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Como a série 'Bárbaros', da Netflix, discute a origem da extrema direita

Nazistas têm usado a Batalha da Floresta de Teutoburgo, retratada em ‘Bárbaros’, como ponto de convergência ideológica da Alemanha

Thomas Rogers, The New York Times

11 de novembro de 2020 | 05h00

BERLIM - Para aqueles que não estão familiarizados com a história da Alemanha, a nova série da Netflix Bárbaros pode não parecer particularmente provocativa. O épico histórico – uma reminiscência da longa série do canal History Vikings – é centrado em uma tribo de moradores do primeiro século d.C., que tenta sobreviver em uma região de floresta onde hoje é o norte da Alemanha. Seus protagonistas robustos entram em conflito violentamente com tribos rivais e, acima de tudo, com as forças romanas que controlam a área.

Mas os seis episódios da série são construídos em direção à primeira representação ficcional da TV alemã de um evento que permanece preocupante mesmo depois de dois milênios: a Batalha da Floresta de Teutoburgo, que pôs fim às aspirações do Império Romano de controlar grande parte do que hoje é a Alemanha.

Nacionalistas alemães, incluindo os nazistas, têm usado a batalha como um ponto de convergência ideológica – um suposto momento de fundação para a civilização alemã e prova de seu pedigree superior e habilidades de combate. Até hoje, a batalha e o líder das tribos na luta, Armínio, continuam sendo fontes de inspiração para extremistas de extrema direita, que regularmente fazem peregrinações a lugares relacionados.

A série da Netflix chega em um momento em que há maior interesse alemão no período, coincidindo com uma importante nova exposição de achados arqueológicos, The Germanic Tribes (As Tribos Germânicas), na Galeria James Simon na Ilha dos Museus, em Berlim. Tanto os criadores de Bárbaros quanto os curadores da exposição enfrentaram o dilema de como retratar o período para um público amplo sem dar oxigênio aos extremistas.

Arne Nolting, roteirista e showrunner da série, explicou via Zoom que parte de sua inspiração para fazer um programa sobre a Batalha da Floresta de Teutoburgo foi um desejo de recuperar da extrema direita um momento crucial na história europeia. “Não queríamos ficar com medo e deixar o assunto para as forças que detestamos”, disse ele.

A batalha tem sido um ponto de inflamação política desde o século 19, quando a Alemanha moderna era um mosaico fragmentado de estados menores. Os nacionalistas abraçaram Armínio como um símbolo da identidade alemã em seu esforço pela unificação. Em 1875, quatro anos após a fundação do Império Alemão, os oficiais inauguraram uma estátua colossal de Armínio na Floresta de Teutoburgo. (Acredita-se agora que a batalha ocorreu a 80 quilômetros de distância, em um local chamado Kalkriese.)

Sob o Terceiro Reich, o ideólogo nazista Alfred Rosenberg descreveu Armínio como parte de uma “linhagem de ancestralidade alemã” que levou a Adolf Hitler, e os livros escolares do período afirmavam que ele havia salvado “a pureza do sangue alemão”. Em 2009, o extremista de extrema direita Partido Nacional Democrático da Alemanha organizou uma “marcha pela memória” para comemorar a batalha, sob o lema “2.000 anos de luta contra a infiltração estrangeira”.

Nolting disse que ele e os outros showrunners estavam conscientes dessa bagagem política enquanto elaboravam o arco narrativo de Bárbaros, que estreou em 23 de outubro. A série se concentra em três personagens com conexões com uma tribo da vida real chamada queruscos: Thusnelda (Jeanne Goursaud), filha de um líder querusco; Folkwin (David Schütter), um guerreiro fictício; e Armínio (Laurence Rupp).

Em sua narrativa, Armínio nasce querusco, mas é levado pelos ocupantes romanos quando menino, e retorna apenas como um integrante do exército imperial – um retrato que reflete a crença dos historiadores de que o Armínio da vida real serviu à Roma militar antes de mudar de lado. A trama da série começa quando os romanos exigem grandes tributos dos queruscos , aumentando as tensões e gradualmente levando Armínio a duvidar de sua lealdade ao império.

Jan Martin Scharf, outro roteirista e showrunner, disse que a equipe de produção tinha decidido por uma abordagem conscientemente corajosa do assunto para evitar glorificar a violência entre os queruscos e os romanos. Eles também queriam enfatizar a identidade de Armínio como migrante, disse ele, acrescentando: “Era importante para nós não mostrá-lo como um grande herói de guerra ou o fundador de um império alemão”.

E os criadores escalaram Rupp, um ator austríaco, para o papel em parte porque, com sua pele e cabelo mais escuros, ele não se encaixava nas representações loiras de Armínio de olhos azuis que eram comuns no passado.

Quando se tratou de supervisionar a exposição Germanic Tribes, Matthias Wemhoff também descobriu que retratar este período da antiguidade alemã era um esforço árduo. Wemhoff, diretor do Museu de Pré-História e História Antiga de Berlim, disse em uma entrevista que ele e sua equipe adotaram uma abordagem prática para evitar atrair a extrema direita.

A primeira exposição de pesquisa de achados arqueológicos de povos germânicos apresenta mais de 700 itens dos séculos 1º a 4ºd.C. – incluindo armas, itens pessoais e cerâmicas – em displays discretos. Também apresenta uma evidência a respeito das formas como os achados arqueológicos do período foram politizados no passado.

Wemhoff disse que sua equipe se preocupou “muito” em como evitar atrair a extrema direita e que escolheu um subtítulo contido – Perspectivas Arqueológicas – por esse motivo. “Nunca tivemos uma exposição com um título tão simples”, disse ele.

Wemhoff afirmou que muitos alemães tinham uma visão falsa ou clichê do período porque ele não foi amplamente ensinado nas escolas alemãs desde a Segunda Guerra Mundial. “Após o período nazista, o assunto foi queimado”, disse ele. “As pessoas fizeram um grande desvio em torno dele.”

A maior suposição falsa, disse ele, é que as tribos germânicas envolvidas na batalha foram as precursoras dos alemães modernos. Na verdade, observou ele, a maioria das tribos da área abandonou seus assentamentos e deixou o território alemão dos dias modernos a partir do final do século 4º.

Os alemães de hoje, acrescentou Wemhoff, são descendentes de grupos que vieram de outras regiões da Europa. “Não há continuidade”, disse ele. “Para as pessoas que têm essas imagens fortes e preexistentes em suas cabeças, é um desafio se envolver com o assunto.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

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