha que o personagem é e as surpresas que o ator traz. Lily Newmark, que interpreta Pym, conseguiu o papel assim que entrou - ela estava atrasada, um pouco desorganizada. Tinha uma energia ótima para a personagem.

MILLER: Gustaf Skarsgard chegou e logo tomou o papel de Merlin. E adorei a Emily Coates como a irmã Iris assim que a vi. Ela é muito letal.

WHEELER: Ela estava muito assustadora. No ensaio, a equipe se afastava dela.


 

Os escritores costumam falar sobre aproveitar as personalidades dos atores e aumentar os papéis de atores que são especiais. Isso foi possível, uma vez que vocês estavam trabalhando com o material do livro?


WHEELER: Sentimos a obrigação de continuar descobrindo coisas novas e não tratar nosso livro como uma coisa conservada em âmbar. De ir aonde os personagens precisavam ir. Tentamos não contradizer completamente o livro, mas a série vai ter histórias que não estão no livro. Então, os personagens se expandiram por causa das coisas que os atores nos inspiravam a escrever - por causa daquilo que traziam com suas atuações. A coisa toda ficou bem orgânica. E essa foi a melhor parte da diversão.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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