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Como 'La Casa de Papel' deu origem a uma avalanche de séries espanholas

Conheça as produções da Espanha que estão chegando ao catálogo dos serviços de streaming

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

29 de março de 2021 | 20h00

O inesperado sucesso de La Casa de Papel, que estreou em 2017 na Netflix, provocou uma corrida por outras séries da Espanha. As Telefonistas, também de 2017, Merlí, que começou na verdade em 2015, e Elite, em 2018, entraram nas playlists de muitos espectadores. A indústria correu atrás, com a Netflix, a HBO, o Amazon Prime Video e a ViacomCBS abrindo centros de produção no país. O que era uma marola virou um tsunami. 

Praticamente não passa mês sem o lançamento de uma nova série produzida na Espanha, e não só na Netflix – que, aliás, estreou em março Sky Rojo, a nova produção dos criadores de La Casa de Papel. HBO e Amazon Prime Video também embarcaram na mesma onda. 

Só o Amazon Prime Video tem pelo menos cinco séries espanholas disponíveis para os assinantes no momento. A ambiciosa O Internato: Las Cumbres, por exemplo, tem como cenário um rígido colégio interno para adolescentes considerados problemáticos, instalado num antigo monastério numa região remota da Espanha. Mas o lugar esconde um mistério, evidente depois de uma tentativa de fuga de dois dos jovens, Manu (Carlos Alcaide) e Amaia (Asia Ortega), e a aparição de pessoas usando as máscaras de pássaro que viraram símbolo da época da peste negra. “Creio que é uma boa maneira de honrar nosso país, cheio de mitologia, mistério, e que está produzindo séries tão potentes”, disse Ortega em entrevista ao Estadão, por videoconferência. 

A série é um “reboot” de O Internato, que teve sete temporadas entre 2007 e 2017. Mas pouca coisa ficou do original. “O universo é o mesmo, a atmosfera e os roteiristas, também, mas a história é totalmente diferente”, contou em entrevista ao Estadão o ator Albert Salazar, intérprete de Paul, um dos alunos tentando desvendar o que se passa.

La Templanza, que acabou de entrar no ar no Amazon Prime Video, vai à Espanha – e ao México – do passado, mais precisamente do século 19. O drama romântico, baseado no livro de Maria Dueñas, segue duas histórias paralelas até que o destino de Soledad Montalvo (Carla Campra na juventude e Leonor Watling na fase adulta) e Mauro Larrea (César Mateo e depois Rafael Novoa) se cruze. Ela é a rica herdeira de uma vinícola na região de Jerez, sujeita a casamentos arranjados para preservar a honra, a fortuna e a posição social da família. Enquanto isso, Mauro parte para fazer a América no México, acompanhado dos dois filhos pequenos, depois de perder a mulher no parto do caçula, Nicolás. Anos mais tarde, uma reviravolta faz com que Mauro precise rever sua vida. 

La Templanza pode se passar nos fins do século 19, mas os personagens são bem contemporâneos. Foi isso que chamou a atenção da atriz Esmeralda Pimentel, que faz a filha de Mauro, Mariana, na fase adulta. “As mulheres em geral são muito avançadas para a época, têm força e resiliência”, afirmou Pimentel em entrevista ao Estadão. “E refletem como lutamos ao longo da história para conquistar espaços.”

Rafael Novoa, que é colombiano, e Esmeralda Pimentel, mexicana, estão aproveitando a boa fase das produções espanholas. “A globalização da televisão, provocada pelas plataformas de streaming, está se abrindo para todos”, falou Novoa ao Estadão. “É incrível a variedade de línguas e produções disponíveis.”

A Peste chegou ao Brasil em plena pandemia, pela HBO – que também estreou recentemente outras produções espanholas, como Foodie Love, Arde Madri e Pátria e se prepara para lançar 30 Monedas, de Álex de la Iglesia. A série também vai à Espanha do passado, mais precisamente ao século 16. O personagem principal é Mateo Núñez (Pablo Molinero), na Sevilha no meio de mais uma onda de peste bubônica. Em troca de um perdão da sua sentença pela Inquisição, investiga uma série de assassinatos. A segunda temporada salta para cinco anos após o surto, quando Sevilha prospera novamente, mas enfrenta a superpopulação e a desigualdade social. Mateo, como o Mauro de La Templanza, também viaja para a América. “Sua viagem é meio camicase, como realmente eram muitas dessas jornadas”, explicou Molinero em entrevista com participação do Estadão, por videoconferência. “Mas a convivência com os povos nativos devolve de alguma maneira sua fé no valor da comunidade.”

O personagem mantém sua melancolia. “Ele tem uma depressão por ter nascido numa época sombria demais, tendo um espírito renascentista, à frente do seu tempo”, lembrou Molinero. Ele acredita que então, como agora, uma pandemia pode acentuar o lado ruim do ser humano – lembrando que a série foi filmada bem antes do início da covid-19, com sua segunda temporada estreando em 2019 na Europa. 

“Os ricos tentam se salvar, os pobres sofrem mais, como sempre. Muita gente só quer saber de fazer dinheiro. A corrupção corre solta. A pior peste é o ser humano mesmo”, explicou o ator. “Eu espero que nós lidemos um pouco melhor com o fim da pandemia. A vantagem de hoje é que estamos muito mais conectados uns com os outros, é muito mais fácil denunciar o que está errado.”

A Peste é uma superprodução digna de Hollywood. A primeira temporada, por exemplo, teve 130 locações diferentes, cenas com 2 mil figurantes e orçamento de US$ 1,7 milhão (cerca de R$ 9,8 milhões) por episódio, segundo a revista Variety. 

 A prova da robustez da indústria espanhola é que, além dos centros de produção estabelecidos pelas gigantes do ramo, o primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou na semana passada um plano para oferecer US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 11 bilhões) até 2025 para apoiar o cinema e a televisão espanhóis, encorajando grandes estúdios estrangeiros a filmar e estabelecer polos de produção no país. 

Uma volta ao mundo pela tela

As séries espanholas não são as únicas a alcançar o mundo inteiro por causa da globalização impulsionada pelas plataformas de streaming. Há a sul-coreana Kingdom (Netflix), sobre um príncipe tendo de enfrentar uma epidemia de ressurreição de mortos. As alemãs Das Boot (Starzplay), um drama da 2.ª Guerra passado em grande parte nos submarinos nazistas, e Dark (Netflix), uma série sobre viagem no tempo que deu nó na cabeça de muita gente. 

A italiana Zero Zero Zero (Amazon Prime Video) é um drama de crime sobre o comércio de cocaína, baseada num livro de Roberto Saviano. A sueca Beartown (HBO) investiga o efeito do ambiente de masculinidade tóxica numa pequena cidade obcecada por hóquei. A israelense Shtisel, que estreou sua 3.ª temporada na Netflix, mostra o cotidiano de uma família ultraortodoxa em Jerusalém. 

A norueguesa Beforeigners (HBO) tem pessoas voltando da pré-história, da era viking e do século 19 e emergindo na Oslo de hoje. A francesa Lupin (Netflix) é um thriller de mistério estrelado por Omar Sy, como filho de imigrante senegalês que deseja vingança pela prisão do pai. 

Também da França, vem a comédia Dix pour Cent, que estreou sua 4.ª e última temporada na Netflix. Desvenda os bastidores do cinema e da TV, um pouco como a inglesa Extras, sobre figurantes, e a mezzo inglesa, mezzo americana Episodes, sobre um casal de roteiristas lidando com os excessos de Hollywood, especialmente do ator Matt (vivido por Matt LeBlanc). Só que, em Dix pour Cent, criada por Fanny Herrero, os verdadeiros heróis são os agentes dos famosos e seus assistentes, como Andréa (Camille Cottin), Gabriel (Grégory Montel) e Hervé (Nicolas Maury). 

A cada episódio, há a participação especial de um ator ou diretor francês famoso. No começo não foi fácil, contou Marc Fitoussi, showrunner da 4.ª temporada ao lado de Antoine Garceau, em entrevista ao Estadão, durante o festival Canneseries. “Eles não sabiam o que iam encontrar. Mas, depois, um monte de gente pedia para participar.” Passaram pela série Cécile de France, Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Isabelle Huppert e Monica Bellucci, entre outros. Na temporada derradeira, aparecem Jean Reno, Charlotte Gainsbourg e Sigourney Weaver. “A Sigourney disse que amava a série, porque as situações valiam tanto para o cinema francês quanto para Hollywood”, disse Garceau. 

Para o ator Nicholas Maury, que também falou ao Estadão durante o Canneseries, foi uma grande surpresa ver o sucesso da série. “Recebo muitas mensagens nas redes sociais de brasileiros dizendo que amam a série e queriam que fosse ao Brasil. Será que eles gostam por causa das paisagens de Paris?”, perguntou o ator. 

Ver Paris nunca é ruim. Mas a explicação talvez seja mais simples: os brasileiros e espectadores de todo o mundo simplesmente se conectam com os perrengues vividos pelos funcionários da agência de talentos. “Acredito que no início viam por causa das estrelas, mas depois se apaixonaram por essa família de agentes”, disse Fitoussi.

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