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Com superpoderes, série 'The Nevers' propõe paralelos entre a era vitoriana e a atual

Produção da HBO lida com as acusações de assédio e toxicidade contra seu criador, Joss Whedon

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

10 de abril de 2021 | 05h00

As mulheres da série The Nevers podem até usar corseletes, saltos e cabelos cuidadosamente penteados, como é esperado das mulheres na Inglaterra vitoriana. Mas a maior parte das personagens da atração, que estreia neste domingo, 11, às 22h, na HBO e na HBO Go, com novos episódios toda semana, não se encaixa nos moldes da época. 

No centro da trama estão a cientista Penance Adair (Ann Skelly) e uma viúva boa de briga, Amalia True (Laura Donnelly). “O que mais me chamou a atenção foi justamente Amalia não ser a mulher típica deste período”, disse Donnelly, em entrevista com participação do Estadão. “Para mim foi muito empolgante estar numa história de época fazendo uma personagem que jamais apareceria num drama como este, usando aquelas roupas, mas sendo rebelde e falando o que pensa.”

Penance e Amalia não são apenas mulheres à frente de seu tempo. Depois de um evento misterioso, elas fazem parte de um grupo chamado de “touched” (ou “tocados”), tendo adquirido poderes extraordinários e, claro, a reação chocada, preconceituosa e violenta da sociedade conservadora. Penance enxerga formas de energia, enquanto Amalia vê flashes do futuro e luta como a Viúva Negra. As duas moram com outros desses mutantes, a maioria mulheres, num orfanato que remete à escola do Professor X, de X-Men

The Nevers, afinal, é criação de Joss Whedon, que abandonou a série depois dos seis primeiros episódios alegando motivos pessoais. Coincidentemente ou não, na época ele estava sendo investigado pela Warner (que faz parte do mesmo conglomerado que a HBO) sobre sua conduta no set de Liga da Justiça, criticada pelo ator Ray Fisher e corroborada por outros membros do elenco. Pouco depois da saída, Whedon foi acusado de assédio e de criar um ambiente tóxico em Buffy, a Caça-Vampiros, exibida entre 1997 e 2003. 

O elenco de The Nevers jura não ter presenciado nada do tipo na produção, que foi interrompida também pela covid-19 (por conta disso, seis episódios dos dez programados vão ao ar num primeiro momento). Para tornar as coisas mais complexas e confusas, a série quer ser um ataque bastante direto ao patriarcado branco, heterossexual, classista e racista da era vitoriana, com uma maioria de personagens femininas que lutam contra o status quo. “A opressão de então era sistêmica, mas os inimigos eram evidentes”, disse Donnelly. “Hoje, talvez não sejam tão óbvios. Mas existem. Ainda temos um longo caminho a percorrer.” 

Para o ator Tom Riley, que faz Augie Bidlow, um aristocrata que esconde sua condição de “tocado”, é ótimo que os atuais roteiros coloquem a temática em discussão. “Às vezes a sensação é de estar num oceano de mudanças, o que pode fazer alguns se sentirem incomodados. Mas isso não significa que não seja maravilhoso. Se você se sente incomodado, tente se perguntar o porquê, repensar e se juntar a todos num futuro inevitável que só pode ser melhor do que o presente.” James Norton, que faz o Lorde Swann, um aristocrata pansexual, acredita que os debates dentro da própria indústria são necessários, e que a transformação é inevitável. “A mensagem da série é que, como sociedade e como pessoas, só cresceremos se enfrentarmos essas questões.”

'Queria ter o carisma do Hugo', diz James Norton

Com pinta de galã, James Norton prefere papéis apetitosos como o Hugo Swann de The Nevers, um aristocrata sem fortuna que se relaciona com homens e mulheres. Sobre esse assunto, ele conversou com o Estadão.

O Hugo sempre está flertando. Aprendeu alguma coisa com ele?

Eu sou péssimo de flerte! Na época da escola, eu era ainda pior, me fechava e me tornava terrivelmente inglês. Eu adoraria ter um pouco da autoconfiança e do carisma do Hugo. Mas acho que o segredo é não ter medo de ofender. Ele não liga para o que vão achar dele. Se alguém rejeitá-lo, ele não se importa. Já eu me importo. 

Como é participar de uma série sobre pessoas que têm poderes?

É muito bacana fazer uma série divertida e escapista, mas que, ao mesmo tempo, emociona e tem uma mensagem sobre inclusão e celebração da diferença e da variedade, porque é isso que torna a humanidade interessante e poderosa. 

Série busca apresentar uma exatidão histórica

Durante muito tempo, todos os personagens de filmes e séries de época eram brancos, e as mulheres, em sua maioria, eram apenas belos enfeites nas aventuras dos homens. Mas isso mudou. The Nevers vem numa onda de séries e filmes que se passam em outros períodos, mas não se escondem atrás de uma suposta exatidão histórica. Até porque é inimaginável pensar que não havia ninguém das colônias do Império Britânico na Londres vitoriana. 

Entre os “tocados”, por exemplo, estão Harriet (Kiran Sonia Sawar), de ascendência sul-asiática, que transforma tudo em vidro, Annie (Rochelle Neil), negra e que domina o fogo, e o médico Horatio (Zackary Momoh), um haitiano que cura com as mãos. “Eu li muito sobre a Princesa Sophia, que era suffragette, para entender o que era ser uma mulher do Sul Asiático em Londres na época”, contou Sawar ao Estadão.

Outras séries, como o megassucesso Bridgerton (Netflix) e The Spanish Princess (Starzplay), esta última inspirada na história de Catarina de Aragão, também fazem parte dessa onda. “Não faz sentido imaginar que todas as mulheres ficavam sentadinhas, comportadas, só usando belos vestidos”, disse Emma Frost, showrunner de The Spanish Princess

Catarina de Aragão foi extremamente influente, mesmo tendo passado para a história como a mulher abandonada pelo rei Henrique 8º em favor de Ana Bolena. Ela chegou a ir, grávida, discursar para as tropas inglesas no campo de batalha. “Os relatos históricos também dão conta de que a Europa sempre teve pessoas de todo o mundo. A questão é que a maior parte dos historiadores são homens brancos, que nem sempre se interessam por essas pessoas.”

Em The Spanish Princess, por exemplo, a dama de companhia de Catarina é Lina de Cardonnes (Stephanie Levi-John), que era moura.

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