Liam Daniel/Netflix
Liam Daniel/Netflix

Como a série 'Bridgerton' aborda o colonialismo na Índia

Entenda a relação entre a Inglaterra e a Índia, em destaque na segunda temporada de 'Bridgerton'; atenção este texto contém spoilers

Desiree Ibekwe, The New York Times

04 de abril de 2022 | 15h00

* Este texto contém spoilers da segunda temporada de Bridgerton

No primeiro episódio da nova temporada de Bridgerton, disponível na Netflix, Kate Sharma (Simone Ashley) e a sábia Lady Danbury (Adjoa Andoh) têm uma conversa franca. Kate explica que sua família veio da Índia para Londres para que sua irmã mais nova, Edwina, possa se casar na alta sociedade. Aí ela fala sobre a criação de Edwina e como a viu “estudar duas vezes mais e trabalhar duas vezes mais do que qualquer outra pessoa”. Lady Danbury faz que sim com a cabeça.

A primeira temporada de Bridgerton foi notável por incluir várias personagens negras aristocráticas, como Lady Danbury, na sua imaginação sensual e luxuosa da Londres do século 19. Na segunda, a família Sharma é central na trama, pois Anthony (Jonathan Bailey), filho mais velho da família branca Bridgerton, se envolve em um triângulo amoroso com as duas irmãs Sharma.

Incluir uma família do sul da Ásia na sociedade da Regência foi uma maneira de expandir o “mundo multicolorido e multiétnico da série”, disse o showrunner Chris Van Dusen em entrevista recente.

Assim como na primeira temporada, os novos episódios tratam a raça das personagens como parte constituinte de sua identidade mais ampla. A herança cultural da família Sharma está sempre presente, revelada nas cores de suas roupas, no desgosto de Kate pela Grã-Bretanha, nas menções à Índia e, mais adiante na temporada, em uma tradicional cerimônia de Haldi antes do casamento.

Van Dusen disse que queria que a série fosse “a mais autêntica possível, especialmente quando se trata de infundir neste mundo detalhes específicos ligados à herança da família”. Ele colaborou com consultores históricos e especialistas para moldar as histórias das novas personagens, acrescentou.

O mundo Bridgerton pode ser ficcional, mas incluir pessoas de ascendência indiana em um enredo sobre a Londres da era da Regência tem amparo histórico. A Índia e a Inglaterra estavam intimamente ligadas na época: em 1800, a Índia estava sob o controle exploratório da Companhia das Índias Orientais, uma organização mercantil e, mais tarde, do estado britânico. Como potência colonial, a Grã-Bretanha tinha tropas e administradores estacionados na Índia, controlava os recursos da nação e cobrava impostos de seu povo. Então havia fluxos constantes de pessoas entre os dois países.

“Muitas vezes pensamos na Inglaterra regencial como um povo convencionalmente branco porque todas as personagens de romance retratadas nas narrativas televisivas são brancas”, disse Durba Ghosh, professora de colonialismo britânico na Universidade de Cornell, que lembrou os romances da autora Jane Austen como exemplos. Mas essas representações não “significam que as pessoas que de fato viviam na Regência fossem todas brancas”, acrescentou Ghosh.

Em Bridgerton, a mãe britânica de Kate e Edwina foi rejeitada por seus pais aristocráticos quando escolheu se casar com o pai das meninas, um funcionário indiano de classe baixa. Seu desgosto se concentra na “posição e título” do homem, com implicações racistas. O que está não aparece na série são menções aos aspectos violentos do domínio colonial britânico na Índia.

A série se baseia em um conjunto de romances de Julia Quinn (publicados no Brasil pela Arqueiro, do Grupo Sextante). “Sempre quero honrar a história, mas, no final das contas, é um mundo reimaginado”, disse Van Dusen. Ele acrescentou que via a série como um “casamento fascinante onde a história e a fantasia se encontram”.

A representação das relações entre mulheres indianas e homens brancos é outro exemplo desse encontro. Na série, Kate está determinada a encontrar o par perfeito para sua irmã e rejeita aqueles que não atendem aos seus padrões, entre eles Lorde Anthony. Ghosh, que escreveu o livro Sex and the Family in Colonial India, disse que funcionários da Companhia das Índias Orientais, de soldados e mercadores a oficiais de alto escalão, muitas vezes tinham relações com mulheres indianas. Dada a dinâmica de poder em jogo, porém, “não há como saber quão consensuais eram essas relações”, disse Ghosh.

Não apenas as mulheres indianas estavam entrando em relacionamentos com homens ingleses na Índia do século 19, mas também havia mulheres de ascendência indiana vivendo na Inglaterra durante esse período. Autoridades britânicas que tiveram filhos com mulheres indianas às vezes tinham ambições de que essas crianças vivessem e recebessem educação na Europa. A história de Kitty Kirkpatrick é uma evidência desse desejo: filha de uma nobre muçulmana e um administrador da Companhia das Índias Orientais, ela foi separada de sua mãe, enviada para a Inglaterra ainda criança e acabou se integrando à sociedade inglesa.

Também havia casos de mulheres indianas que se relacionavam com homens europeus, e assim entravam na sua sociedade, como foi o caso de Helene Bennett. Bennett, também conhecida como Halima Begum, provavelmente fazia parte da elite indiana. Na Índia, provavelmente durante a década de 1780, ela começou um relacionamento com Benoît de Boigne, soldado francês da Companhia das Índias Orientais com quem teve dois filhos. Tempos depois, ela viajou com eles para a Inglaterra e ali permaneceu até a morte.

O período também é caracterizado por um fluxo de bens e cultura entre os dois países. Em Bridgerton, Kate explica as coisas que ensinou a Edwina na esperança de que ela não ficasse na miséria: “Como tocar piano” e andar e falar “da maneira certa”. Quando Edwina chega ao mercado de casamentos de Londres, os frutos dessa educação ajudam a ganhar a aprovação da rainha e o título de “diamante da estação”. Entre as elites da Índia durante a era da Regência, havia bastante conhecimento dos costumes de seus pares europeus.

Em muitas dessas comunidades indianas, “as pessoas tentavam replicar o que achavam que era um circuito social europeu”, disse Ghosh. “Elas faziam banquetes e bailes de máscaras e celebravam a coroação dos reis”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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